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29/05/2005

Será um verdadeiro Jackson Pollock?

The New York Times
Randy Kennedy
No primeiro andar de uma casa antiga no Upper East Side em Nova York, numa tarde deste mês, um negociante de arte chamado Mark Borghi mostrou a um visitante cinco pequenas tábuas incrustadas de tinta que ele segurava com tanta delicadeza quanto se fossem ovos Fabergé cheios de nitroglicerina. No mundo da arte elas realmente podem ser quase tão explosivas.

Borghi, um antigo negociante de pintura moderna que já se queimou comprando obras que afinal eram falsificadas, disse estar convencido de que as pinturas expressionistas abstratas na sua frente eram verdadeiras, e a maior descoberta da vida de qualquer negociante: pinturas desconhecidas do início da carreira de Jackson Pollock, parte de um grupo de 32 pinturas sobre tábuas e papel encontradas há dois anos em um baú metálico em Wainscott, Nova York.

Diferentemente de muitas supostas descobertas de Pollock que foram notícia -- uma delas teria a impressão digital do artista, comprada em uma loja de quinquilharias na Califórnia por US$ 5; outra teria vindo de uma professora colegial de Pollock --, as obras que estavam naquele dia na galeria de Borghi tinham uma origem especialmente convincente.

Elas foram encontradas em 2003 por Alex Matter, filho do artista gráfico e fotógrafo Herbert Matter e da pintora Mercedes Matter, que foram muito amigos de Pollock e sua mulher, a pintora Lee Krasner. As pinturas, embrulhadas em papel pardo e amarradas com barbante, estavam entre outras obras de arte, objetos pessoais e cartas deixadas por Matter pai, que morreu em 1984. Segundo Alex Matter, um cineasta que se lembra de Pollock em sua infância, a caligrafia de seu pai no papel identificava claramente as obras como sendo de Pollock, pintadas no final dos anos 40, que seu pai teria comprado ou ganhado do artista. E na biografia de Pollock escrita por B.H. Friedman, publicada em 1972, Matter realmente diz que comprou pequenas obras de Pollock no final dos anos 40.

Mas nas duas semanas passadas desde a notícia da existência dessas obras -- divulgada por um site na web e uma enxurrada de comunicados de imprensa -- surgiu uma batalha intensa e às vezes pessoal sobre quem realmente as pintou entre um pequeno grupo, antes unido, dos maiores especialistas mundiais em Jackson Pollock.

O caso, que lembra as inevitáveis imagens do Cedar Bar e os tempos áureos da Escola de Nova York, projetou uma nova luz sobre o campo contencioso da autenticação de arte, em que pistas de papel podem ser obscuras, dúvidas podem pairar durante décadas e até especialistas seguros de suas descobertas muitas vezes temem falar devido à ameaça de processos legais. Nesse mundo, o trabalho de autenticar Pollock tem sido especialmente difícil. Isso ocorre em parte por causa da grande quantidade de obras que surgiram desde a morte do pintor, em 1956; os falsificadores parecem achar que é mais fácil forjar seus respingos frenéticos do que, por exemplo, um Rafael. E como os preços dos verdadeiros quadros de Pollock atingem sete dígitos, as disputas sobre autenticidade quase sempre terminam em tribunais e no noticiário. (Alguns especialistas especularam que se as obras recém-descobertas forem verdadeiras poderão alcançar em conjunto cerca de US$ 10 milhões.)

Em um lado da disputa está Ellen G. Landau, autora de uma considerada biografia de Pollock de 1989, que diz acreditar firmemente na autenticidade das obras e aceitou trabalhar com Borghi e Matter para montar uma exposição das pinturas no ano que vem, 50º aniversário da morte de Pollock.

Mas desde que as obras foram anunciadas, e o participação de Landau em seu apoio, a Fundação Pollock-Krasner, que não quis se envolver em casos de autenticação durante quase uma década, entrou na polêmica. "Agora estamos falando de obras recém-descobertas em uma magnitude inédita em termos de números", disse Ronald D. Spencer, um advogado da fundação, que foi criada por Lee Krasner. "Isso exige que a fundação reavalie seu envolvimento nas questões de autenticação de Pollock."

Para esse fim, a entidade está recrutando um grupo de especialistas, incluindo Eugene V. Thaw, um negociante de arte veterano que, juntamente com Francis V. O'Connor, escreveu o catálogo completo da obra de Pollock, em quatro volumes, considerado a fonte definitiva sobre autenticidade.

Em uma entrevista telefônica, Thaw disse que com base nas sete pinturas que viu no início deste ano -- Borghi as levou de avião até a casa de Thaw em Santa Fe, Novo México --, ele discorda veementemente de Landau. E, embora salientando que teme ser processado, não deixou dúvidas sobre sua opinião.

"Eu passei quase a metade da minha vida trabalhando com Pollock, e se a opinião de Ellen Landau prevalecer as pessoas ficarão felizes em comprá-los e eles irão para museus e livros", disse Thaw. "Mas não aqueles com os quais eu tiver alguma relação." (Ele também acusa Borghi de interpretá-lo mal, dizendo que Thaw considerou as pinturas autênticas; Borghi nega ter feito
isso.)

A discórdia pública entre Landau e Thaw é ainda mais surpreendente porque os dois especialistas -- juntamente com O'Connor e outro importante estudioso de Pollock, William Lieberman -- trabalharam em equipe durante vários anos no Conselho de Autenticação Pollock-Krasner, criado pela fundação para examinar e decidir (gratuitamente) sobre obras contestadas. O conselho foi processado muitas vezes por supostos proprietários de Pollocks, cujos casos às vezes beiravam o ridículo. (Em um deles, registros do tribunal mostram que alguém acrescentou uma assinatura no verso de uma pintura, mas soletrou
errado: "Pollack". Quando o conselho declarou a pintura falsa, o proprietário moveu um processo e perdeu.)

O conselho se desfez em 1996 por motivos que permanecem obscuros, e mais tarde seus membros não quiseram se envolver individualmente em autenticação, embora Landau, que é professora na Universidade Western Reserve em Cleveland, diga que ainda recebe muitas mensagens eletrônicas de pessoas que afirmam ter descoberto um Pollock.

"Minha resposta padrão é: 'Sinto muito, não faço autenticação particular e não abro anexos de e-mail que não esteja esperando'", ela disse em uma entrevista por telefone.

Mas quando Borghi a contatou no final do verão de 2004 e quis lhe mostrar suas pinturas, dizendo que eram propriedade de Herbert Matter, Landau disse que se sentiu tentada a dar uma olhada. "Meu interesse foi aguçado porque toda a minha pesquisa dizia que eles foram muito bons amigos", disse ela,
acrescentando: "Devo admitir que rompi minha regra, por assim dizer". E mais tarde, quando viu as obras em uma viagem a Nova York, achou que sua decisão fora justificada. "Fiquei completamente surpresa", disse Landau, chamando-as de "a emoção acadêmica de uma vida".

Landau disse que, além da ligação com Matter, vários fatores a levaram a acreditar que as obras são autênticas. Muitas são pintadas sobre tábuas para pintura usadas por artistas, que têm um lado azul. Herbert Matter utilizava esse tipo de suporte e o teria em seu ateliê em Tudor City, Manhattan, onde Pollock teria trabalhado esporadicamente. Landau disse que ela encontrou o mesmo tipo de tábua no ateliê de Pollock em Springs, em Long Island. Sobre as pinturas em si, ela disse: "É seu tipo de gesto e seu tipo de marca". Ela acrescentou que pelo menos uma pintura inclui as iniciais "J" e "P", como Pollock fez em outras obras. "Há muitas coisas nelas que são puro Jackson."

Mas Thaw afirma que as tábuas vão contra uma atribuição a Pollock. Nenhuma de suas outras obras foi pintada nessas tábuas, ele disse, e também acha improvável que Pollock tivesse emprestado material de Matter. "É uma explicação, mas não acho plausível", ele disse, acrescentando que seu exame das sete pinturas e de fotografias das demais o convenceu de que não foram feitas todas pela mesma pessoa. "Há várias caligrafias diferentes nesse lote", ele disse, referindo-se ao estilo característico do pintor.

A discórdia entre Landau e Thaw às vezes parece um pouco pessoal, reforçada pela irritação dele pelo fato de ela não o ter contatado, nem a outros membros do conselho de autenticação, quando soube das obras. "Acho isso um pouco inatural, inverossímil", disse Thaw, que mais tarde acrescentou: "Deveríamos ter sido incluídos nisso desde o início. Certamente teríamos feito algum esforço na época se Ellen Landau tivesse trazido à nossa atenção essa descoberta especialmente sensacional".

Mas Matter disse que ele tentou inicialmente atrair Thaw e a fundação para o processo de autenticação, através de uma negociante veterana ligada a ambos, Joan Washburn, que representa parte do legado de Pollock. Essas iniciativas não deram em nada, segundo Matter, que então recorreu a Borghi, que havia escolhido antes para representar o legado de sua mãe. "Eu precisava de aconselhamento, puro e simples", ele disse. Dois meses antes da divulgação, Landau e Borghi também visitaram a fundação em Nova York, mas a diretoria lhes disse que o grupo não participava mais de autenticações. É claro, uma grande pergunta que surge inevitavelmente no caso é: Quem pode sair lucrando? Matter diz que não tem planos imediatos de vender as obras, que pretende dar algumas para instituições e guardar o resto. "Basicamente, nunca digo nunca, mas se você me perguntar neste momento eu não venderia", ele disse.

Matter também disse que não fez promessas a Borghi sobre uma participação do negociante se houver uma venda.

Landau disse que está sendo paga -- não quer dizer quanto -- para organizar a exposição, mas ressaltou que seu interesse é acadêmico. "Nunca fui paga pelo legado ou pela galeria para autenticar as obras", ela disse por e-mail. "Também não me prometeram qualquer participação em futuras vendas (se houver), nem me prometeram alguma obra em troca de minha perícia artístico-histórica. Meus honorários só cobrem o trabalho de curadoria e ensaios que vou apresentar."

E embora ela hesite em discutir publicamente com Thaw, que já deu uma festa no Museu Metropolitan para comemorar um de seus livros, Landau levantou perguntas claras sobre os motivos dele e de O'Connor, que já venderam e compraram obras de Pollock.

"Uma das vantagens que eu trago [ao projeto] é minha objetividade", ela escreveu. "Diferentemente dos autores do catálogo de Pollock, eu nunca me envolvi em compra ou venda de obras do artista. Sou uma historiadora da arte com uma reputação impecável, e não uma negociante." (Através da fundação, O'Connor não quis fazer comentários para esta reportagem. A fundação também disse que Lieberman está com a saúde abalada e não poderia comentar.)

Uma pergunta ainda maior permanece, conforme o caso se desenrola: Se as pinturas não são de Pollock, quem as pintou? Thaw tem teorias. "Qualquer um -- a própria Mercedes ou seus alunos, ou uma combinação dos dois -- poderia tentar fazer imitações de Pollock em papelão", ele disse.

Mas Matter acha essa sugestão ridícula. "Ele não faz idéia de quem é minha mãe como pintora, como artista", ele disse. "Ela preferiria se matar do que tentar copiar o trabalho de outra pessoa. Isso vai além de qualquer compreensão."

Thaw também disse que achou difícil acreditar que Mercedes Matter, que morreu em 2001, não soubesse das pinturas. Mas Matter disse que seus pais às vezes discutiam sobre a venda de obras -- ele disse que quase se divorciaram depois que sua mãe vendeu uma apreciada estátua de Giacometti -- e que seu pai poderia ter escondido as pinturas de Pollock. "Ele sabia que ela poderia vender alguma coisa a qualquer momento", disse Matter.

São realmente obras de Pollock? No final, infelizmente, mesmo depois que a fundação der sua opinião e as obras forem expostas a um público curioso, a resposta poderá acabar sendo apenas um "talvez" -- deixando-as em um limbo só comparável na arte moderna a obras contestadas de Andy Warhol e Salvador Dali.

Borghi disse que esse destino seria uma perda para o mundo da arte. "No mundo acadêmico, os estudiosos podem discordar, mas isso me parece mesquinho", ele disse.

Thaw diz que acredita plenamente em sua opinião, mas às vezes parece esperar que se demonstre o contrário. "Ninguém quer evitar que essas pinturas sejam vistas", ele disse. "Vamos expô-las, que sejam vistas e examinadas." "Não há nada que eu gostaria mais do que descobrir mais Pollocks", ele disse. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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