UOL Notícias Internacional
 

30/05/2005

Ondas altas, sem camisa: um passeio de carro para resgatar a alma da velha Califórnia

The New York Times
Peter Passell

Em Ojai, Califórnia
Você se lembra da Califórnia do Sul de Jan e Dean, de Sonny e Cher? Lembra-se daquele lugar em que todo mundo era jovem e louro e ninguém tinha que trabalhar em dia de onda boa? E, principalmente, lembra-se de quando as estradas eram livres de engarrafamentos e as três palavras mais românticas da língua inglesa eram Pacific Coast Highway?

Bem, nem eu. Mas como nasci em Pittsburgh, onde o gelo escuro quase impedia o trânsito no inverno e os ônibus cuspindo diesel conseguiam o mesmo efeito nas outras estações, eu certamente achava que sabia o que estava perdendo.

Três décadas se passaram - está bem, quase quatro - e finalmente consegui chegar à Califórnia do Sul. De fato, realmente tive sorte: montei minha barraca em um vale silencioso a leste de Santa Barbara, onde o sol brilha quatro dias de cada cinco e freqüentemente a brisa é perfumada de flores de jasmim e laranjeiras.

No entanto, todo mundo sabe que o Sul da Califórnia das minhas fantasias juvenis -particularmente a liberdade ilimitada dos carros- há muito está prejudicado. O crescimento desordenado salpicou os condados de Los Angeles e Orange com mini-cidades e lotou os espaços entre elas com projetos de habitação e shoppings. De fato, a expansão avançou para o leste, para as plantações de limão e brócolis do condado de Riverside, que os felizes agentes imobiliários chamam de Império do Interior.

De acordo com o Instituto de Transportes do Texas, o tráfego em Los Angeles, medido em horas de atraso por passageiro em hora de pico, de fato caiu um pouco na última década. Mas o congestionamento das estradas ainda é a pior do país: em média, quem vai trabalhar de carro perdeu 93 horas em engarrafamentos em 2003. Nos tempos áureos de 1982 (o primeiro ano em que os dados foram coletados de forma sistemática), perdia-se 47 horas. Em dólares, as horas e o combustível gastos com o trânsito traduziram-se em US$ 1.598 (cerca de R$ 4.000).

Teria sido pior se os engenheiros de trânsito não tivessem desenvolvido várias estratégias para limitar o congestionamento. As medidas, porém, evidenciam a distância cada vez maior da fantasia de pular no carro e dirigir até Malibu ou Pasadena em menos tempo do que a duração do disco "Little Deuce Coupe" dos Beach Boys.

Há um sistema de sinais luminosos que racionaliza a entrada para as auto-estradas durante as horas de pico; faixas para veículos com mais de uma pessoa promovem o sistema de compartilhamento ou carona; e a favorita dos
economistas: as estradas estaduais do condado Orange impõem pedágios mais caros nas horas de pico.

Graças ao terreno irregular, além da falta de água e de fortes lobbies contra a expansão, áreas ao norte e oeste não são expansões contínuas de los Angeles e não são tão congestionadas. De fato, se a fantasia de livre circulação na Califórnia do Sul está viva em alguma parte (diferente do deserto e dos vales centrais dominados pelo agronegócio) é aqui nos condados de Ventura e Santa Barbara, onde o tempo perdido em trânsito nas horas de rush é cerca de um terço do de Los Angeles.

Só o que eu precisava era de uma desculpa para tirar um tempo e passear pelas estradas em busca de um sonho antigo. A oportunidade veio com o teste de dois carros que têm fortes laços com o passado romântico.

Apesar de todos os tipos de veículos serem identificados com a cultura de automóveis da Califórnia - tudo desde o Ford Super Deluxe do final dos anos 40 até o Honda Civic favorecido pelos corredores de rua mais recentemente - meus próprios desejos juvenis na Pensilvânia eram mais plebeus. Babava diante dos Mustangs da Ford, dos anos 60 e com cada geração do Corvette da Chevrolet.

Na imaginação, ao menos, a verdadeira experiência de dirigir na Califórnia requer um conversível; e o feliz acaso quis que fossem lançados recentemente modelos Mustang e Corvette conversíveis.

O Mustang 2005 oferece ao motorista jovem no coração os prazeres das versões anteriores, mas deixa para trás os interiores baratos e a dificuldade de direção que tornava os modelos mais velhos um exercício para dirigir. De fato, por US$ 32.000 (cerca de R$ 80.000), o Mustang GT conversível de 300 cavalos é uma barganha que respira fogo.

Como os Corvettes anteriores, o modelo de sexta geração é musculoso. Mas diferentemente de encarnações anteriores, sua direção e freio são perfeitos para o motor de 6 litros e 400 cavalos V8. Mais surpreendentemente o novo Corvette tem um interior polido e seu acabamento lembra os carros esportivos europeus. Um grande desapontamento é o preço, que começa em US$ 52.245 (aproximadamente R$ 130.000) para o conversível (cerca de R$ 20.000 a mais do que o regular) e pode facilmente chegar a US$ 60.000 (por volta de R$150.000) se você quiser opcionais.

Não era difícil escolher um lugar para dirigir. O Vale Ojai, no condado de Ventura, fica perto da Rota 101, uma importante artéria Norte-Sul cheia de Home Depots, Marriott Courtyards e In-N-Out Burguers. Mas as altas montanhas que cercam o vale reduzem as saídas a quatro, o que limita seu desenvolvimento e garante que, com exceção da estrada principal para Los Angeles, as vias raramente estão cheias.

Meu primeiro destino era o vale superior do Ojai ao leste, onde advogados e administradores gradualmente substituíram as residências modestas com jardins mal cuidados dos moradores antigos, com seus celeiros pitorescos, plantações de abricó e o animal exótico ocasional. Infelizmente, não havia ninguém para admirar meu Mustang vermelho conversível, aparte de alguns cavalos mastigando cenouras e um Crown Vic do departamento de Polícia patrulhando as ruas contra o excesso de velocidade e evidências de laboratórios de metanfetamina.

A Rota 150 parte do vale e envolve uma série de curvas apertadas, o que me deu uma chance de testar a versatilidade do carro. O Mustang enfrentou o desafio bem, com suficiente resistência para mostrar quando os pneus amplos e aderentes estavam em seu limite. Ainda assim, o enorme torque disponível do V-8 de 4.6 litros permitiu passar pelas partes planas a 60 km/h em quinta marcha.

Voltando para a aldeia de Ojai, o Mustang atraiu olhares invejosos. Estranhamente, meu passeio com o Corvette dias antes tinha sido recebido com menos entusiasmo. Isso pode ser por algum motivo sutil. O novo Mustang é um ícone americano, mas a imagem foi suavizada pelo design divertido retro. O Corvette, por outro lado, tem uma onda de esteróides, menos sintonizado com a auto-imagem de Ojai.

Outro passeio me levou para noroeste do vale na Rota 33, uma estrada cheia de curvas que oferece vistas de cartão postal de gargantas e picos áridos, enquanto sobe para a Floresta Nacional de Los Padres. Eu só pude ir até o acampamento de Rose Valley, pois a estrada estava fechada por causa dos danos causados pelas tempestades de inverno. O fechamento foi a meu favor - o trânsito que em geral é pouco chegou a nada - o que tornou a volta para a Rota 150 indolor.

Indo em direção a oeste do vale, a estrada desce para acompanhar a margem do lago Casitas, um lindo lago artificial que enche as piscinas de Ojai, antes de subir de novo para cruzar a passagem Casitas. Do topo, vêem-se as montanhas de 2.400 metros ao leste e as Ilhas Channel ao sul, a cerca de 30 km do porto de Santa Barbara.

É preciso se habituar a estrada, já que esconde curvas perigosas que se estreitam antes de se abrirem. Mas é um bom lugar para levar um carro quente como o Corvette.

Os modelos mais antigos dos carros esportivos da GM sempre foram divertidos de pilotar, mas às vezes assustavam porque a direção não era tão firme quanto seu poder explosivo requeria. A sexta geração do Corvette, por outro lado, tem uma direção tão boa quanto parece, dando confiança enquanto acelera nas curvas. A verdadeira prova de sua competência, porém, foi como se saiu bem com o pavimento coberto de sujeira da tempestade e como foi gentil toda vez que eu superestimava minha capacidade ao volante.

Ao chegar à costa, perto da cidade praiana de Carpinteria, a realidade bateu forte. Na Rota 101, em direção Norte, as seis pistas são reduzida para quatro; o funil retarda o tráfego na hora do rush e nas tardes de final de semana, quando a estrada está cheia de adoradores de praia.

Ao longo desse trecho para Santa Barbara, a Rota 101 acompanha algumas das praias mais belas da região. Durante a semana (exceto pelo verão), é só você, as gaivotas e os surfistas, esperando a 100 metros de distância para realizar seus sonhos muito diferentes de liberdade.

Dirigir na Califórnia do Sul não é o que costumava ser, o que não surpreende quando lembramos que 15 milhões de pessoas são quase inteiramente dependentes dos carros para se mover pela metrópole de Los Angeles e outros 3 milhões manobram em San Diego. Com os investimentos em estradas caindo neste Estado falido, há poucas chances do trânsito se tornar mais fácil e barato.

Mesmo assim, há redutos de boa vida (e bons passeios) escondidos nas montanhas. Pensando bem, esqueça que eu mencionei isso -o paraíso está definitivamente ficando sem espaço de manobra. Deborah Weinberg

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