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01/06/2005

Diretor do FBI assume que foi Garganta Profunda, fonte que revelou escândalo Watergate

The New York Times
Todd S. Purdum*

Em Washington
W. Mark Felt, um diretor do FBI durante o governo Nixon (1969-1974), era o "Garganta Profunda" do caso Watergate, a fonte secreta que forneceu informações que ajudaram Bob Woodward e Carl Bernstein do jornal "The Washington Post" a expor os escândalos da Casa Branca de Richard Nixon, disse o jornal nesta terça-feira (31/05).

Peter da Silva/The New York Times 
W. Mark Felt acena para a imprensa em sua casa na Califórnia; a seu lado, filha e neto
Woodward e Bernstein disseram em uma declaração postada na tarde de terça-feira no site do "Post":

"W. Mark Felt era o 'Garganta Profunda' e nos ajudou de forma imensurável em nossa cobertura do (caso) Watergate. Mas, como mostram os registros, muitas outras fontes e funcionários nos ajudaram e a outros repórteres nas centenas de reportagens que foram escritas no 'The Washington Post' sobre Watergate".

A identidade do Garganta Profunda --se a fonte era uma pessoa ou mais de uma-- era um dos mistérios restantes de Watergate, uma palavra que resume uma série de escândalos e revelações que culminaram na decisão do republicano Richard Nixon de renunciar em 1974, em vez de enfrentar um processo de impeachment.

A confirmação de que foi Felt, que por muito tempo foi considerado um dos possíveis candidatos, ocorreu horas depois de a revista "Vanity Fair" ter anunciado que Felt reconheceu ser o "Garganta Profunda" em uma artigo para a edição de julho, que foi postado na terça-feira no site da revista.

"Eu sou o sujeito que costumavam chamar de Garganta Profunda", disse Felt no artigo da "Vanity Fair", de autoria de John D. O'Connor, um advogado que se tornou escritor.

Até agora, apenas Woodward, Bernstein, o editor-executivo deles na época, Benjamin C. Bradlee, e o próprio Garganta Profunda sabiam o nome por trás do rosto encoberto por sombra que ficou famoso para as pessoas que assistiram a "Todos os Homens do Presidente", um filme de 1976 baseado no livro de Woodward e Bernstein de mesmo nome.

No filme, o "Garganta Profunda" foi interpretado por Hal Holbrook, Bernstein por Dustin Hoffman, Woodward por Robert Redford, e Bradlee por Jason Robards.

Felt disse para sua família e amigos nos últimos anos: "Eu sou o sujeito que costumavam chamar de 'Garganta Profunda'", segundo a "Vanity Fair" e uma declaração de seu neto.

Bradlee, em uma breve entrevista por telefone apenas horas após a revelação na tarde de terça-feira, disse: "A sabedoria da idade pede por silêncio".

Woodward, que ainda trabalha no "Post", e Bernstein, que não mais, a princípio emitiram declarações se recusando, como fizeram por décadas, a fazer qualquer comentário sobre a identidade do Garganta Profunda até sua morte. Mas com as declarações do próprio Felt, e comentários de seus parentes, eles aparentemente se viram liberados de sua promessa.

Felt, atualmente com 91 anos, aposentado e com saúde precária em Santa Rosa, Califórnia, passou mais de 30 anos no Birô Federal de Investigação (FBI), eventualmente se tornando o segundo na hierarquia no meio da investigação de Watergate.

Sua família disse que ele vinha se sentindo dividido sobre revelar ou não seu papel como o guia misterioso que se encontrou com Woodward em um estacionamento e o encorajou a investigar o escândalo entre as fileiras do governo Nixon, e sobre se suas ações foram apropriadas para uma autoridade de manutenção da lei.

Mas o neto de Felt, Nick Jones, um estudante de Direito de 23 anos, leu uma declaração em nome de sua família na terça-feira, explicando:

"Como ele disse recentemente para minha mãe, 'Eu acho que as pessoas costumavam pensar no Garganta Profunda como um criminoso, mas agora eles o consideram um herói'", e acrescentando que "os homens e mulheres do FBI que colocaram suas vidas em risco por mais de 50 anos para manter este país seguro merecem mais reconhecimento do que ele".

Woodward e Bernstein recusaram-se inicialmente a serem arrastados para qualquer discussão do assunto.

"Há um princípio envolvido", disse Bernstein em uma entrevista por telefone, de Nova York. "Repórteres estão indo atualmente para a cadeia na defesa de tal princípio, e não vamos depreciá-lo agora."

Mas a realidade pode ser um pouco mais complexa.

O artigo da "Vanity Fair", escrito por um advogado e amigo da família Felt, John D. O'Connor, retrata um diálogo educado mas persistente entre a família Felt e Woodward nos últimos anos sobre quem detinha os direitos (e benefícios) de sensacional série de reportagens que culminaram na renúncia de um, até então, popular presidente dos Estados Unidos.

Ao encorajar seu pai a contar sua própria versão, a filha de Felt, Joan, falou do dinheiro que poderia ajudar a pagar o estudo de seus filhos.

Da sua parte, diz o artigo, Woodward, que construiu uma carreira lucrativa como autor de best sellers, expressava preocupação sobre se Felt, com sua memória falhando e faculdades reduzidas após um derrame, estava realmente em posição de liberar um repórter de qualquer acordo de confidencialidade que tenha feito.

Ao ser informado pela filha de Felt que seu pai parecia ter lembranças incomumente claras dele, o artigo da "Vanity Fair" diz que Woodward simplesmente respondeu: "Ele tem bons motivos para lembrar de mim".

Apesar do nome de Felt por muito tempo ter sido cogitado como um possível identidade do Garganta Profunda, ele ganhou força em 1999, quando o jornal "The Hartford Courant" publicou um extenso artigo motivado pela afirmação de um adolescente de que o filho de Bernstein, Jacob, tinha citado Felt como sendo o Garganta Profunda durante uma conversa em um acampamento de verão, em 1988.

Felt negou a alegação em uma entrevista para o jornal, e Bernstein "caiu na gargalhada", relatou o "Courant" na época.

Em "Todos os Homens do Presidente", os dois repórteres descreveram o Garganta Profunda --um nome inspirado em um notório filme pornográfico da época-- como um fumante que aguardava Woodward mover um vaso de flor na sacada de seu apartamento para sinalizar que ele queria um encontro clandestino, em um estacionamento escuro, por exemplo.

Seus motivos para ajudar os repórteres continuam incertos.

Ao longo dos anos, a lista de prováveis suspeitos incluiu o ex-secretário de Estado, Alexander Haig, o ex-promotor de Watergate, Earl Silbert, e os ex-assessores da Casa Branca, Pat Buchanan, Ron Ziegler e David Gergen.

Outros sugeriram que o Garganta Profunda não era uma única pessoa, mas na verdade uma composição de várias pessoas, ou que ele --ou ela-- nunca existiu.

O reconhecimento por Felt, confirmado pelo "Washington Post", encerra este assunto.

*Colaborou Maria Newman com reportagem de Nova York. Oficial encerra um dos maiores mistérios da história americana George El Khouri Andolfato

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