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29/05/2005

White Stripes muda seu foco

The New York Times
Kelefa Sanneh
Talvez seja hora de aposentar o termo "rock retrô". Não porque não é mais apropriado, mas por ser apropriado demais ele está se tornando redundante. Atualmente, o rock tende a ser retrô por definição, seja nas paradas ou nos blogs de MP3.

The Killers, a banda de Las Vegas que já vendeu um milhão de discos, se tornou a sensação mainstream ao reviver o som da new wave dos anos 80, enquanto a adorada banda cult escocesa Bloc Party se tornou uma sensação underground por... bem, reviver uma linha diferente de new wave dos anos 80.

Dos comerciais da Gap (onde você pode encontrar Joss Stone, 18 anos, cantando "Night Time Is the Right Time", uma música de meio século de
idade) até as lojas de discos independentes, a rock and roll nostálgico está por toda a parte. Um ouvinte jovem pode até mesmo se perguntar se há algum outro tipo de rock and roll, e um mais velho poderá achar esta pergunta surpreendentemente difícil de responder.

Há apenas poucos anos, era um tanto chocante ouvir tantas bandas jovens soando tão à moda antiga. Em 2001, quando o Strokes lançou seu álbum de estréia galvanizante, o boom do rock de garagem parecia uma forte (e às vezes estridente) reação a um mundo musical em mutação. O vagalhão retrô do Strokes era um ataque contra os toca-discos e teclados, rap-rock e eletrônica. E se uma banda soasse um pouco como suas bandas punks favoritas do final dos anos 70, este era mesmo o objetivo: elas estavam resistindo.

De todas as bandas que despontaram na época, nenhuma resistiu mais que o White Stripes, a dupla de Detroit que estabeleceu posição na ala extrema do retrô. O guitarrista, Jack White, e a baterista, Meg White, são "refuseniks" do rock and roll, determinados a seguir suas próprias regras rigorosas: nenhum baixista, nenhuma roupa que não seja vermelha ou branca, nenhum reconhecimento de que não são realmente irmãos. (Como os fãs descobriram rapidamente, eles são um casal divorciado.) Assim que a frenética canção punk de garagem "Fell in Love With a Girl" se tornou seu primeiro sucesso, a imagem do White Stripes ficou estabelecida: eles eram os maiores primitivistas do rock and roll, amados (até, talvez, por pessoas que não conseguiam amar a música) por sua devoção a tudo o que é básico.

Em 2003, o White Stripes deixou o Strokes para trás e quase todos os demais quando lançou "Elephant", um CD de sucesso que mesmo (ou apenas) um ludista podia amar. Nos créditos do álbum havia a promessa de que "nenhum computador tinha sido usado durante a composição, gravação, mixagem ou masterização do álbum". O álbum transformou esta postura em 50 minutos de estremecimento, uivos, batidas e gemidos. À medida que o rock retrô atingia seu ponto de saturação, com o punk de garagem caricato do Jet passando de 1 milhão de discos vendidos, a dupla do White Stripes emergiu como rei e rainha do rock and roll nostálgico.

Ou não? Em 7 de junho, o White Stripes retorna com um novo álbum empolgante, "Get Behind Me Satan" (Third Man/V2/BMG), que vai fundo no desmonte da mitologia simplória da banda. É um álbum tão forte e tão inesperado que poderá mudar a forma como as pessoas ouvirão todos os seus antecessores. E isto é só o começo. Escutá-lo o bastante poderá mudar a forma como você também escuta muitas outras bandas.

Estava claro que algo estranho estava ocorrendo quando o White Stripes lançou "Blue Orchid", o primeiro single do álbum, com uma guitarra tão processada que quase soava como um teclado; era como se a dupla tivesse feito as pazes com seu ex-inimigo, o computador. (Como freqüentemente é o caso, a batida firme da bateria de Meg White e os vocais ganidos de Jack White são quase reflexões posteriores.) Esta banda sempre se comprometeu a soar como os discos de vinil -o novo álbum, como seu antecessor, foi apresentado aos críticos apenas no formato de um LP duplo- mas "Blue Orchid" foi lançada diretamente no iTunes, duas semanas depois da banda tê-la gravado. Uma banda que antes queria voltar no tempo agora parece ansiosa a se projetar ao futuro.

"Blue Orchid" é a primeira canção do novo álbum, e é seguida por outra
surpresa: "The Nurse", que começa com um floreio de marimba que antes poderia ter soado como deslocado nos limites espartanos de um álbum do White Stripes. A guitarra dele e a bateria dela fazem intervenções ocasionais, de rachar o ouvido, mas é a marimba e o piano que carregam a canção, enquanto Jack White canta tranqüilamente uma letra enjoativa sobre devoção destrutiva e donzelas assassinas. "Não eu nunca, não eu nunca, não eu nunca vou decepcionar você, agora", ele canta, transformando um assassinato misterioso em uma história de amor. Já foram feitos muitos álbuns sobre o poder transformador do amor, mas poucos suspeitaram tanto disto quanto este.

Você pode ouvir tal suspeita espreitando no fundo de "Take, Take, Take", sobre um jovem ansioso que se depara com Rita Hayworth, a estrela de cinema que morreu quando Jack White tinha 11 anos: "Ela entrou no bar com seu cabelo ruivo longo e ondulado, e aquilo era tudo o que eu precisava", ele anuncia, soando como um jovem fã jubiloso. Ele pede um autógrafo e ela faz algo mais, beijando um pedaço branco de papel (mesmo nesta canção, praticamente tudo é vermelho e branco) e acrescentando a inscrição recatada: "Meu coração está na minha boca".

Mas quando ela graciosamente pede licença, o doce encontro azeda. O narrador fica indignado: "Ora, não é justo/eu quero um pouco do cabelo". E logo ele é tomado pela autopiedade: "Ela não se importava com minha presença/Que sensação horrível". No refrão, a música muda bruscamente para um riff de piano (no tempo 11/4), e Jack White cospe as palavras, puxando de forma petulante contra o ritmo: "Tome, tome, tome/ Tome, tome, tome". Este é o mantra ganancioso de um fã -ou, se preferir, de um nostálgico.

É difícil escutar a canção sem lembrar do recente encontro de Jack White com outra heroína de outra época -apesar de que diferente de seu narrador, ele recebeu muito mais do que um autógrafo. No ano passado, ele fez uma parceria com a transcendente cantora country Loretta Lynn em "Van Lear Rose" (Interscope), um álbum country que era alternadamente brilhante e irritante. No single "Portland, Oregon", sua guitarra rude e harmonia com voz rouca pareciam lançar Lynn a novas alturas -ela soava como se estivesse desfrutando o passeio no carro veloz de outra pessoa. Mas em outros pontos, o lado de fã ansioso de Jack White parecia sobrepujar a música graciosa, ameaçando transformar um astro pop complicado em uma caricatura. Quando ela lembra de ter sido pobre e não ter sapatos, você fica com a sensação incômoda de que ela está apenas dando ao seu jovem fã o que ele queria. O coração dele estava na boca dela.

Mas a nostalgia não opera sempre desta forma? Não é impossível amar uma cantora, uma canção ou um estilo sem mudá-lo, acentuando as características que combinam com sua própria percepção? Você pode pensar que as bandas de rock retrô diluem a música na qual se inspiram, mas o oposto tende a ser
verdadeiro: tudo volta mais vívido. A visão do Killers da new wave dos anos 80 é mais estreita do que qualquer coisa que aquela década confusa produziu, assim como o Bloc Party é ainda mais devotado às guitarras nervosas e linhas de baixo saturadas do que seus antepassados pós-punk do Gang of Four, que estão atualmente atraindo os jovens fãs no circuito de rock alternativo.

Mais espertos e estranhos que a maioria de seus contemporâneos, Jack e Meg White estão aprendendo a se deleitar nas mutações da nostalgia. "Get Behind Me Satan" está cheio de colisões, fusões e recortes. A canção de piano rock "My Doorbell" (com Jack White gritando: "Eu tenho pensado na campainha/Quando você vai tocá-la, quando você vai tocá-la?") se contrapõe à "power ballad" melancólica "Forever for Her (Is Over for Me)", onde a marimba apenas aumenta a extravagância -esta banda está arduamente recriando antigos gêneros como nunca foram.

O fato é que o White Stripes nunca foi realmente um preservacionista do rock and roll com o qual freqüentemente foi confundido. Um crítico escrevendo no "The New York Times" (e, pensando nisto, escrevendo com este mesmo nome) antes fez pouco do "grito de Led Zeppelin" de Jack White, mas este novo álbum facilita a compreensão do motivo da banda querer alardear tão obviamente suas influências. Incapaz de escapar da história do rock and roll, o White Stripes optou por rearranjá-la.

"Get Behind Me Satan" termina com outro capítulo da balada em andamento de Meg e Jack. Acompanhado apenas com alguns poucos acordes de piano, Jack White canta uma balada country, "I'm Lonely (But I Ain't That Lonely Yet)", insinuando um incesto ("Eu amo minha irmã, o Senhor sabe quanta falta sinto dela"), mas então se contendo; as últimas palavras do álbum são "às vezes fico com ciúmes dos bichinhos de estimação dela/me sinto solitário, mas ainda não estou tão solitário assim". Neste álbum, onde amar às vezes significa mudá-lo, não há nada mais romântico do que uma objeção: se você quer que a mulher que você ama permaneça a mesma, você precisa deixá-la sozinha.

Mas não podemos evitar de ouvir a canção de forma diferente: este é um álbum repleto de personagens (principalmente homens) que "tomam, tomam, tomam", então o voto de Jack White soa mais como uma triste promessa de um homem incorrigível, tentando (em vão) convencer a si mesmo de que nunca fará, ou que nunca fez. Muitas bandas buscam mudar o futuro do rock and roll; esta já o fez. Agora o White Stripes está tentando algo mais difícil: ele está tentando mudar o passado. George El Khouri Andolfato

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