UOL Notícias Internacional
 

06/06/2005

Fatos da vida, apenas para crianças

The New York Times
Por Ginia Bellafante
Quando o solstício anunciar a chegada do verão, os lares americanos poderão testemunhar o dramático aumento da população de crianças de 10 anos de idade que se encontram repentinamente versadas em endocrinologia.

Há décadas, durante o final de maio e junho, as crianças da quinta série dos EUA são levadas a salas de aula e auditórios para assistirem o filme que não vem acompanhado de um jogo do Xbox -um vídeo que tenta explicar porque Sam, de 12 anos, fala com uma voz de Donald Sutherland e porque sua amiga Emma repentinamente se vê de mau humor por razões que não têm nada a ver com o estado civil de Kevin Federline.

Durante os 50 ou mais anos que filmes de educação sexual tentaram decodificar o mistério da adolescência, seu conteúdo continua relativamente igual. Nas versões atuais, raramente admite-se a aparente sofisticação dos jovens de hoje. Apesar de as meninas de 12 anos freqüentemente se vestirem como se estivessem na faculdade, os filmes se confinam aos assuntos do crescimento e da menstruação, e não ultrapassam seu propósito declarado - educação sexual como determinada pelos marqueteiros de American Girl.

Segundo os educadores, não houve mudanças na mensagem, pois a ignorância das crianças sobre o corpo humano não diminuiu com o tempo, apesar de viverem em uma cultura onde abundam referências explícitas ao sexo. Os pais, por sua vez, ainda relutam em iniciar as conversas necessárias.

Por esta razão, a maior parte dos filmes segue um padrão narrativo no qual a criança é apresentada às alegrias e predicamentos da maturidade por uma enfermeira ou professor antes de tratarem do assunto em casa com os pais. Estilisticamente, os filmes fizeram seu melhor para acomodar as mudanças da moda - as meninas perguntando sobre menstruação não usam mais maria-chiquinha - apesar de ninguém parecer ter tido sucesso em criar um retrato graficamente inovador da anatomia feminina que sugira uma idade pós-Judy Chicago.

A educação sexual é obrigatória em 30 Estados, apesar de muitos preferirem ensiná-la independentemente do imperativo legal.

Os filmes de educação sexual começaram a ser desenvolvidos para escolas americanas nos anos 40.

Um dos primeiros a gerar ampla controvérsia foi um filme de 16 milímetros chamado "Human Growth" (Crescimento Humano), produzido pelo ator Eddie Albert, que tinha aberto uma empresa educacional depois da Segunda Guerra Mundial.

Procurando explicar francamente a puberdade e a reprodução para crianças de 11 anos, o filme foi proibido em escolas em várias partes do país, depois de sua estréia na Escola Theodore Roosevelt em Eugene, Oregon, na primavera de 1948, apesar de continuar em alta demanda anos depois. Defendendo a missão do filme em um artigo em março de 1949 no jornal The New York Times, um educador de saúde do condado de Westchester, N.Y., proclamou: "As crianças não crescem cobertas por celofane", acrescentando que o material era preferido ao tipo de informação distribuído por "filósofos das calçadas".

Nos anos 50, o gênero "fatos da vida" bifurcou-se em uma linha para meninos e uma para meninas. Foram criados dois filmes, populares até hoje, "Molly Grows Up" (Molly cresce) e "As Boys Grow" (enquanto os meninos crescem), para meninas e meninos respectivamente que lidavam com aspectos das mudanças da puberdade específicos de cada gênero de uma forma que refletia sem vergonha os sentimentos pré-feminismo.

Lançado em 1953, o primeiro filme mostrava um professor de ginástica falando diretamente para a câmera sobre uma menina, Molly, como se fosse uma criatura alienígena seqüestrada para estudos pela Nasa. Então, o filme apresentava Molly discutindo seu crescimento com sua mãe, que dava várias contra-indicações para a menstruação, inclusive jogar basquete, vôlei e dança de salão.

Alternativamente, "As Boys Grow", é ambientando em um campo de futebol. No filme, o técnico, que faz narrações como "essa coisa de emissões noturnas é nova para Bill", informa ao grupo de meninos que a masturbação é uma prática perfeitamente normal.

"Tradicionalmente", disse Rick Prelinger, arquivista que colecionou seis filmes de educação sexual durante os anos, "os filmes de meninos falam de prazer e os das meninas falam da puberdade como o conjunto de condições a serem enfrentadas".

Da perspectiva de educadores liberais, os dias de glória dos filmes de educação sexual foram nos anos 70 e início dos anos 80, quando a política cultural era pouco restritiva.

Um filme do final dos anos 70, "Accent on You" (acento em você), não contava com adultos. Duas crianças sentadas em poltronas enormes explicavam a mecânica reprodutiva. Em um dos diálogos, a menina pergunta ao seu parceiro como era chamado o tecido que cobre o útero. "Chama-se endométrio", responde ele. Um centauro repetia as respostas abaixo das crianças, cujos pés não chegavam ao chão.

Outro filme, "Am I Normal?" (serei normal?), feito em 1979, brinca com a inaptidão parental em torno das perguntas sobre a vida íntima e foi aclamado por profissionais da saúde. Nele, um pai responde às perguntas de seu filho com respostas enroladas do tipo "as meninas são como luvas de beisebol". Por fim, o menino recebe o conhecimento de um guarda do zoológico.

Antes era aceitável retratar um menino aprendendo sobre as coisas da vida de alguém cercado por animais enjaulados. No entanto, com o advento da Aids, cresceu a gravidade no campo da educação sexual. "Com a Aids, veio a educação sobre a Aids. Assim a educação sexual foi forçada a se tornar algo muito mais sério", disse Debra Hauser, vice-presidente do grupo de educação sexual Advogados da Juventude.

Em sua visão, os filmes não necessariamente se beneficiaram com a mudança. "Em termos educacionais, você pode realizar muito mais com o humor", disse ela. "As crianças vão rir de qualquer forma, então é bom quando podem rir com a piada em vez de rirem de seu embaraço."

O resultado é uma série de filmes sérios, nos quais o ridículo é sem intenção. O filme de 1988, "I Got It" (Entendi), apresenta uma mãe desenhando trompas de falópio com panquecas, indicando que a biologia da mulher a leva para o fogão.

Esse filme foi produzido pela Procter & Gamble, patrocinadora do atualmente popular "Always Changing: About You" (Sempre mudando: sobre você), feito em versões para meninos, meninas ou mista. Em todas, ressalta-se a importância dos produtos de higiene pessoal pelos quais a P&G é conhecida. O programa "Always Changing", do qual o filme é apenas uma parte, é usado em quase 85% das escolas do país, de acordo com um porta-voz da empresa.

O programa tira seu nome da linha Always de absorventes íntimos. Na edição de 1995, uma menina órfã de mãe confessa a sua tia que se sente só em torno do assunto de sua primeira menstruação. Sua ansiedade é aliviada quando a tia Shelly abre uma caixa de absorventes Always Ultra Thin. "Eles vêm com essas abas ótimas!" declara a tia Shelly.

O filme parece admitir o desconforto em torno da educação sexual e coloca os jovens em posição separada: é um filme de educação sexual sobre crianças vendo um filme de educação sexual. A versão atualmente apresentada nas escolas mostra as mudanças corporais que acompanham a puberdade por uma série de conversas artificialmente naturais entre meninas e suas mães, e meninos com irmãos e amigos mais velhos.

Respondendo a recentes demandas de que o filme lide com questões de auto-imagem, a versão atual dá um tratamento apressado ao peso. Uma menina vagamente gordinha, fica ansiosa quando discute um passeio da escola porque se considera gorda, diferentemente de sua amiga atlética Megan.

Mais explicitamente, na versão masculina do filme, um menino chamado Eric visita seu jovem tio Pat e expõe seus temores com o lento desenvolvimento físico. Pat diz a ele que é alto suficiente e que não precisa se preocupar. Isso leva Eric a responder: "Não estou falando desse tipo de crescimento. Estou falando sobre outras coisas sendo pequenas demais". À menina dizem que está ótima, mas deve se lembrar de se exercitar e comer frutas. Eric é informado que sua masculinidade não é determinada pelo físico.

Os educadores parecem concordar que mesmo parecendo redutivos aos olhos adultos, os filmes desempenham uma função necessária. Íris Prager, gerente de educação norte-americana do Tampax, disse que as meninas de 13 anos ainda têm muitas dúvidas. Prager responde a perguntas de meninas sobre a puberdade em um site da Web, www.beinggirl.com. "É interessante como as perguntas em relação a questões comportamentais são sofisticadas, mas as perguntas sobre o corpo são completamente ingênuas", disse ela. Uma garota recentemente escreveu para perguntar: "Como você sabe se seus seios estão crescendo?"

Informações sobre sexualidade "raramente vêm dos pais. Há muitos dados sobre isso. Os pais não se sentem à vontade. É impressionante a extensão com que a comunicação entre pais e filhos nesse aspecto ainda é falha", observou Stanley Snegroff, diretor do programa de pós-graduação em estudos da saúde na Universidade Adelphi.

Snegroff dá palestras de educação sexual para crianças de quinta e sexta séries e seus pais em Long Island. "As crianças não estão interessadas em 'coisas sujas', estão interessadas em biologia", disse ele. "Elas perguntam: 'Como se formam gêmeos?'" Infelizmente para esse tipo de alunos, a palestra sobre fertilização in vitro provavelmente não será apresentada a eles antes da faculdade. Durante os 50 ou mais anos que filmes de educação sexual tentam decodificar o mistério da adolescência; ignorância das crianças sobre o corpo não diminuiu com o tempo Deborah Weinberg

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