UOL Notícias Internacional
 

25/05/2005

Incidente deteriora a relação entre China e Japão

The New York Times
James Brooke

Em Tóquio
Autoridades japonesas criticaram duramente a China, nesta terça-feira (24/05), por ter cancelado, no dia anterior, uma reunião com o primeiro-ministro do Japão. Segundo elas, o incidente deve agravar a antipatia dos japoneses com relação à China.

Ko Sasaki/The New York Times

Mulheres visitam templo Yasukuni, acusado de homenagear criminosos
Em uma terra onde a cortesia é valorizada, os ministros japoneses não mascararam a revolta diante da partida abrupta, na segunda, de Wu Yi, a vice-premiê que viera ao Japão para serenar as relações prejudicadas por brigas sobre livros de história, direitos territoriais e protestos contra o país na China.

"Não houve nem uma palavra de desculpas pelo cancelamento. Essas coisas vão contra a sociedade", disse o ministro das relações exteriores Nobutaka Machimura.

Ele acrescentou: "Infelizmente, isso me dá a impressão de que há uma lacuna considerável" entre as ações e as intenções afirmadas pela China, de melhorar suas relações.

Um dos cinco ministros japoneses a criticar publicamente o país vizinho na terça-feira, ele lembrou aos repórteres que o próprio ministro das relações exteriores da China, Li Zhaoxing, tinha solicitado a reunião com o primeiro-ministro Junichiro Koizumi.

Taro Aso, ministro da fazenda do Japão, advertiu asperamente: "Isso vai contribuir para piorar a antipatia japonesa em relação à China."

As autoridades chinesas, que a princípio atribuíram a partida antecipada de Wu a "deveres oficiais urgentes" foram claras na terça-feira que o cancelamento deveu-se à sensibilidade ferida por um templo que honra os japoneses mortos na guerra, inclusive 14 criminosos de guerra "Classe A", que foram executados depois da Segunda Guerra Mundial.

"Para nosso pesar, durante a estadia da vice-premier Wu Yi, os líderes japoneses fizeram observações repetidas ao visitar o Templo Yasukuni que contrariaram os esforços de melhorar as relações sino-japonesas", disse Kong Quan, porta-voz do Ministro de Relações Exteriores, em comentários divulgados pela agência de notícias oficial New China, na terça-feira pela manhã.

"A China ficou extremamente insatisfeita."

O templo tem sido uma fonte constante de irritação para a China, que foi brutalmente colonizada pelo Japão durante a guerra. A explicação chinesa pareceu cair em ouvidos surdos no Japão, onde vários observadores salientaram que a atitude parecia calculada para infligir o maior grau de humilhação. Wu, disseram, reuniu-se com líderes empresariais japoneses, aliados naturais da China, horas antes de esnobar Koizumi. Este faz visitas anuais ao templo desde 2001 e vem resistindo a sugestões para suspendê-las.

"A China está cultivando seus aliados no Japão, enquanto menospreza claramente Koizumi", disse Robyn Lin, professora de relações internacionais da Universidade de Nanzan, em Nagoya.

Talvez a meta de Pequim seja desacreditar Koizumi e outros nacionalistas conservadores como Shinzo Abe, considerado seu possível sucessor em 2006, disse Lin. Neste caso, "a tentativa provavelmente dará o resultado contrário e ajudará a garantir que Shinzo Abe, que é fortemente contra a China, sucederá Koizumi".

O tiro pela culatra já pode estar acontecendo, mesmo entre os empresários. No ano passado, a China foi responsável por cerca de um quinto, ou US$ 213 bilhões (em torno de R$ 530 bilhões) do comércio do Japão, tornando-a a maior parceira comercial do país.

Depois dos protestos contra o Japão, a Teikoku Databank Ltd., uma empresa de pesquisa de crédito de Tóquio, perguntou a 6.906 empresas japonesas qual era sua avaliação dos riscos de fazer negócios com a China.

Dois terços disseram que o investimento na China era preocupante. Outros 13,5% disseram que estavam seriamente preocupados com o impacto econômico de atitudes anti-japonesas. Das empresas com planos concretos de investimento na China, cerca de 30% disseram que estavam pensando em adiar seus projetos.

Em abril, o sentimento contra a China foi inflamado depois de uma série de protestos naquele país contra os livros-texto de história japoneses, que diminuem as atrocidades cometidas pelo Japão na China durante a guerra, e por causa das visitas de Koizumi ao templo.

Em um país tão controlado quanto à China, os protestos --que acabaram em vandalismo contra empresas japonesas e prédios do governo em Xangai--foram considerados oficialmente sancionados.

Em uma pesquisa com 1.880 japoneses em maio, 92% disseram que estavam insatisfeitos com a recusa de Pequim em desculpar-se pelo vandalismo. Na pesquisa, conduzida para o jornal conservador "Yomiuri Shimbun", 85% disseram que Koizumi deveria exigir um pedido de desculpas, 74% disseram que estavam preocupados com as Olimpíadas de Verão de 2008, que serão em Pequim, e 77% disseram que o Japão deveria ser mais agressivo em uma briga com a China sobre depósitos de gás e um grupo de ilhas no Mar do Leste da China.

Na questão do templo, 48% disseram que apoiavam as visitas do primeiro-ministro, enquanto 45% se opunham.

Em outro sinal dos tempos, a Associação de Amizade Japão-China, um grupo cultural de 55 anos, cedeu às ameaças da direita e não celebrou sua convenção anual em uma cidade da província no último final de semana. Em vez disso, a convenção foi adiada por seis meses e será em Tóquio, supostamente um local mais seguro.

Na terça-feira, Katsuya Okada, presidente do principal partido da oposição, o Partido Democrata do Japão, criticou a insistência de Koizumi em visitar o templo, admitindo que foi "um grande fator para o cancelamento da visita da vice-premier Wu".

"Se eu me tornar primeiro-ministro, não vou visitar o Templo Yasukuni", disse Okada aos repórteres do Clube dos Correspondentes Estrangeiros do Japão. Nos últimos 50 anos, a oposição esteve no poder apenas uma vez no Japão, de 1993 a 1996. Visita a templo japonês da 2ª Guerra Mundial constrange chineses Deborah Weinberg

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