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24/05/2005

Premiê alemão Gerhard Schröder está acabado?

The New York Times
Richard Bernstein

Em Berlim
Se uma das intenções do chanceler Gerhard Schröder, ao pedir a antecipação da eleição nacional no último domingo (22/05), era fornecer uma surpresa à Alemanha, ele certamente foi bem sucedido. De fato, segundo alguns relatos, Schröder chegou a surpreender alguns membros graduados do seu governo.

Mas a questão que veio à tona na segunda-feira foi: o que mais Schröder obteve com tal gesto? Ou, talvez mais importante, como foi que um dos mais hábeis e adaptáveis políticos da Europa se vê em uma situação na qual opta por um caminho que provavelmente fará com que deixe o poder um ano antes do que seria constitucionalmente necessário?

"Vejo isso como uma simples capitulação", diz Klaus Schuetz, ex-prefeito de Berlim e membro do Partido Social-Democrata (SPD), de Schröder. "Ele parece estar cansado".

Talvez isso seja tudo o que há para se entender a respeito da decisão de Schröder, anunciada no domingo após os social-democratas terem perdido o poder na Renânia do Norte-Vestfália, o Estado alemão mais populoso e altamente industrializado, que foi o principal bastião do partido durante 39 anos.

Até a reversão abrupta de domingo, o chanceler e os estrategistas do partido podiam ver a série de perdas de parlamentos estaduais que amargaram no último ano como reversível, especialmente se o seu louvado programa de reformas econômicas tivesse apresentado algum resultado.

Mas a votação de domingo revelou sem sombra de dúvida que se Schröder está cansado de ser o lado perdedor nas eleições estaduais, a Alemanha também está cansada dele, e ele sabe disso.

E o fato de a Alemanha estar cansada de Schröder é, de certa maneira, um marco histórico. De fato, é inteiramente possível que a derrota do seu partido no seu tradicional reduto pressagie o fim de toda a social-democracia na Alemanha, cujas raízes remontam ao século 19.

Schröder esteve à frente de um partido sobrecarregado por uma contradição impossível de ser sustentada. Por um lado, esse era um partido tradicional da classe trabalhadora e dos desempregados, mas, assim como o Partido Trabalhista britânico e o Partido Socialista francês antes dele, o Partido Social-Democrata alemão, ou pelo menos a ala do partido à qual pertence Schröder, compreendeu que a política tradicional voltada para as classes trabalhadoras se tornou obsoleta em um mundo de concorrência globalizada.

Em vez disso, a mente de Schröder (e talvez o seu coração) se dedicou a um programa de austeridade econômica que, quase que por definição, tinha que desagradar ao núcleo do eleitorado operário do partido.

Isso porque, como a maior parte dos economistas tem dito há anos, o maior problema da Alemanha reside no custo da sua mão-de-obra, e tornar o trabalho mais barato significa reduzir aquilo que os trabalhadores passaram a ver como algumas das suas prerrogativas --por exemplo, compensações quase que ilimitadas pelo desemprego.

Schröder tentou persuadir a esquerda do partido de que as reformas eram do interesse econômico desta própria esquerda, e que a sua reforma seria mais suave e gentil do que aquelas pelas quais a Alemanha teria que passar caso os conservadores estivessem no poder.

Mas muitos não aceitaram tal argumentação, especialmente quando o programa reformista de Schröder, que recebeu o portentoso nome de Agenda 2010, não conseguiu criar novos empregos e a Alemanha permaneceu em dificuldades econômicas.

Algumas das particularidades da eleição na Renânia do Norte-Vestfália demonstram o quanto a situação de Schröder se tornou crítica. Durante meses, membros do seu partido vinham dizendo que caso perdessem naquele Estado, isso se daria porque os seus próprios eleitores da classe trabalhadora, que vêm sofrendo devido às reformas implementadas pelo chanceler e que não vêem nenhuma melhora na economia, simplesmente ficariam em suas casas no dia da eleição.

Provavelmente foi um pouco disso o que ocorreu no domingo, mas esse não foi o fator principal. Na verdade, o número total de votos no domingo foi entre 5% e 10% mais elevado do que na última eleição há quatro anos.

Os eleitores não ficaram em casa, eles saíram e votaram --contra os social-democratas e na União Democrática Cristã. E o comparecimento da classe trabalhadora e dos desempregados foi maior do que nunca, segundo o Forschungsgruppe Wahlen, em Mannheim, um instituto de pesquisa que estuda os resultado eleitorais.

Sob tais circunstâncias, Schröder atuou segundo o papel clássico de um homem que sabe que conta com duas maneiras de perder, rapida ou lentamente --e ele decidiu que a via rápida seria a melhor.

Embora fosse difícil encontrar na segunda-feira um comentarista na Alemanha que visse alguma chance de ganhos para Schröder em qualquer das duas opções, a via rápida também lhe proporciona a sua melhor chance, ainda que uma chance baseada em fatores externos, de não abrir mão do seu cargo.

Por exemplo, ao sair antecipadamente ele neutraliza a possibilidade de que haja uma revolta na esquerda do seu partido ou de que continue em progresso a lenta cisão partidária que seria inevitável caso permanecesse no poder até o final do ano que vem.

Além do mais, ele não terá que atuar como um governante impotente por um longo período de 16 meses, até setembro de 2006, uma perspectiva ruim, ainda que lhe fosse possível desfrutar de qualquer eventual vantagem derivada do fato de ter tomado uma medida brusca e arriscada como essa.

E talvez o mais importante, ele obrigou a sua provável adversária, Angela Merkel, a especificar um programa alternativo detalhado de reforma, de forma que daqui por diante será ela que terá que se preocupar com a possibilidade de perder uma eleição.

Conforme adversários anteriores podem comprovar, sempre foi um erro subestimar a capacidade de Schröder de começar da retaguarda --17 pontos percentuais atrás de Merkel, segundo pesquisas recentes-- e terminar na frente.

"Optar por novas eleições como forma de achar uma saída é algo que revela um senso de impotência", disse no seu editorial de segunda-feira o jornal conservador "Bild Zeitung". "Mas é algo que revela também a coragem de Schröder".

Considerando tudo disso, poderia ainda parecer estranho que o chanceler fizesse de um ato de capitulação uma forma de emergir como o homem da hora. Mas uma outra vantagem para Schröder é o fato de ele ter desviado o foco do debate na Alemanha, dos seus fracassos como chanceler, da insatisfação dos sindicatos e do problema aparentemente insolúvel do desemprego no país, para a questão de se determinar se a sua adversária será melhor em alguma coisa. Trata-se de uma mudança de tópico que a esta altura dos acontecimentos só pode ajudá-lo. Antecipação das eleições gerais pode colocar oposição na berlinda Danilo Fonseca

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