UOL Notícias Internacional
 

04/06/2005

Secretário de Defesa ataca política militar chinesa

The New York Times
Thom Shanker*

Em Cingapura
O secretário de Defesa norte-americano, Donald H. Rumsfeld, em uma critica pública incomumente forte à China, disse neste sábado (4/6) que os gastos militares de Pequim ameaçam o delicado equilíbrio de segurança na Ásia e pediu em vez disso por uma ênfase na liberdade política e na abertura dos mercados.

Em um discurso programático na conferência de segurança asiática que está sendo realizada aqui, Rumsfeld argumentou que o investimento da China em mísseis e tecnologia militar atualizada representa um risco não apenas para Taiwan e para os interesses americanos, mas também para países de toda Ásia que vêem a si mesmos como parceiros comerciais da China, e não rivais.

Ele disse que nenhuma "discussão franca sobre a China" poderia deixar de abordar diretamente estas preocupações militares, e criticou a China por não admitir a plena extensão do que descreveu como sendo uma expansão militar preocupante.

"Alguém poderia ficar preocupado que este investimento esteja colocando o delicado equilíbrio militar da região em risco, especialmente mas não apenas em relação a Taiwan", disse ele. "Como nenhuma nação ameaça a China, alguém poderia se perguntar: por que este crescente investimento?"

Os comentários de Rumsfeld surgem no momento em que a posição de Washington em relação a Pequim parecem estar se tornando mais crítica. Os Estados Unidos têm, por exemplo, acusado a China de manipular o valor de sua moeda visando aumentar as exportações e de exercer uma pressão pesada sobre Taiwan.

Um alerta conjunto dos ministros americanos e japoneses da defesa e relações exteriores irritou os líderes chineses, assim como a insistência do governo Bush para que a Europa não reduza as restrições às vendas de armas para a China.

O governo também está cada vez mais decepcionado com a aparente relutância da China em pressionar a Coréia do Norte a retomar as negociações sobre seus programas de armas nucleares, como Rumsfeld pediu novamente à China.

Talvez devido à sua ênfase nos investimentos militares tanto quanto no comércio e democracia, os comentários de Rumsfeld, apesar de comedidos, apresentaram um tom mais crítico do que os proferidos nas últimas semanas por membros do governo, incluindo a secretária de Estado, Condoleezza Rice, que visitou a China em março. Antes da eleição no ano passado, ela e seu antecessor, Colin L. Powell, disseram que a relação era a melhor em anos.

Seus comentários sobre a China também contrastaram aos feitos sobre outra potência da Ásia: a Índia. No vôo para Cingapura, Rumsfeld disse que os laços com a Índia se fortaleceriam enquanto os com Pequim se desgastariam em caso de fracasso de uma maior abertura de sua sociedade.

Rumsfeld forneceu uma prévia das conclusões do relatório anual do Pentágono sobre as forças armadas chinesas, feito para o Congresso, dizendo:

"Os gastos de defesa da China são muito maiores do que as autoridades chinesas admitem publicamente. Estima-se que a China tenha o terceiro maior orçamento militar do mundo e atualmente o maior na Ásia".

Alertas sobre a modernização militar da China já foram emitidos antes, mas os comentários de Rumsfeld foram notáveis porque foram feitos em uma conferência de segurança asiática da qual participam ministros da defesa e especialistas militares de toda Ásia e Pacifico.

"O mundo apreciaria uma China comprometida com soluções pacíficas e cujo povo trabalhador e bem educado contribui para a paz e prosperidade internacional", disse Rumsfeld. Mas isto exige que a China some liberdades políticas domésticas às suas aberturas econômicas, disse ele, o que por sua vez traria claros benefícios para Pequim porque "a China pareceria mais amistosa e uma parceira bem-vinda".

"China precisa tomar decisões fundamentais sobre suas metas e seu futuro", disse ele. "Eventualmente a China precisará adotar alguma forma de governo representativo, aberto, caso pretenda atingir plenamente os benefícios que seu povo aspira."

Isto segue o amplo tema do governo Bush de promoção da democracia em todo o mundo, uma mensagem que o próprio Bush levou à China quando visitou o país em fevereiro de 2002, em um discurso transmitido pela televisão estatal.

Rumsfeld, por sua vez, há muito tempo adotou uma posição dura sobre a China.

Ele ordenou que as relações militares americanas com a China fossem congeladas logo após ele ter se tornado secretário de Defesa em 2001, quando um caça chinês que seguia um aeronave de vigilância da Marinha americana, em espaço aéreo internacional, colidiu com o avião, o forçando a pousar em território chinês. A tripulação ficou detida por 11 dias.

Mas as paradas em portos pela Marinha americana têm sido lentamente retomadas nos últimos meses e Rumsfeld agora espera fazer uma visita oficial à China antes do final do ano.

Nas últimas semanas, funcionários americanos compilaram relatórios detalhando como a China analisou cuidadosamente os pontos fortes e fracos das forças armadas americanas, visando concentrar seus gastos crescentes em sistemas de armas que possam explorar as supostas fraquezas americanas em caso dos Estados Unidos responderem a um combate em Taiwan.

Estes funcionários de inteligência e oficiais militares disseram que a China comprou ou construiu navios de assalto anfíbios, caças e mísseis de curto alcance suficientes para representar uma ameaça imediata a Taiwan e qualquer força americana que possa ir em ajuda a Taiwan.

Uma cópia avançada do discurso de Rumsfeld foi disponibilizada pelos funcionários do Pentágono para coincidir com o início de seus comentários aqui, na manhã de sábado.

Ao ser perguntado sobre o discurso antes de Rumsfeld fazê-lo, Scott McClellan, o secretário de imprensa do presidente Bush, se recusou a discutir qualquer mudança no tom que o governo está adotando para a China. Se referindo a Rumsfeld, McClellan acrescentou: "Ele fala pelo governo como secretário de Defesa. Eu não vi seus comentários".

Como avaliar o desenvolvimento militar chinês tem sido fonte de algum debate dentro do governo. O discurso de Rumsfeld aqui, para um fórum realizado pelo Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, circulou entre várias autoridades do governo, incluindo Rice, antes de ser proferido, disse um funcionário do Pentágono.

O relatório do Pentágono para o Congresso sobre a China está dois meses atrasado, e um funcionário do governo disse que esboços do documento foram redigidos, circularam e foram reescritos enquanto as autoridades buscavam obter o equilíbrio certo entre alertas a Pequim e elogios por sua ajuda em relação à Coréia do Norte e sua abertura para investimentos.

Em um claro indício da natureza complicada do relacionamento, Rumsfeld destacou o importante papel que a China exerce, juntamente com os Estados Unidos e três outros países, na negociação envolvendo seis partes que visa encerrar o programa nuclear da Coréia do Norte. Tais conversações estão estagnadas há um ano.

"Um país que pode contribuir notavelmente em persuadir a Coréia do Norte a voltar às negociações é a China", disse Rumsfeld.

Ele também fez críticas duras à Coréia do Norte, que ele rotulou como um regime stalinista empobrecido, mas não fez nenhum novo pronunciamento político. Antes de sua chegada aqui, Rumsfeld notou que a política do governo Bush em relação à Coréia do Norte está sendo revista.

"As ambições nucleares de Pyongyang ameaçam a segurança e a estabilidade da região, assim como do mundo", disse ele. "O presidente Bush e outros quatro líderes têm pedido ao regime para que volte às negociações. Os Estados Unidos também pedem que o regime adote a abertura e a liberdade que ajudaram tantos de seus vizinhos a prosperar."

Rumsfeld descreveu as forças armadas americanas na região como prontas para enfrentar o terrorismo e a proliferação de armas biológicas, químicas e nucleares, mas ele também acentuou a ajuda de emergência prestada pelos serviços armados americanos após o maremoto de dezembro, que matou mais de 170 mil pessoas por todo o Sudeste Asiático.

*Colaborou David E. Sanger com reportagem em Washington. Rumsfeld pede liberdade política e critica o país em viagem à Ásia George El Khouri Andolfato

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