UOL Notícias Internacional
 

27/05/2005

Redução de bilheterias preocupa Hollywood

The New York Times
Laura M. Holson

Em Los Angeles
Matthew Khalil vai ao cinema cerca de uma vez por mês. Antes, ia a seis ou sete. Khalil, que está terminando a faculdade na Universidade da Califórnia em Los Angeles, prefere ver filmes e séries de televisão antigas em DVD. Ele também joga cerca de 10 horas por semana com o game "Halo 2". Ainda por cima tem que estudar, o que significa horas na Internet e ler ao menos um livro por semana.

"Se eu quiser ver um filme, posso alugar o DVD", disse ele. "Quero fazer as coisas dentro do meu tempo, e não no dos outros."

Como Khalil, muitos americanos estão mudando sua forma de assistir a filmes --especialmente os jovens, os mais assíduos freqüentadores de cinema. As bilheterias estão abaixo do ano passado há 13 finais de semana seguidos, apesar da estréia do arrasa-quarteirão "Star Wars".

Os executivos do cinema não têm certeza se a tendência vai terminar no final de semana do Memorial Day, que inicia oficialmente a temporada do verão. Enquanto isso, as vendas de DVDs e outros tipos de mídia continuam aumentando.

Com a venda de ingressos caindo pelo terceiro ano consecutivo, muitos na indústria estão começando a se perguntar se é uma onda cíclica, movida por uma fraca produção de filmes, ou se reflete mudança muito maior na forma como os americanos se entretêm --o que imporá novos desafios a Hollywood.

Há algum tempo que os estúdios ganham mais com a venda de DVDs e marketing de produtos do que com a bilheteria. Agora, novas tecnologias como o Tivo e o "vídeo sob demanda" estão mantendo ainda mais pessoas em casa. Além disso, houve grande melhora na qualidade dos aparelhos domésticos, com televisões de alta definição e telas planas e sistemas de som de muitos canais.

"Uma mudança cultural seria muito mais aterrorizante. A falta de qualidade é um problema que dá para resolver", disse Paul Dergarabedian, presidente da Exhibitor Relations Co., firma que acompanha o desempenho dos filmes nas bilheterias.

Mas mesmo que a qualidade dos filmes melhore, o problema fundamental, disse Dergarabedian, é que "o público de hoje é muito mais difícil de estimular. Tem tantas opções de entretenimento que se acostumou a ter tudo na mão."

No ano passado, os americanos gastaram em média 78 horas assistindo a vídeos e DVDs, um aumento de 53% desde 2000, de acordo com um estudo da Motion Picture Association of America, grupo comercial da indústria.

As vendas e aluguéis de DVDs subiram 676,5% no mesmo período; 60% de todas as residências com um aparelho de televisão também têm um aparelho de DVD. Só as vendas e aluguéis de DVDs renderam cerca de US$ 21 bilhões (R$ 52 bilhões), de acordo com a Digital Entertainment Group.

Atualmente, os DVDs são lançados quatro meses depois do filme. Assim a enxurrada de propaganda que acompanha a estréia do filme nos cinemas serve como campanha de marketing para o DVD, que dá a maior parte dos lucros dos estúdios.

Por outro lado, o público no cinema aumentou 8,1% de 2000 a 2004, de acordo com a associação. Muitos na indústria apontam esse número como sinal de saúde. Mas, nesses cinco anos, o público ficou em baixa em três deles. O grande aumento de 2002 foi atribuído ao sucesso de "Homem Aranha" e "Star Wars: O Ataque dos Clones".

A bilheteria caiu 4% em 2003, 2% em 2004 e 8% até agora em 2005. O estudo da associação informa que entre 2000 e 2004, o número de adultos e adolescentes que foram aos cinemas ao menos uma vez por mês --um público normalmente confiável-- caiu 5%.

O número de horas gastas na Internet pulou em 76,6% e em jogos de videogame em 20,3%, de acordo com a associação. No ano passado, os consumidores compraram US$ 6,2 bilhões (cerca de R$ 15 bilhões) em programas de videogame, um aumento de 8% em relação a 2003, de acordo com o NPD Group, que acompanha essas vendas.

Isso não significa que a indústria do cinema, de US$ 9,5 bilhões (em torno de R$ 23 bilhões), esteja dando seu último suspiro. Ainda tem um papel crucial para os estúdios gerarem excitação em torno de seus filmes. Mas os produtores reconhecem que têm que ficar mais alertas se quiserem recapturar a atenção de seu principal público.

"Há muitas distrações", disse o produtor Jerry Bruckheimer, que produziu "Piratas do Caribe - A Maldição do Pérola Negra", de 2003, assim como a franquia de sucesso na televisão "CSI". "Você precisa tirá-los de seus computadores. Você precisa tirá-los de seus videogames."

Veja o caso de Matt Cohler, vice-presidente da Thefacebook, uma empresa do Vale do Silício que cria diretórios de alunos universitários. Cohler, 28, gosta do cinema, mas ultimamente, disse ele, pouca coisa atraiu sua atenção.

Ele gostou do novo "Star Wars" e de um documentário sobre o colapso da Enron. Já o grande suspense de Nicole Kidman, "A Intérprete", ele achou "apenas bom". Ele não tem planos de ver nada neste verão e disse que fica contente usando seu tempo livre na Internet.

"Sinto com bastante força que, com algumas exceções, a qualidade dos filmes vem caindo nos últimos poucos anos", disse ele.

Amy Pascal, diretora do grupo Sony Pictures Entertainment, disse: "Podemos dar todas as desculpas para as pessoas não aparecerem --mudança na população, demografia, seqüelas, isso e aquilo--, mas as pessoas querem bons filmes."

Ela acha que "A Feiticeira", comédia romântica sobre um produtor que, sem saber, contrata uma "verdadeira" bruxa para o papel principal em uma releitura de um programa de televisão, terá um apelo amplo. "Se fosse apenas uma reedição do programa", disse ela, "seríamos culpados de fazer o ordinário".

Jill Nightingale, 37, vende anúncios na IGN Entertainment. Ela faz parte do tipo de público --mais velho, feminino e importante para os estúdios-- que "A Feiticeira" deveria agradar. Mas os videogames cada vez mais tomam o tempo que ela gastava vendo televisão ou indo ao cinema. Os dois últimos filmes que viu foram "Star Wars" e "Sideways", em dezembro.

Recentemente, ela viu "Homem Aranha 2" em seu computador de mão. Toda noite, ela joga um videogame por 30 minutos antes de ir para a cama. Há duas semanas, cinco amigos uniram-se a ela em seu apartamento em San Francisco, para beber vinho e brincar com o "Karaokê Revolutions" em seu Playstation. Os candidatos a ídolo em "American Idols" tiveram uma pequena competição de canto.

Nightingale disse que seu namorado venceu naquela noite, mas ela ficou em segundo com uma interpretação animada de "Hit Me With Your Best Shot", de Pat Benatar.

"Jogos de festa são ótimos para encontros amorosos", disse ela. "Há alguns anos, eu estaria em um bar ou no cinema."

O que pode criar maior impacto no público é o interesse crescente por centros de entretenimento digitais, que dão algo bem mais parecido com a experiência do cinema do que as televisões comuns.

Brian Goble, 37, empresário de videogame, disse que não tinha estado no cinema em dois anos, exceto para ver "Star Wars" com sua mulher e quatro amigos. Em vez disso, ele fica em casa em Seattle, onde fez de seu porão um cinema com uma tela de 53 polegadas de alta definição e alto-falantes para o sistema de surround. Ele não tem mais que lidar com estacionamento e ingresso, um alívio agora que tem dois filhos com menos de dois anos.

"Realmente, (o cinema) não é tão confortável quanto ficar em casa", disse ele. "Você pode fazer uma pausa, ir ao banheiro, cuidar de uma criança. Não me lembro do último filme que vi no cinema."

Goble raramente vê filmes alugados online ("a qualidade é ruim", disse ele). Em vez disso, tem uma conta com a Netflix (recentemente alugou DVDs do popular "A Supremacia Bourne" e o não tão popular "Capitão Sky e o Mundo de Amanhã") e pede os filmes pela Internet.

Por exemplo, quando o filme de Nicolas Cage "A Lenda do Tesouro Perdido" foi lançado, em novembro, ele acrescentou-o a sua lista da Netflix, para que pudesse receber automaticamente uma cópia quando saísse no DVD.

Seu principal problema com o lançamento do último episódio de "Star Wars" foi não poder assisti-lo em casa. "A única razão para ir a cinema atualmente, é quando sai um filme que você sente que tem que ver na hora." Motivo é mudança de hábitos do público, que prefere DVD e jogos Deborah Weinberg

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