UOL Notícias Internacional
 

05/06/2005

Lula fica na defensiva devido aos escândalos que atingem seu governo

The New York Times
Larry Rohter
no Rio de Janeiro
Um escândalo crescente de corrupção colocou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na defensiva e reduziu o apoio popular ao seu governo no momento em que se aquecem as manobras políticas que antecipam a eleição presidencial do ano que vem.

Com a articulação no Congresso Nacional de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI), que deverá se arrastar por meses, os trabalhos legislativos normais estão quase parados. Essa paralisia ameaça a agenda de Lula; uma agenda que inclui alterações das legislações fiscais e trabalhistas, desejadas por grupos empresariais, e leis para investimentos sociais, para beneficiar os pobres. Mas com a CPI em jogo, os assessores de Lula têm procurado à moda antiga obter o apoio dos parlamentares que não possuem uma posição definida quanto ao problema, oferecendo-lhes generosas porções de dinheiro público.

O escândalo teve início no mês passado, quando a revista semanal "Veja" publicou uma matéria de capa revelando aquilo que descreveu como um esquema de propina na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Em uma fita de vídeo que foi exibida repetidamente na televisão, é possível ver um alto funcionário dos Correios pedindo propinas a um potencial fornecedor de materiais em nome de um dos mais importantes aliados políticos de Lula. Ele também alega que outras autoridades nomeadas politicamente para agências estatais estão envolvidas em esquemas similares para beneficiar os partidos aliados a Lula.

O sistema político brasileiro está estruturado de uma forma que faz com que seja praticamente impossível que um único partido obtenha maioria no Congresso. Para ter legislações aprovadas, o Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula, assim como os seus predecessores, tem sido obrigado a formar coalizões com vários partidos menores cujas ideologias são flexíveis e cujos maiores interesses são o clientelismo e outras formas de colher benefícios.

Uma dessas legendas é o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), cuja representação no Congresso quase que dobrou desde que Lula, um ex-líder trabalhista, assumiu a presidência em janeiro de 2003. O principal líder do partido é Roberto Jefferson, a quem a mídia e os líderes oposicionistas acusam de ser o principal organizador e beneficiário do esquema de corrupção.

Jefferson nega ter cometido qualquer transgressão. Ele também foi defendido por Lula, que, segundo a imprensa brasileira, disse: "Digam ao Roberto Jefferson que eu me solidarizo com ele. Parceria é parceria".

As pesquisas divulgadas na semana passada indicam que o escândalo está afetando tanto a imagem do governo quanto a popularidade de Lula, que caiu nove pontos percentuais desde fevereiro. Menos de 40% dos entrevistados pela pesquisa expressaram satisfação com o desempenho do governo, e a corrupção foi identificada, à frente do crime e da violência, como sendo o mais "vergonhoso" problema social do país.

Com o governo dando sinais de vulnerabilidade, a oposição, que parecia conformada com a eleição de Lula para um segundo mandato no ano que vem, se fortaleceu e está exibindo uma nova agressividade.

"Esse governo está parecendo um peru bêbado em véspera de Natal", disse no mês passado o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do oposicionista Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).

Até mesmo algumas das pessoas que defendem o presidente de forma mais intensa começaram a falar de um governo em estado de desordem e de uma situação que está fugindo ao controle. "Há um clima de deterioração moral, de falta de esperança, de indignação, de cada um por si, tudo isso ao mesmo tempo", escreveu no mês passado em um site brasileiro Ricardo Kotscho, que foi secretário de Imprensa de Lula durante os dois primeiros anos de governo.

A corrupção não é um problema novo no Brasil. O presidente Fernando Collor de Mello renunciou em meio a procedimentos para o seu impeachment em 1992, após ter sido revelado que ele operava um caixa dois secreto e multimilionário. Mas Lula e o seu partido são especialmente vulneráveis quanto a essa questão porque sempre se apresentaram como uma ilha de honestidade em "um mar de lama".

Desde que assumiu o poder, Lula tem sido atormentado por um caso de corrupção atrás do outro, começando com um assessor que foi filmado quando pedia contribuições para a campanha do governo. Em um outro caso, o Supremo Tribunal Federal aprovou, no mês passado, uma investigação das atividades do ministro da Previdência Social do governo Lula. As autoridades do Judiciário dizem que ele forneceu garantias espúrias para um empréstimo feito em um banco do governo.

A ira popular também foi estimulada por uma operação policial no mês passado em um dos Estados mais pobres do país, que resultou na prisão de 29 empresários e políticos, entre eles oito prefeitos pertencentes a partidos aliados a Lula. Os indivíduos foram acusados de corrupção vinculada a verbas federais. Essas verbas deveriam ser destinadas a programas de merenda escolar e de alfabetização, mas, em vez disso, teriam ido parar nos bolsos desses indivíduos.

Tendo perdido a batalha para impedir uma CPI do escândalo, os assessores de Lula estão agora lutando para limitar a amplitude da investigação. Mas os partidos de oposição, percebendo uma oportunidade para reduzir ainda mais a popularidade do governo, estão pressionando para que haja investigações de outras agências governamentais nas mãos de partidos aliados, incluindo a agência governamental de resseguros.

Durante os 20 anos em que o PT esteve na oposição, ele apoiou numerosas CPIs. Mas o partido reagiu a esta CPI, acusando os seus oponentes de tentarem fomentar um golpe.

"As elites querem derrubar o governo Lula, o único governo dos trabalhadores eleito na América", disse o senador Aloísio Mercadante, líder da delegação do PT no Senado. "Foi isso que eles fizeram no Chile, e vejam qual foi o resultado".

Mas tal argumento não pareceu ter surtido efeito junto aos cidadãos brasileiros comuns. Após a exibição na TV de uma outra fita de vídeo incriminadora, mostrando legisladores no remoto Estado amazônico de Rondônia tentando obter dinheiro do governador, que foi ameaçado de sofrer um impeachment, centenas de pessoas invadiram o prédio da Assembléia Legislativa para protestar contra a corrupção. Danilo Fonseca

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