UOL Notícias Internacional
 

03/06/2005

Bush oculta verdade como nos dias do Watergate

The New York Times
Bob Herbert

Em Nova York
NYT Image

Bob Herbert é colunista
Quando ele aceitou a indicação republicana para presidente em 1968, Richard M. Nixon disse: "Vamos começar nos comprometendo com a verdade --a vê-la como ela é, dizê-la como ela é-- encontrar a verdade, falar a verdade e viver a verdade".

Nós agora soubemos, graças à "Vanity Fair", que um ex-diretor do FBI, W. Mark Felt, foi a lendária fonte confidencial Garganta Profunda. Eu não consigo pensar em um momento melhor para ressuscitar a saga de Watergate.

O trauma de Watergate, que derrubou um presidente que parecia compelido patologicamente a enganar, ocorreu no final daquele exercício prolongado de desatino e logro governamental, o Vietnã. Somados, estes dois desastres que abalaram a nação forneceram um exemplo de como os cidadãos devem ver seu governo: com extremo ceticismo.

Confie, disse Ronald Reagan, mas verifique.

Agora, com George W. Bush no poder, a nação está atolada em outro período trágico marcado por incompetência, duplicidade, má fé e mentiras descaradas provenientes novamente do topo do governo.

No mês passado, tivemos a revelação de um memorando previamente secreto do governo britânico, oferecendo nova confirmação de que o povo americano e o mundo estavam sendo alimentados com informações falsas pelo governo Bush antes da invasão no Iraque.

O presidente Bush, como nós sabemos, queria remover Saddam Hussein por meio de ação militar. Tendo isto em vista, o memorando explicou de forma condenatória, "a inteligência e os fatos estão sendo manipulados segundo a política".

Este é o tipo de logro que estava em andamento enquanto homens e mulheres americanos estavam se preparando e marchando para combater sob o comando do presidente. Bush queria a guerra, e ele a teve. Muitos milhares morreram em conseqüência.

Mesmo no Afeganistão, onde os Estados Unidos tinham motivos legítimos para ir à guerra, as mentiras foram legião. Pat Tillman, por exemplo, foi um popular jogador da NFL (liga profissional de futebol americano) que, em um repente de patriotismo após 11 de setembro, desistiu de um contrato de US$ 3,6 milhões com o Arizona Cardinals para se juntar aos Rangers do Exército.

Ele foi enviado inicialmente ao Iraque e depois para o Afeganistão, onde foi morto a tiros por membros de sua própria unidade que o confundiram com o inimigo.

Em vez de revelar que Tillman morreu tragicamente em um incidente de fogo amigo, o Exército inventou uma história de heroísmo para sua família e para a nação.

Segundo o Exército, Tillman foi morto por fogo inimigo durante um avanço em uma colina. Os soldados que sabiam a verdade receberam ordens para ficarem calados sobre o assunto. A família de Tillman só soube como ele realmente morreu depois da realização de um serviço fúnebre transmitido pela televisão para todo o país e que os recrutadores viram como uma peça de relações públicas.

Mary Tillman, a mãe do jogador, disse ao "The Washington Post":

"As forças armadas o traíram. O governo o traiu. Foi um sinal de desrespeito. O fato dele ter sido alguém que sempre jogou pelo time e que assistiu seus próprios homens o matarem é absolutamente lamentável e trágico. O fato de depois terem mentido sobre isto é enojante."

Em uma coletiva de imprensa na terça-feira, Bush, falando sobre os detidos que se queixaram de terem sofrido abusos, disse que eram "pessoas que foram treinadas para 'disassemble' (desmontar) --o que significa não dizer a verdade".

Bush queria dizer, é claro, 'dissemble', que realmente significa esconder ou enganar deliberadamente. Todavia, ele sabia do que estava falando. O presidente pode ter tropeçado na pronúncia, mas ele provou repetidas vezes que é um praticante habilidoso da arte.

As lições de Watergate e do Vietnã são de que as proteções e salvaguardas inseridas no governo nacional pelos Pais Fundadores (e que o governo Bush está tentando a todo custo destruir) são absolutamente cruciais para a sobrevivência da democracia ao estilo americano, e que uma imprensa realmente livre e desagrilhoada (que o governo Bush está tentando a todo custo intimidar) é tão importante agora quanto sempre foi.

Aqui está de forma resumida. Lyndon B. Johnson e Richard M. Nixon, embriagados pelo poder e sem a devida restrição, conduziram a nação em jornadas arrepiantes que foram tão desnecessárias quanto destrutivas. Agora, nos primeiros anos do século 21, George W. Bush está fazendo o mesmo.

O Congresso e uma imprensa agressiva eventualmente tiveram um papel crucial na exposição da verdade sobre o Vietnã e Watergate.

Existe hoje um desafio semelhante. Nós veremos como isto terminará. Basta comparar a atualidade com a época do Garganta Profunda George El Khouri Andolfato

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