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02/06/2005

Revelação da identidade de Garganta Profunda fura repórter do caso Watergate

The New York Times
Todd S. Purdum* e Jim Rutenberg

Em Washington
Esta não era a forma que Bob Woodward esperava contar o último capítulo da história de Watergate que ele e o "Washington Post" detiveram por mais de 30 anos: a identidade do Garganta Profunda.

David L. Ryan/The Boston Globe 
Carreira de Bob Woodward deslanchou com as informações do Garganta Profunda, que acarretaram o escândalo Watergate em 72
Woodward, um máquina de mídia de Washington, há muito tempo se insulou das rivalidades jornalísticas normais. Mas nesta semana, após a revelação da revista "Vanity Fair" de que W. Mark Felt era sua fonte secreta, ficou claro que Woodward vinha enfrentando meses, até mesmo anos, de pressão competitiva de uma fonte improvável, a própria família Felt.

Na quarta-feira (01/06), surgiu a notícia de que a família do ex-vice-diretor do FBI de 91 anos, após não conseguir chegar a um acordo colaborativo com Woodward, buscou em vão pagamento pela história de Felt não apenas junto à "Vanity Fair", mas também na revista "People" e na HarperCollins Books.

Eles aparentemente ainda estão determinados a reivindicar sua parcela da história que ajudou a tornar Woodward milionário.

"Está me fazendo bem", Felt disse aos repórteres do lado de fora de seu lar em Santa Rosa, Califórnia, quando questionado como estava reagindo à publicidade. "Eu vou buscar escrever um livro ou algo assim, e receber todo o dinheiro que puder."

J. Todd Foster, editor do "The News-Virginian" de Waynesboro, disse que em 2003, após ser frustrada em seus esforços para persuadir Woodward a cooperar, a família Felt o procurou --cerca de seis meses após ele tê-la abordado seguindo uma pista própria de que Felt era o Garganta Profunda-- para propor uma colaboração. Na época, Foster era colaborador da "People", que ele disse ter considerado e rejeitado um artigo porque os Felt queriam pagamento.

"Isto sempre se tratou de dinheiro, e eles foram muito francos comigo", disse ele em uma entrevista por telefone.

Foster e a família Felt então levaram o projeto para a ReganBooks, um selo da HarperCollins. Mas Judith Regan, presidente e editora-chefe da ReganBooks, disse na quarta-feira que a possibilidade do livro ruiu devido a preocupações sérias de que a mente de Felt não estava mais sã.

Também ficou claro na quarta-feira que o artigo da "Vanity Fair" forçou Woodward a se curvar aos imperativos institucionais do jornal que lhe deu liberdade quase incomparável para contar suas histórias na época como quisesse, freqüentemente na forma de livros best sellers.

Altos executivos do "Post" disseram que o jornal persuadiu Woodward de que tinha chegado a hora de contar a história, e da forma mais rápida possível.

Na terça-feira, Leonard Downie, o editor executivo do "Post", estava falando em um seminário de administração na costa leste de Maryland quando seu celular começou a tocar de forma tão insistente que ele teve que desligá-lo.

Ele ignorou os bilhetes entregues pelos funcionários do hotel. Apenas quando o presidente do "Post", Donald Graham, saiu para atender um telefonema é que eles souberam do furo da "Vanity Fair". "Ele fez um sinal pela porta com o dedo", disse Downie na quarta-feira. "Ele disse: 'É melhor ligar para Woodward'."

Por anos, o "Washington Post" chamava a história de Woodward de uma de suas maiores, mas de uma forma quase desconhecida em qualquer outra grande organização de notícia. Ele detém a posição de editor administrativo assistente, mas é autorizado a trabalhar livremente por meses em livros --no momento já são 11-- que quase invariavelmente se tornam best sellers, depois que a maioria de suas revelações dignas de nota são apresentadas no "Post" em vários dias de publicidade pré-publicação, visando obter o efeito máximo.

O "Post" informou na quarta-feira que Woodward vinha se preparando para a eventual morte de Felt escrevendo um livro curto sobre o relacionamento entre eles, um livro que sua editora de longa data, a Simon & Schuster, agora está publicando às pressas. Woodward disse em uma breve entrevista por telefone que ele relutou em romper sua promessa de confidencialidade, duvidando da competência de Felt em se manifestar.

No final, após um encontro arranjado às pressas com Downie, na terça-feira, que voltou imediatamente ao "Post", o cuidadoso planejamento futuro de Woodward se curvou ao inevitável: a "Vanity Fair" ficou com o furo.

"A história expôs tudo, e é tolice dizer que não tem nada a comentar e que nem dirá se a coisa toda é correta, quando você sabe que é", disse Benjamin C. Bradlee, o editor executivo do "Post" na época do Watergate, que começou o dia, assim como Woodward e seu co-autor do tema, Carl Bernstein, ganhando tempo declarando: "A sabedoria da idade pede por silêncio".

Downie disse que ele e Bradlee concordaram que, como a família Felt revelou o segredo, o jornal não tinha escolha a não ser acompanhá-la --uma escolha com a qual, ele disse, Woodward teve de concordar, após expor "os argumentos do advogado do diabo" do contrário.

"Bob trabalha para o 'Washington Post', assim a forma como lidamos com a morte e identidade do Garganta Profunda no jornal é uma decisão conjunta e ele sabe disto", disse ele.

Downie disse que Woodward provavelmente não se comprometeu em suas discussões com a família Felt "porque ele sabia que o 'Post' teria que fazer o que o 'Post' teria que fazer como jornal".

Ele disse que Woodward não tem liberdade total para fechar tais acordos, "pelo menos não envolvendo o que sai no próprio jornal", e quanto aos acordos para livros, disse Downie, Woodward tem liberdade para buscar os assuntos de sua escolha, mas "nós temos que dar aprovação sobre se está consistente com nossos princípios ou éticas".

Esforços repetidos para contatar o advogado da família Felt, John J. O'Connor, que escreveu o artigo da "Vanity Fair", foram infrutíferos na quarta-feira, e a filha de Felt disse que ele e a "Vanity Fair" lhe pediram para que não falasse.

O neto de Felt, Nick Jones, falando aos repórteres do lado de fora de sua casa em Santa Rosa, Califórnia, disse sobre o papel de seu avô no caso Watergate: "Nós o apoiamos e ao que ele fez".

Woodward, falando de sua casa em Georgetown, onde câmeras fotográficas e de televisão foram posicionadas enquanto ele preparava um artigo sobre seu relacionamento com Felt para publicação na edição de quinta-feira do "Post", negou qualquer noção de que estava tentando proteger um interesse comercial.

"O que estou tentando proteger é a história, para que seja precisa, plena e completa", disse ele.

Apesar da revelação de Felt ter deixado alguns céticos insistindo que uma única pessoa não poderia saber tanto quanto o Garganta Profunda supostamente teria dito a Woodward, olhando para trás havia pistas aparentemente óbvias apontando para Felt. Ele sempre foi a primeira escolha de Nora Ephron, a escritora, roteirista e diretora de cinema que já foi casada com Carl Bernstein.

"O codinome de Woodward para a fonte deles --antes dele ter sido batizado de Garganta Profunda pelo editor Howard Simons, do 'Washington Post'-- era My Friend (Meu Amigo)", ou M.F., escreveu Ephron no diário de internet "The Huffington Post". "Olá."

Na verdade, disse Bradlee, pelo que ele sabe, Woodward se encontrou pela primeira vez com Felt, um veterano da Marinha e funcionário de carreira no FBI, de forma casual como um jovem mensageiro da Marinha em Washington.

Durante a investigação do "Post" do caso Watergate, Bradlee sabia que o Garganta Profunda era uma importante autoridade no Departamento de Justiça, mas tomou conhecimento do seu nome apenas após a renúncia de Richard Nixon.

"Eu estava sentado em um banco na McPherson Square", perto da sede do "Post" na Rua 15, lembrou Bradlee, "e eu disse: 'Eu preciso saber'. Me parecia que havia algum tipo de potencial, de que o cenário estava preparado para um ataque à existência do Garganta Profunda, de que era uma composição, blá-blá-blá. Para satisfazer qualquer papel que eu teria em sua defesa, eu senti que precisava saber".

Downie disse que Woodward lhe contou sobre Felt dois meses atrás, para que o jornal pudesse começar a preparar material para o caso de sua morte.

No passado, Woodward às vezes foi acusado de reter material para publicação em seus livros que teria sido notícia importante caso fosse publicado no jornal em momento oportuno. Pelo menos em uma ocasião, em 1987, o "Post" se recusou a publicar o que seria uma grande notícia --o relato de Woodward de sua conversa no leito de morte com o ex-diretor da CIA, William J. Casey, sobre o caso Irã-Contras, logo após ele ter ocorrido.

O jornal o fez com base de que a confirmação silenciosa de Casey de que sabia sobre o desvio de fundos de vendas de armas para o Irã para os contras da Nicarágua era ambígua. O "Post" posteriormente publicou o relato como parte da reprodução de trechos do livro de Woodward sobre o assunto, "Veil: As Guerras Secretas da CIA 1981-1987".

Mesmo agora, Woodward parece que provavelmente terá a palavra final sobre a história de Felt. O'Connor, o advogado da família Felt, disse no programa "Nightline" da ABC que seu cliente não se lembra de sinais elaborados --uma bandeira vermelha em um vaso de flores, ponteiros de relógio rabiscados na página 20 da edição do NYT entregue na casa de Woodward-- que Woodward disse terem sido usados para marcar os encontros com o Garganta Profunda.

Steve Luxenberg, atual editor da seção Outlook do "Post" e ex-editor de investigações que trabalhou estreitamente com Woodward, disse que ele fez o que era honrado no caso de Felt, trabalhando para proteger os interesses de sua fonte e do jornal.

"Woodward optou durante anos por não deixar o 'Post'", disse Luxenberg. "Ele poderia tê-lo feito facilmente. Este é um relacionamento importante para ele, e ele não quer vê-lo arruinado." Como resultado, disse Luxenberg, Woodward não vê situações como esta "apenas pelo ângulo de Bob Woodward; ele também está olhando por todos os outros ângulos".

Bradlee, cuja paixão por reportagens quentes era famosa, disse que o "Post" perdeu pouco em esperar para contar a história de Felt. "Me parece que você ganha mais em prestígio ao manter sua palavra do que perde ao deixar escapar o furo", disse ele. "Sabe como é, uma promessa é uma promessa."

Ao ser questionado sobre se a revelação da família Felt ajudou Woodward, corroborando a existência e identidade do Garganta Profunda, Bradlee respondeu com uma risada orgulhosa sobre seu antigo protegido: "Ajuda-o a caminho do banco, com certeza!"

*Colaboraram ou Dean E. Murphy com reportagem em Santa Rosa, Califórnia, e Edward Wyatt em Nova York. Bob Woodward perdeu para sempre a chance de contar o último capítulo de sua grande história, que acarretou a renúncia de Nixon George El Khouri Andolfato

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