UOL Notícias Internacional
 

25/05/2005

Câmara americana desafia veto de Bush em projeto de células-tronco embrionárias

The New York Times
Sheryl Gay Stolberg

Em Washington
A Câmara aprovou um projeto de lei nesta terça-feira (24/05) que expande o financiamento federal para pesquisa de células-tronco embrionárias, desafiando a ameaça de veto do presidente Bush, que apareceu na Casa Branca cercado de bebês e crianças pequenas nascidas de embriões de proveta e alertou que a medida "nos fará cruzar uma linha ética crítica".

Jamie Rose/The New York Times

Diana DeGette (democrata) e Michael Castle (republicano) atendem a imprensa depois da votação que aprovou as pesquisas com embriões
A votação, por 238 votos contra 194, com 50 republicanos a favor, ficou muito aquém da maioria de dois terços necessária para derrubar um veto presidencial, criando a possibilidade de um confronto entre o Congresso e Bush, que nunca exerceu seu poder de veto.

Um projeto idêntico conta com apoio bipartidário no Senado; momentos após a votação na Câmara, os responsáveis por ele no Senado escreveram ao líder republicano, Bill Frist, pedindo que a coloque na pauta de votação.

A ação da Câmara representa a primeira votação sobre pesquisa de células-tronco embrionárias desde agosto de 2001, quando Bush abriu a porta para financiamento de estudos com dinheiro do contribuinte, mas apenas dentro de limites rígidos.

A nova medida permitirá que o governo pague por estudos envolvendo embriões humanos que estão depositados de forma congelada nas clínicas de fertilidade, desde que os casais que conceberam os embriões certifiquem que tomaram a decisão de descartá-los.

"A Casa Branca não pode ignorar esta votação", disse o principal defensor republicano do projeto, o deputado Michael N. Castle de Delaware, acrescentando: "Eu estou animado".

Mas os oponentes também disseram que estavam animados. O deputado Joseph R. Pitts, republicano da Pensilvânia, disse: "Eu odeio perder, mas me sinto muito bem com esta votação. Nós derrotamos a margem à prova de veto por 50 votos".

A grande pergunta agora é o que acontecerá no Senado.

Frist, um cirurgião cardíaco do Tennessee que apóia a política em vigor, já está enfrentando intensa pressão por parte dos conservadores em torno da questão das indicações de Bush ao Judiciário e não parece disposto a marcar uma votação sobre pesquisa de células-tronco. Ele disse na semana passada que deseja checar seus colegas antes de tomar uma decisão.

A votação na Câmara ocorreu após uma passional campanha de lobby por parte de defensores dos direitos dos pacientes, incluindo Nancy Reagan, que se tornou uma forte defensora da pesquisa de células-tronco durante a luta de seu marido com o mal de Alzheimer. Ela telefonou para muitos republicanos nesta semana pedindo que votassem a favor, disse Castle.

Mas Bush respondeu com um poderoso golpe duplo, empregando todo o peso da Casa Branca na oposição. Na sexta-feira, ele fez uma rara ameaça de veto ao projeto de Castle. Na terça-feira, poucas horas antes da votação, ele apareceu na Sala Leste da Casa Branca com famílias criadas por uma rara mas crescente prática, na qual um casal doa seus embriões congelados para outro.

"As crianças presentes aqui hoje nos lembram de que não há tal coisa como embrião descartável", disse Bush, em meio ao som dos bebês embalados nos braços de suas mães.

"Cada embrião é único e geneticamente completo, como todo ser humano. E cada um de nós iniciou a vida desta forma. Estas vidas não são matéria-prima para ser explorada, mas dádivas."

Os pais, que trabalham para uma agência de adoção cristã, aplaudiram entusiasticamente. Quando Bush disse que "cada vida humana é um bem precioso de amor inigualável", uma mãe atrás dele no palco disse a palavra "Amém".

O evento na Casa Branca, sobre o que os cristãos conservadores e o presidente chamam de questão importante de "cultura da vida", demonstrou quão longe Bush está disposto a ir para reafirmar a política que ele considera o coração moral de sua presidência.

Em outro sinal de quão importante é a questão para os conservadores, o líder republicano na Câmara, Tom DeLay do Texas, comandou a oposição ao projeto, também o abordando em termos morais fortes.

"Um embrião é uma pessoa, um organismo humano distinto, integrado e dirigido internamente", declarou DeLay, acrescentando: "Nós todos já fomos embriões. Abraão também foi. Maomé também foi. Jesus de Nazaré também foi".

Ele prosseguiu: "A opção de proteger um embrião humano da destruição com financiamento federal não se trata, no final, de embriões humanos. Trata-se de nós, de nossa rejeição à noção traiçoeira de que apesar de toda vida humana ser sagrada, algumas são mais sagradas que outras."

As células-tronco embrionárias humanas, isoladas dos embriões humanos pela primeira vez em 1998, têm o potencial de crescer em qualquer tipo de célula ou tecido do corpo, contendo assim grande promessa de tratamento de doenças.

Mas os embriões são destruídos quando as células são extraídas. Assim, Bush, visando desencorajar uma maior destruição de embriões, insistiu em 2001 que o financiamento federal fosse limitado aos estudos das colônias de células-tronco, ou linhagens, já existentes.

Em seu lugar, Bush está promovendo a pesquisa de células-tronco adultas, que são extraídas da medula óssea e do sangue, incluindo o sangue do cordão umbilical, que têm menor potencial para a medicina do que as células-tronco embrionárias.

Na terça-feira, a Câmara votou por 431 votos contra 1 a aprovação de uma medida que criará bancos de sangue de cordão umbilical para promover a pesquisa de células-tronco adultas.

Mas foi o debate em torno das células-tronco embrionárias que inflamou as paixões na Câmara, soando às vezes como uma lição de biologia celular, às vezes como um discurso teológico e às vezes como confissão pessoal. Um deputado após o outro se dirigiu ao plenário da Câmara para recontar suas lutas com a consciência e as marcantes experiências pessoais com morte e doença.

O deputado Jim Langevin, democrata de Rhode Island, usou o microfone em sua cadeira de rodas para falar sobre sua lesão na medula espinhal, que ele disse que poderia ser curada pela pesquisa.

A deputada Jo Ann Emerson, republicana do Missouri, falou sobre um jovem chamado Cody, que ficou paralítico após um acidente de carro aos 16 anos e que lhe pediu para que repensasse sua oposição aos estudos envolvendo células-tronco embrionárias.

"Eu escrevi posteriormente à família de Cody para lhes dizer que, mesmo após ouvir sua história, eu não poderia fazer o que ele me pedia", disse Emerson, "e lamento ter escrito aquela carta desde então".

Mas para cada defensor com uma história pessoal comovente, havia um oponente como o deputado Dan Lungren, um republicano da Califórnia, cujo irmão tem mal de Parkinson. "Eu aprendi muitas coisas com meu irmão", disse Lungren, "mas o que mais aprendi é que há uma diferença entre certo e errado".

Os responsáveis pelo projeto no Senado, os senadores Arlen Specter, republicano da Pensilvânia, e Tom Harkin, democrata de Iowa, marcaram uma coletiva de imprensa para quarta-feira para exigir uma ação rápida.

"Eu não entendo por que Bush está fazendo isto", disse Harkin, acrescentando: "Eu gostaria que ele não traçasse linhas na areia". Proposta é aprovada, mas ainda pode ser derubada pelo presidente George El Khouri Andolfato

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