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27/05/2005

Cada vez mais mães de aluguel preferem gerar filhos para casais homossexuais

The New York Times
Ginia Bellafante

Em Nova York
Em uma manhã recente de primavera, Laura Stiller, estava em uma casa de campo ensolarada em Cambridge, no Estado de Massachusets, ajudando Cary Friedman e seu parceiro, Rick Wellisch, a acalmarem sua filha, de três meses, que vestia uma camiseta cor de rosa.

Stiller, 34, dona-de-casa de Dallas, gosta de dizer que o número de gays que conhecia antes de encontrar Friedman, psiquiatra, e Welisch, médico, era zero. "Só o que eu sabia sobre os gays era o que eu via na televisão, o que significava que tudo tinha saído das séries 'Will & Grace' e 'The L Word'", disse ela.

Em dezembro, Stiller deu luz à menina, chamada Samantha, para Friedman e Wellisch, concebida com o óvulo de um doadora anônima e o esperma de um dos parceiros. (Eles preferiram não saber qual).

Ao decidir trabalhar com eles, Stiller tornou-se parte de um movimento pequeno, mas crescente de mães de aluguel que escolhem casais gays em vez de famílias tradicionais.

Enquanto os legisladores debatem a possibilidade de dar aos casais gays o direito ao casamento --14 Estados modificaram suas constituições para proibir o direito, centenas de casais estão encontrando formas de criar uma família, com ou sem casamento, por meio mães de aluguel.

Elas desejam ajudar os casais a ter filhos geneticamente ligados aos pais e a evitar os freqüentes os desafios legais que homossexuais enfrentam ao tentarem adotar uma criança.

O número exato de mães de aluguel que trabalharam com casais homossexuais é desconhecido, mas a metade das quase 60 agências em torno do país que fazem arranjos entre mães de aluguel e possíveis pais trabalham com casais gays.

Dentro do pequeno mundo de parideiras profissionais, muitas das quais compartilham suas alegrias e desilusões online, os casais gays criaram fama de clientes especialmente agradecidos e dispostos a responder às necessidades freqüentemente intensas de conexão emocional das mães de aluguel. Esses relacionamentos podem gerar outras complicações com a família da mãe de aluguel e sua comunidade.

Muitas mães de aluguel que escolhem trabalhar para casais gays dizem que não se sentem preparadas para lidar com a desesperança e fracasso expressados por casais heterossexuais que lutaram para ter filhos por anos sem sucesso. Outras são atraídas por clientes homens porque temem os possíveis ressentimentos e ciúmes das futuras mães.

As mães de aluguel recebem US$ 20.000 (em torno de R$ 50.000) ou mais, além de despesas médicas. Elas são responsáveis por aproximadamente 1.000 nascimentos por ano, de acordo com a Organização de Pais por Meio de Aluguel, um grupo sem fins lucrativos que registra os nascimentos agenciados. Esse número não inclui acordos feitos privadamente.

Muitas mães de aluguel preferem não trabalhar com casais gays. Freqüentemente citam a desaprovação do marido ou temores de que seus próprios filhos sejam mal vistos por colegas e vizinhos. Em alguns casos, as agências têm suas próprias reservas.

Ann Coleman, advogada de adoção e de aluguel de barriga em Greenville, Carolina do Sul, disse que não associa as mulheres com casais gays. Apesar de certa vez ter representado um casal de lésbicas em uma ação de custódia contra seus ex-maridos, Coleman acredita que casais gays deveriam preferir a adoção.

Nos últimos 13 anos, Stiller teve cinco filhos: um com o primeiro marido, dois com o atual e dois de aluguel. Sua primeira excursão ao mundo da gestação para outros foi para um casal da Flórida, que a deixou se sentindo desrespeitada e cansada, disse ela.

Apesar de o casal tê-la visitado em sua 18ª semana de gravidez e trazido presentes para seus filhos, Stiller procurou ter um relacionamento mais profundo com a futura mãe, uma médica de 40 anos.

"Ela me ligava como se estivéssemos trabalhando em um projeto", disse Stiller. "Ela não dizia: 'Oi, como você está? Como está tempo?' Nada. Nunca havia conversa."

Em sua 37ª semana, Stiller teve contrações e ligou para a mulher, que foi imediatamente ao Texas, mas Stiller continuou insatisfeita com seu nível de envolvimento.

"Ela ficou aqui duas semanas e meia e nunca criou uma oportunidade para compartilhar com a minha família", disse Stiller. "Era muito importante para mim que meus filhos vissem que estávamos ajudando a criar uma família, que mamãe não estava dando um irmão ou uma irmã."

Um amigo sugeriu que procurasse um casal homossexual pela agência Circle Surrogacy. John Weltman, advogado de Boston, teve dificuldades em encontrar mulheres para carregar filhos para homens homossexuais quando fundou a empresa, há uma década. Hoje, 80% das mães de aluguel que o procuram se dispõem a trabalhar com casais gays; metade até prefere.

Em Los Angeles, a empresa Growing Generations, formada para ajudar casais gays a se tornarem pais, é responsável por mais de 300 nascimentos. Em 1998, assessorou quatro nascimentos; nos últimos 17 meses, foram 108.

Dawn Buras, mãe de quatro em Baltimore, foi três vezes a uma clínica de fertilidade em Los Angeles, para receber transplantes de embriões para um casal de homens em Boston. Todas as vezes eles a acompanharam, reservaram quartos conjugados no hotel, jantaram juntos e até conseguiram uma visita ao cenário de "Desperate Housewives" --um deles trabalha na televisão.

As tentativas de gravidez fracassaram, mas os homens ainda tentam, recusando-se a trabalhar com qualquer outra pessoa.

E Buras continua comprometida com o projeto, apesar das limitações que cria em sua vida íntima. De acordo com o contrato, Buras não pode ter relações sexuais com seu marido um mês antes ou um mês depois da transferência. Apesar de seu marido ter dado seu apoio, "não posso dizer que isso não incomoda, porque incomoda", explicou.

Quase todas as agências requerem que as mães já tenham tido filhos seus e que elas e seus maridos passem por exames médicos e psicológicos para determinar se podem lidar com as dificuldades que o processo inevitavelmente causa nas famílias.

Hilary Hanafin, psicóloga da maior agência de aluguel de barriga do país, Center for Surrogate Parenting, em Los Angeles, disse que muitas mães com filhos adolescentes evitam trabalhar com casais homossexuais. "A mãe não quer aparecer em um evento da escola e dizer 'estou grávida para um casal homossexual'", disse Hanafin.

Algumas vezes, os pais não conseguem evitar os preconceitos. "Tive uma mãe de aluguel cuja sogra não botou os pés na casa durante toda a gravidez", disse Amy Zaslow, consultora.

A maior parte das mães de aluguel apenas empresta a barriga, mas não seu material genético. (Em geral os casais conseguem óvulos de bancos em que os doadores são identificados por peso, altura, testes de QI e grau de instrução).

A mãe de aluguel típica, de acordo com o Center for Surrogate Parenting, é uma mulher de 21 a 37 anos, que tem dois filhos e 13 anos de educação formal. Em muitos casos, ela é motivada pelo desejo de estar grávida, assim como um desejo de atenção.

Algumas mães de aluguel também dizem que apreciam o significado de dar filhos a casais homossexuais. "Com toda honestidade, sou um pouco rebelde. Sei que há pessoas que não aprovam ser mãe de aluguel para pais gays, e isso torna a idéia ainda mais intrigante", admitiu Shannon Klein, mãe de três filhos em Cypress, Califórnia.

Klein carregou duas crianças para dois casais gays e está grávida de gêmeos para um terceiro. "Quando ela me propôs isso, eu disse: 'Você quer fazer o quê?'" comentou seu marido, Mark.

"Mas nós desenvolvemos uma amizade com essas pessoas, não uma coisa casual, mas relacionamentos para a vida toda, com pessoas que talvez nunca tivéssemos conhecido."

A visita de Stiller a Cambridge em março foi sua segunda. Os dois homens cuidaram dos filhos dela no Texas enquanto ela se recuperava do parto de Samantha. Ver o bebê pela primeira vez, disse ela, "foi como ver o filho de seu melhor amigo".

Ela e o casal não têm planos para seu relacionamento, que esperam que evolua "como acontece com as amizades dos tempos de faculdade", disse Wellisch. Friedman disse: "Não entramos nisso dizendo: 'Queremos um forte relacionamento'. Não necessariamente esperávamos desenvolver o laço que temos".

Eles terão pouca competição pelo afeto de Stiller. Ela não vai mais trabalhar com casais. Quando seu marido, Keith, voltou para casa no mês passado do Iraque, onde estivera por um ano, ele disse a ela que não queria que trabalhasse como mãe de aluguel novamente.

"Ele estava preocupado com a minha saúde e bem estar emocional", disse Stiller. "Por um ano nossa vida é dedicada à de outra pessoa. E fisicamente acho que ele queria que eu voltasse ao meu maravilhoso manequim 38". Mulheres afirmam que os gays são mais atenciosos com elas Deborah Weinberg

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