UOL Notícias Internacional
 

04/06/2005

No Japão, economizar energia é um ato patriótico

The New York Times
James Brooke

Em Tóquio
O aumento dos preços do petróleo e a crescente preocupação com o cumprimento das metas de redução dos gases do efeito estufa, produzidos pela queima de combustíveis fósseis, reviveram os esforços ao redor do mundo para melhorar a eficiência de energia. Mas talvez em nenhum outro lugar o interesse seja maior do que aqui no Japão.

Apesar de o Japão já estar entre os países mais frugais do mundo, o governo recentemente lançou uma nova campanha nacional, pedindo aos japoneses para substituírem seus antigos eletrodomésticos e comprarem veículos híbridos, tudo parte de um esforço patriótico para economizar energia e combater o aquecimento global. E as grandes empresas estão aproveitando a deixa, contando com um aumento das vendas de seus modelos mais recentes.

No showroom de aparelhos da Matsushita atualmente, os números não destacam os preços muito, muito baixos em ienes, mas o baixo, baixo consumo de quilowatts-hora.

O refrigerador insulado a vácuo, que vem com uma campainha caso a porta fique aberta por mais de 30 segundos, se gaba de que consumirá apenas 160 quilowatts-hora por ano, um oitavo do gasto pelos modelos padrão de uma década atrás. Um ar-condicionado com limpador robótico do filtro de pó alega gastar 884 quilowatts-hora, menos da metade do consumo dos aparelhos com uma década de idade.

"É como torcer uma toalha seca" em busca das últimas gotas, disse Katsumi Tomita, um planejador ambiental da Matsushita Electric Industrial Co., fabricante da marca Panasonic e conhecida por sua atenção à eficiência em energia. "O sentimento honesto do povo japonês é: 'Como podemos fazer mais?'"

Vários outros países ricos com poucas fontes de energia próprias estão respondendo de forma semelhante.

Na Alemanha, onde o aquecimento responde pela maior parcela do consumo de energia nos lares, uma nova lei de economia de energia estabeleceu o padrão de "casa de 7 litros", que visa o uso de apenas 7 litros de óleo para aquecer 1 metro quadrado por ano, cerca de um terço da quantia consumida por uma casa construída em 1973, antes do primeiro choque dos preços do petróleo. Casas de três litros --e até mesmo projetos de 1 litro-- estão sendo construídas no momento.

Em Cingapura, onde o uso do ar-condicionado durante o ano todo representa 60% da conta de luz de um prédio, novos códigos estão encorajando o uso de coisas como filmes bloqueadores de calor para janelas e ligações para sistemas de resfriamento de bairro, onde água é resfriada durante a noite.

Em Hong Kong, muito mais prédios agora possuem sistemas de elevador "inteligentes", nos quais os computadores minimizam as paradas desnecessárias. Restrições a estacionamento encorajam o trânsito de trem e ônibus, e as autoridades também estão estimulando carros híbridos equipados com motores que se desligam quando inativos.

Outros países, incluindo os Estados Unidos, disparadamente os maiores consumidores de energia do mundo, estão ficando para trás, mas mesmo os consumidores americanos estão começando a dar as costas para grandes veículos utilitários esporte e procurando carros de menor consumo de combustível em resposta aos altos preços da gasolina.

Mas é no Japão onde a consciência de energia provavelmente atinge os níveis mais elevados no mundo. O país tem a segunda maior economia do mundo, mas virtualmente não produz nada de petróleo ou gás, importando 96% de suas necessidades de energia.

Esta dependência de importação tem estimulado a nação a conseguir feitos tremendos na melhoria da eficiência. A França e a Alemanha, onde as cruzadas dos governos contra o aquecimento global têm se tornado cada vez mais barulhentas, gastam quase 50% a mais em energia para produzir o equivalente a US$ 1 em atividade econômica.

O uso de energia na Grã-Bretanha, segundo a mesma medida, é quase o dobro; os Estados Unidos precisam de quase o triplo; e a China precisa de quase oito vezes mais.

De 1973 até hoje, o setor industrial do Japão quase triplicou sua produção, mas manteve seu consumo de energia praticamente inalterado. Para obter a mesma produção industrial do Japão, a China consome 11,5 vezes mais energia.

Na JFE Holdings, a segunda maior siderúrgica do Japão, pastilhas de plástico feitas de garrafas recicladas agora são responsáveis por 10% do combustível nas fornalhas principais, reduzindo a dependência de carvão importado.

As fábricas de papel japonesas estão investindo pesadamente em caldeiras que podem ser alimentadas por restos de papel, madeira e plástico. Em dois anos, metade da eletricidade usada nas fábricas de papel do país virá da queima de sobras.

Muitos passos fáceis foram adotados após as altas do petróleo nos anos 70. Agora o Japão está embarcando em uma nova fase. Bilhões de dólares estão sendo investidos para atingir a meta de 2012 de reduzir a emissão pelo Japão de gases responsáveis pelo efeito estufa a 6% abaixo do patamar de 1990. Estes gases são liberados com a queima de petróleo, carvão e, em menor grau, gás natural -fontes de cerca de 81% da energia do Japão.

Como país anfitrião do Protocolo de Kyoto para redução dos gases do efeito estufa, o Japão leva seu compromisso a sério. Mas ele enfrenta um grande desafio. Segundo números divulgados no mês passado, o Japão estava 8,3% acima do patamar de 1990 no ano fiscal encerrado em março de 2004.

"Nós agora estamos em um estágio onde nós só podemos economizar energia investindo em equipamento", disse Tomita sobre a abordagem da Matsushita. "Se pudermos reunir o dinheiro em três anos, nós investiremos."

Com o primeiro-ministro japonês, Junichiro Koizumi, lançando a campanha nacional dois meses atrás para atender as metas de Kyoto, os negócios estão prosperando para empresas de serviço de energia e consultores que orientam as empresas a reduzirem suas contas de energia.

Mas a estabilidade do consumo de energia do setor industrial do Japão não foi acompanhada pelos setores de transporte e residencial, onde o consumo de energia mais que dobrou desde 1973, mais ou menos acompanhando o crescimento econômico do Japão ao longo do período.

O Japão pode ser uma nação de transporte coletivo, mas atualmente há um carro para quase cada lar japonês. Desde 1970, o número de ônibus no Japão aumentou 23%, o número de caminhões dobrou, e o número de passageiros de carro aumentou mais de seis vezes, para 56 milhões.

Com o uso pessoal sendo responsável pela maior parcela da conta de abril de US$ 6,4 bilhões em petróleo importado, Tóquio está tentando encorajar uma maior eficiência ao elevar os impostos sobre combustível, aumentando o preço da gasolina nas bombas para US$ 4,70 o galão (US$ 1,24 o litro), o mais alto em uma década.

Durante os anos 90, o consumo médio de combustível por milha no Japão caiu 13%. Mas de lá para cá, com mais japoneses dirigindo carros maiores, a evolução da eficiência de combustível estagnou.

O Japão encontra esperança na história de seus refrigeradores, que dobraram de tamanho desde 1981 enquanto seu consumo de energia por litro caiu 80%.

Na esperança de realizar a mesma mágica de engenharia nos carros, o Japão estendeu seus incentivos fiscais aos minicarros para os carros híbridos --veículos eficientes em combustível que usam uma combinação de motor a gasolina e motor elétrico.

As vendas dos híbridos, apesar de ainda relativamente baixas no Japão, estão crescendo rapidamente. E neste ambiente, a Toyota e a Honda se tornaram as líderes mundiais em tecnologia híbrida.

"Nós estamos entrando na era dos automóveis híbridos", disse recentemente Hiroyuki Watanabe, o diretor administrativo sênior da Toyota para questões ambientais, aos jornalistas na Feira Mundial 2005, em Nagoya. "Eu quero que todos os carros tenham um motor híbrido."

O próximo campo de batalha da economia de energia é no lar.

Após US$ 1,3 bilhão em subsídios, cerca de 160 mil lares agora possuem sistemas de energia solar. A energia solar continua sendo duas a três vezes mais cara do que a eletricidade atualmente fornecida aos lares.

Mas os proprietários dizem que com o tempo, a eletricidade "gratuita" compensará o alto custo de instalação. E o governo está disposto a destinar impostos para o esforço, preferindo promover o trabalho rural por meio de instalações de energia solar, para ajudar a reduzir os custos com petróleo, carvão e gás importados.

Apesar do eventual fim aos subsídios residenciais, um plano do governo japonês pede por um aumento de 15 vezes na geração de energia solar ao longo desta década.

As empresas japonesas, notadamente a Sharp, Kyocera, Mitsubishi e Sanyo, produzem cerca da metade dos painéis solares fotovoltaicos do mundo, um mercado de cerca de US$ 10 bilhões por ano. Com grandes projetos comerciais como um gerador de 4.740 painéis entrando em funcionamento na usina de filtragem em Nara, em maio, o Japão produz mais do que o total somado dos próximos maiores produtores, Alemanha e Estados Unidos.

Koizumi é um político conservador que acredita que a economia de petróleo começa em casa. Os visitantes em sua residência oficial aqui passam ao lado de um gerador quadrado de célula de combustível de hidrogênio, um protótipo instalado pela Matsushita em abril para alimentar a residência e educar a elite.

"Células de combustível são a chave da porta para uma nova era na qual utilizaremos hidrogênio como fonte de energia", disse Koizumi ao Parlamento japonês em 2002. "Nós pretendemos colocá-las em uso prático em três anos, como fonte de energia tanto para automóveis quanto para lares."

Seu governo estabeleceu metas ainda maiores de redução de consumo de energia para os quatro principais eletrodomésticos: televisores, 17%; computadores pessoais, 30%; aparelhos de ar condicionado, 36%; e refrigeradores, 72%. Os engenheiros têm atacado o problema do consumo de energia dos aparelhos em "standby" (modo espera), um gasto que pode representar de 5% a 10% do consumo de energia do lar.

Ainda assim, apesar da eficiência ser vista como um ato patriótico, muitos consumidores no Japão estão relutantes em descartar eletrodomésticos em funcionamento, feitos com a engenhosidade e atenção aos detalhes dos japoneses que os farão durar por décadas.

"O problema que estamos enfrentando é quanto devemos induzir os consumidores a trocar seus aparelhos por novos mais eficientes em consumo de energia", disse Hajimi Sasaki, presidente da NEC Corp., uma grande fabricante de eletrodomésticos, em uma coletiva de imprensa em abril, rotulada como Propostas Visando Superar o Aquecimento Global.

"Eu dirijo um carro híbrido e no outono passado coloquei filme redutor de calor em algumas de nossas janelas", disse ele. "E pretendo comprar um novo refrigerador." Esforço contra o aquecimento global é visto como cruzada nacional George El Khouri Andolfato

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