UOL Notícias Internacional
 

27/05/2005

Forças armadas americanas confirmam desrespeito ao Alcorão em Guantánamo

The New York Times
Thom Shanker*

Em Washington
Uma investigação militar americana descobriu cinco casos nos quais guardas ou interrogadores no centro de detenção em Guantánamo, Cuba, cometeram impropriedades contra o Alcorão, mas não encontraram "evidência crível" para substanciar alegações de que tenha sido jogado em um vaso sanitário, disse o chefe da investigação nesta quinta-feira (26/05).

Quatro dos cinco incidentes parecem ter ocorrido antes de janeiro de 2003. Em três casos, a impropriedade contra o Alcorão parece ter sido deliberada, e em dois foi acidental ou não intencional, disse o comandante, acrescentando que quatro casos envolveram guardas e em um o interrogador. Dois soldados foram punidos por sua conduta, um deles recentemente.

Ao anunciar as conclusões preliminares de sua investigação, que teve início há cerca de duas semanas, o general de brigada Jay W. Hood, comandante da Força-Tarefa Conjunta de Guantánamo, disse que as impropriedades contra o Alcorão não ocorreram como parte de um esforço para desmoralizar ou intimidar os detidos para interrogatório.

Mas Hood se recusou a dar maiores detalhes até ter completado a investigação, que foi iniciada após um artigo publicado na revista "Newsweek" ter afirmado que uma investigação separada feita pelas forças armadas apontaria que um Alcorão foi jogado em um vaso sanitário do centro de detenção, com a descarga sendo dada em seguida.

O artigo, pelo qual a revista posteriormente se retratou, provocou violência no mundo muçulmano que resultou em pelo menos 17 mortes.

"Eu gostaria que soubessem que não encontramos evidência crível de que um membro da Força-Tarefa Conjunta de Guantánamo tenha dado a descarga em um Alcorão", disse Hood em uma coletiva de imprensa no Pentágono.

Ele disse que seus investigadores concluíram uma nova entrevista com um detido que foi citado nos documentos do FBI, que foram divulgados na quarta-feira, e no qual disse sob interrogatório em 2002 que guardas jogaram o Alcorão em um vaso sanitário e deram a descarga.

Na nova entrevista, realizada em 14 de maio como parte da investigação de Hood, o detido disse que não testemunhou qualquer abuso contra o Alcorão.

Hood disse que seus investigadores perguntaram ao detido se ele tinha visto pessoalmente quaisquer incidentes de abuso contra o Alcorão, "e ele reconheceu que não, mas que ouviu guardas dizendo que outros guardas tinham feito aquilo".

O general disse que não pode oferecer nenhuma explicação para as contradições entre as declarações do detido ao FBI, em julho de 2002, e a entrevista conduzida por sua equipe, em 14 de maio.

Os investigadores nunca perguntaram especificamente ao detido sobre incidente do Alcorão no vaso sanitário, disse Hood, nem mencionaram suas declarações anteriores sob interrogatório, "mas lhe foi perguntado sobre ofensa, profanação ou uso impróprio do Alcorão".

Não ficou claro se as forças armadas também entrevistaram novamente outros presos que, por meio dos relatórios de interrogatórios que foram divulgados na quarta-feira, relataram outros casos de impropriedades contra o Alcorão. Hood não disse quantas pessoas, ou quem, sua equipe entrevistou.

Os cinco casos nos quais foram cometidas impropriedades com o Alcorão, disse Hood, estavam entre 13 casos investigados nas últimas duas semanas.

"Nenhum destes cinco incidentes foi resultado de um fracasso no cumprimento do procedimento operacional padrão em vigor no momento do incidente", disse Hood.

Mas ele acrescentou que nos primeiros meses após a implementação da prisão de Guantánamo, e até o início de 2003, não havia regras explícitas, redigidas, sobre o Alcorão. E ele disse que um incidente envolvia a violação de outra regra, não especificada, em vez do procedimento operacional padrão da prisão.

A investigação também explorou outras seis acusações de impropriedades contra o Alcorão envolvendo guardas. Em cada um destes casos, disse Hood, o guarda "ou tocou acidentalmente o Alcorão, o tocou dentro do cumprimento de seu dever ou não tocou no Alcorão".

A polícia militar reconheceu que alguns muçulmanos consideravam uma profanação um não-muçulmano tocar o Alcorão.

Em dois outros dos 13 casos que foram investigados, os interrogadores ou tocaram um Alcorão ou se reclinaram sobre o livro sagrado islâmico durante um interrogatório, disse Hood.

Nenhum caso está sendo considerado como impropriedade cometida contra o Alcorão: uma envolveu a colocação de dois Alcorões sobre uma televisão, disse Hood, e no segundo o Alcorão não foi tocado, e o insulto percebido não foi intencional.

"Nós também identificamos 15 incidentes onde os detidos manusearam ou trataram o Alcorão de forma imprópria, um dos quais, é claro, o exemplo específico de um detido que arrancou as páginas de seu próprio Alcorão", acrescentou o general.

Ele pareceu se referir a um relatório citado repetidas vezes pelas autoridades do Pentágono, incluindo o general Richard B. Myers, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, de que um detido tinha arrancado as páginas de um Alcorão e as utilizado para entupir uma privada, talvez em protesto contra o tratamento que vinha recebendo.

O abuso contra detidos, especialmente na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, embaraçou as forças armadas e o governo Bush e criou um obstáculo político enquanto defendem a campanha mundial contra o terrorismo das acusações de ser anti-Islã.

"Nós estamos em um ambiente em que as pessoas reagem a impressões", disse Lawrence Di Rita, o porta-voz do Pentágono, em uma coletiva de imprensa sobre Guantánamo, na quinta-feira.

"E assim o que estamos tentando assegurar é que as pessoas compreendam que a impressão que devem ter é de que os guardas, interrogadores e o comando de lá têm sido extraordinariamente cautelosos, mas ainda assim há casos onde impropriedades não intencionais ou outras ocorreram", disse Di Rita.

A investigação de Hood deve ser concluída antes de uma investigação mais ampla das acusações de maus-tratos a prisioneiros em Guantánamo. O relatório mais amplo poderá ser ainda mais crítico às forças armadas porque é baseado em declarações de agentes do FBI --e não detidos, cuja credibilidade tem sido contestada-- que disseram ter observado tratamento abusivo e possivelmente ilegal contra os detidos.

"Eu quero assegurar a vocês que estamos comprometidos em respeitar a dignidade cultural do Alcorão e a prática religiosa dos detidos", disse Hood.

"Todo esforço tem sido feito para fornecer artigos religiosos associados à fé islâmica, acomodar as orações e períodos religiosos, e fornecer refeições e práticas culturalmente aceitáveis."

Para a investigação de impropriedades contra o Alcorão, os investigadores analisaram três anos de registros e 31 mil documentos, tanto arquivos eletrônicos quanto em papel, disse o general.

Hood disse estar confiante de que a "orientação para a forma dos guardas lidarem com o Alcorão é adequada" em Guantánamo --pelo menos os procedimentos para lidar com o Alcorão ordenados em janeiro de 2003.

Mas ele reconheceu "que houve um período significativo de tempo, no início das operações em Guantánamo, no qual não havia orientações por escrito" regendo a forma como lidar com o Alcorão.

*Contribuiu Neil A. Lewis com reportagem. Mas negam que a bíblia do Islã tenha sido jogada numa privada George El Khouri Andolfato

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