UOL Notícias Internacional
 

26/05/2005

Irã volta a prometer o congelamento de suas atividades nucleares

The New York Times
Elaine Sciolino

Em Genebra
Os ministros das Relações Exteriores do Reino Unido, da França e da Alemanha persuadiram nesta quarta-feira (25/05) o Irã a dar continuidade ao congelamento das suas atividades nucleares, evitando uma crise diplomática que poderia levar à adoção de medidas internacionais punitivas contra o Teerã.

Em troca, os três países europeus se comprometeram a apresentar até o início de agosto ao Irã propostas detalhadas e graduais para que se chegue a um consenso quanto ao formato do programa nuclear iraniano.

Em novembro do ano passado, em Paris, o Irã concordou em suspender todos as suas atividades para enriquecimento e reprocessamento de urânio e em negociar os benefícios econômicos, nucleares, políticos e na área de segurança que receberia em troca de tal iniciativa.

Apesar dos progressos feitos na quarta-feira, os europeus e os iranianos continuam bastante distanciados no que diz respeito aos seus objetivos finais. Os europeus querem prolongar o congelamento das atividades de enriquecimento de urânio até que este se torne permanente, fornecendo aos iranianos, no decorrer do processo, vantagens comerciais, políticas, econômicas e na área de segurança, incluindo o acesso à energia nuclear.

Já os iranianos insistem em um congelamento apenas temporário. Autoridades iranianas observaram que, segundo o Tratado de Não Proliferação Nuclear, o seu país não é obrigado a congelar essas atividades, e que está fazendo tal coisa voluntariamente, como forma de demonstrar boa vontade.

O governo Bush, que acusa o Irã de desenvolver secretamente armas nucleares, reagiu com cautela aos eventos da quarta-feira, reafirmando o seu apoio à iniciativa européia, mas reiterando a sua suspeita quanto aos motivos iranianos.

"O Irã ocultou a sua atividade nuclear da comunidade internacional por duas décadas", disse Scott McClellan, porta-voz da Casa Branca. "É por isso que estamos céticos quanto às atividades daquele país".

Se a proposta européia for aceita pelo governo do Irã, conforme o esperado, isso significará que ambos os lados terão ganhado tempo, e que o congelamento das atividades iranianas de conversão e enriquecimento de urânio estará em vigor quando os eleitores iranianos forem às urnas para eleger um novo presidente em 17 de junho.

Após três horas de negociações, que tanto europeus quanto iranianos descreveram como muito difíceis, os dois lados disseram ter obtido sucesso.

"Continuamos a trabalhar em sintonia com o espírito de Paris", disse aos repórteres, após a reunião, o ministro das Relações Exteriores francês, Michel Barnier.

"E daqui por diante demorará algumas semanas para que haja propostas concretas, especialmente quanto à meta de se colocar em vigor um programa nuclear civil no Irã, exclusivamente civil, mas também com relação a outras questões".

Essa declaração sugere que os europeus estão prontos a apresentar um plano concreto para atender à demanda iraniana de que a Europa ajude o Irã a ter acesso a reatores nucleares e a uma reserva confiável de combustível nuclear.

Do lado iraniano, Hassan Rowhani, um clérigo que é o principal negociador nuclear do Irã, disse que a reunião representou a primeira vez em que os europeus se comprometeram a descrever, de forma cronológica e detalhadamente, os passos que devem ser dados ao longo do caminho para que haja um acordo final quanto ao programa nuclear do seu país.

"Isso foi importante para nós porque, o tempo todo, a nossa preocupação era que as negociações fossem desnecessariamente prolongadas", disse Rowhani aos jornalistas.

Para jogar o peso de todos os 25 países da União Européia sobre o processo, Javier Solana, o chefe de políticas externas da organização, também participou da reunião.

Na reunião da quarta-feira, Rowahni disse sem rodeios aos europeus que se estes estiverem colocando os incentivos na mesa de negociações na expectativa de que o Irã concorde com uma cessação permanente das suas atividades de enriquecimento de urânio, "estão andando na direção errada", contou um dos participantes iranianos da reunião, que solicitou que o seu nome não fosse divulgado.

Rowhani reiterou a posição do Irã aos repórteres, dizendo: "Continuaremos honrando as nossas promessas e, ao mesmo tempo, queremos todos os direitos aplicáveis aos países membros do Tratado de Não Proliferação".

As conversações, a reunião de mais alto nível entre as duas partes em seis meses, ocorreram por iniciativa dos europeus, após o Irã ter ameaçado retomar as suas atividades em uma grande instalação de conversão de urânio, na cidade de Isfahan. Essa instalação, assim como outras, está parada desde que se chegou a um acordo nuclear em Paris em novembro passado.

Os europeus responderam à ameaça advertindo o Irã, em uma carta de tom ríspido, que a retomada das atividades na instalação consistiria em uma violação ao acordo de Paris e os obrigaria a apoiar uma iniciativa liderada pelos norte-americanos no sentido de levar o caso iraniano ao Conselho de Segurança para uma possível punição.

Isso fez com que Rowhani escrevesse uma carta de resposta no sábado, dizendo que embora o Irã estivesse pensando em retomar as operações na usina de Isfahan, o país desejava evitar um rompimento das conversações e caminhar rapidamente rumo a um acordo final com a Europa. Um acordo que reconheça os direitos do Irã à energia nuclear e melhore o relacionamento do país com os europeus.

Na reunião da quarta-feira, os europeus levaram mais de meia-hora para apresentar as suas propostas antecipadas, pedindo ao Irã que mantivesse em vigor o congelamento das suas atividades nucleares, disse um dos participantes, que pediu que a sua identidade não fosse revelada.

Rowhani perguntou mais de uma vez o que especificamente estava sendo oferecido, e finalmente o ministro alemão das Relações Exteriores, Joschka Fischer, pediu paciência, dizendo que o Irã nada perderia ao aguardar mais dois meses.

"O que eles apresentaram tornou difícil para nós dizer não", disse um dos participantes iranianos.

As autoridades iranianas têm insistido repetidamente em dizer que, às vésperas da eleição presidencial, estão sob pressão para apresentarem resultados concretos das suas negociações com os europeus, e que se estes não cumprirem suas promessas, serão obrigadas a retomar o programa nuclear.

Embora os negociadores de ambos os lados tenham dito que as conversações foram difíceis, e por vezes extensas, eles concordaram em deixar o acordo fluir para fazer com que o diálogo se mantivesse isento de ameaças.

"Estou feliz por a coisa não ter descambado para esse lado", disse Fischer aos jornalistas. Mas ele enfatizou que sérias diferenças persistem, afirmando: "Ainda estamos em busca de um acordo para superarmos as diferenças. Não é uma questão de pessimismo ou otimismo, mas de realismo".

Quando lhe perguntaram que cenouras os europeus ofereceram aos iranianos como incentivos, um negociador europeu respondeu: "Não houve cenouras".

Em um sinal da boa vontade de alguns círculos no Irã no sentido de preservar ao acordo nuclear e dar seguimento à negociação, o ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, que é novamente candidato e considerado o favorito, se mostrou otimista.

"Não acredito que as negociações serão infrutíferas", disse Rafsanjani à rede de televisão alemã ZDF, em Teerã, na quarta-feira. "As negociações são difíceis e há muito espaço para discussão".

Para satisfação dos iranianos, Jack Straw, secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, observou que o Irã "reafirmou o seu compromisso de não procurar fazer armas nucleares" e frisou que o direito do Irã de implementar um programa nuclear pacífico continua em vigor.

O desafio mais difícil para o Irã continua sendo o seu compromisso, segundo o acordo, de fornecer "garantias objetivas", ou seja, provas claras, de que o seu programa nuclear só será utilizado para fins pacíficos.

Os europeus insistem que a única maneira de fazê-lo é interrompendo completamente o enriquecimento de urânio e fechando as instalações de reprocessamento. Os iranianos dizem que há outros meios, incluindo inspeções internacionais intrusivas.

Os europeus, por sua vez, podem achar difícil fornecer algumas das recompensas mais ambiciosas que foram discutidas com o Irã, incluindo os reatores nucleares.

Tal tecnologia depende da cooperação dos Estados Unidos, que está convencido de que Teerã está desenvolvendo secretamente armas nucleares e que deseja que o caso do Irã seja levado ao Conselho de Segurança da ONU para a possível aplicação de sanções, caso o país não concorde em cancelar o seu programa permanentemente. Europeus querem suspensão definitiva; Teerã oferece temporária Danilo Fonseca

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