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08/06/2005

Busca pela fama substitui a obsessão pela ascensão social na cultura norte-americana

The New York Times
Charles McGrath

Em Nova York
Atualmente na televisão e no cinema, e até mesmo nas páginas dos romances, as pessoas tendem a viver em uma Terra do Nunca Americana homogeneizada, sem classes.

Este local é uma atualização, mas não drástica, do antigo bairro onde Beaver, Ozzie e Harriet, e Donna Reed costumavam viver; é aquele bairro yuppificado onde os amigos de "Friends" e a turma de "Seinfeld" tinham seus apartamentos, ou na versão atualmente na moda, parte de um mesmo subúrbio como "One Tree Hill" e Wisteria Lane [de "Desperate Housewives"] --aqueles subúrbios retocados onde andam todos as pessoas jovens legais e onde a hierarquia de sexo e aparência substituiu a antiga de emprego e dinheiro.

Este é um tipo de progresso, mas também uma repressão, já que significa que a cultura popular teve sucesso considerável em enterrar algo que costumava ser escancarado. No passado, quando estávamos mais consumidos pela classe social, nós também éramos mais honestos sobre ela.

Há um segredo não-americano no coração da cultura americana: por muito tempo, ela se preocupava com classes. Tal preocupação diminuiu um pouco --ou foi sublimada-- nos últimos anos à medida que endossamos uma versão de massa, de múltiplas utilidades, do sonho americano, mas ela não desapareceu totalmente.

O assunto parece um pouco com um parente irresponsável; é às vezes um lembrete vergonhoso, às vezes abertamente reconhecido, mas sempre presente, mesmo, ou especialmente, quando nunca é mencionado.

Isto era particularmente verdadeiro nos anos anteriores à Segunda Guerra Mundial, quando você não podia ir ao cinema ou muito longe em um romance sem ser lembrado de que nossa sociedade era uma em que alguns estavam se saindo melhor do que outros, e onde a divisão de classes --especialmente a divisão separando a média da alta-- era um fato inescapável da vida.

O desejo de eliminar esta diferença é evocado de forma mais persistente e romântica em Fitzgerald, é claro, em personagens como o Jay Gatz de Lugar Nenhum, olhando para o outro lado de Long Island Sound para aquela distante luz verde, e para todos aqueles homens jovens sonhadores fazendo fila no clube de campo, esperando serem notados pelas garotas ricas [cenário do romance "O Grande Gatsby", clássico norte-americano].

Mas também há uma visão mais sombria, uma que aparece em "Uma Tragédia Americana" (1925) de Dreiser, por exemplo, onde a inveja de classe --o desejo de viver como seu tio magnata-- faz Clyde Griffiths afogar sua namorada incuravelmente proletária, e onde a impossibilidade de transcender sua sorte o leva inevitavelmente à cadeira elétrica.

(Na cidade de Lycurgus, no interior de Nova York e onde a história se passa, Dreiser nos lembra que a "linha de demarcação e estratificação entre ricos e pobres era profunda como se marcada por faca ou dividida por um muro elevado".)

Alguns romances lidam com a ansiedade de classe para evocar não o sonho de progresso, mas o grande pesadelo americano: o temor de acordar um dia e se encontrar no fundo do poço.

Este temor foi expressado de forma séria e moralizadora em livros antigos como o romance de 1853 de P.H. Skinner, "The Little Ragged Ten Thousand, or, Scenes of Actual Life Among the Lowly in New York" (os dez mil esfarrapados, ou, cenas da vida real entres os humildes de Nova York), que é basicamente resumido por seu título.

Mas na virada do século, em obras como "Maggie: A Girl of the Streets" (Maggie: uma garota das ruas) de Stephen Crane, e "McTeague", de Frank Norris --sobre um dentista de San Francisco que, desmascarado como uma fraude, afunda em uma vida de crime e degradação-- o tratamento se tornou implacável e inflexível.

Estes livros visavam francamente chocar seus leitores de classe média --para apavorá-los-- ao mesmo tempo que explorava sua simpatia. Eles sugeriam que a pior coisa que podia acontecer a um americano era cair de seu degrau na escada social, como acontece ao pobre Hurstwood em "Sister Carrie" de Dreiser.

Em sua busca estupeficante por Carrie (que, enquanto isso, faz uso de seu charme e beleza para ascender de sua pensão em Chicago para as luzes brilhantes da Broadway), ele perde tudo e despenca da prosperidade proveniente de seu restaurante para um condutor de bonde furador de greve.

Mas os pobres estão notadamente ausentes no grande desabrochar artístico do romance americano do final do século 19 e início do século 20, em obras de escritores como Henry James, William Dean Howells e Edith Wharton, que estão quase que exclusivamente preocupados com os ricos e com a classe média aspirante: seus casamentos, suas casas, seu dinheiro e suas coisas.

Não por acaso, estes romances coincidiram com a Era Dourada americana, a era das fortunas do dia para a noite e gastos notáveis que ocorreram logo após a Guerra Civil.

Até certo ponto James, Wharton e outros estavam apenas escrevendo sobre o mundo ao seu redor, apesar de às vezes haver em James um indício de esnobismo estético, um senso de que uma escrita refinada exigia um assunto refinado.

Em "Os Embaixadores", por exemplo, Henry James explica que os Newsomes fizeram fortuna em manufatura, mas não se rebaixa a ponto de nos dizer exatamente o que produziam. Em Howells e Wharton, por outro lado, há freqüentemente um toque de sátira, e às vezes um indício de tremor sísmico.

Os personagens mais vívidos de Wharton não são os aristocratas, os filhos e filhas das grandes famílias de Nova York, que são todos um pouco destituídos de espírito e sexualmente, mas pessoas como Lily Bart, cujo estilo de vida supera seu orçamento e que termina em queda livre econômica.

E então há os alpinistas sociais e os novos ricos, pessoas como Undine Spragg de "The Custom of the Country", que chega a Nova York vinda da provinciana Apex City, Kansas, determinada a ascender na sociedade à moda antiga --casando-se, o que faz não apenas uma, mas três vezes, se você contar aquele que devia ser um segredo.

Uma das mensagens do romance é que, nos Estados Unidos, o novo dinheiro adquire muito rapidamente, em uma geração ou menos, a pátina de velho; outra é que a estrutura de classe é necessariamente sustentada pelo logro e por dois pesos e duas medidas.

Mas para uma geração de escritores após Wharton tal estrutura --as vidas e costumes dos ricos, dos bem-nascidos e dos alpinistas-- provaram ser infinitamente divertidas. Homens e mulheres jovens arrivistas, e mais velhos tentando ansiosamente se manter no seu degrau, encheram uma estante inteira de ficção americana.

John O'Hara, por exemplo, fez carreira descrevendo as classes alta e média alta de antes da Primeira Guerra Mundial até após a Segunda, e ninguém jamais observou mais astutamente as pequenas dicas que indicavam precisamente onde alguém se encontrava na escada social: os alfinetes de clubes e fraternidades, os sapatos, os colarinhos de camisa.

J.P. Marquand explorou basicamente o mesmo território e, como O'Hara, se tornou tanto um sucesso de crítica quanto popular. De vez em quando um livro pungente sobre a marginalidade --"Estrada do Tabaco", por exemplo-- caía no gosto do público, mas por um tempo surpreendentemente longo a ficção "middle-brow" (cultura média) americana tratava da vida da classe média alta.

Qual era o apelo do interesse pelos ricos?

Vouyerismo, em parte. (Não prejudicava nem um pouco as vendas de O'Hara o fato de ele considerar como parte de sua missão nos informar que as pessoas de classe alta tinham vidas sexuais muito ativas.)

A ficção na época tinha uma espécie de função de documentário; era um dos lugares onde os americanos iam buscar informações sobre como viviam outros americanos.

Com o tempo os romances deixaram de ter tal aspecto de reportagem, e ainda mais após a Segunda Guerra Mundial, quando à medida que a classe média americana inchou em número e importância, o mundo da classe alta perdeu parte de seu glamour e importância.

O tipo antigo de romance de classe --sobre o esforço e tentativa de ascender socialmente aprendendo o código da classe alta-- ainda está sendo escrito.

"Prep", o primeiro romance de Curtis Sittenfeld, sobre uma estudante bolsista ambiciosa que se vê em dificuldades, fumegando de ressentimento de classe, em uma escola que lembra muito Groton, recentemente se tornou um best seller surpresa.

Mas com maior freqüência a classe alta é retratada atualmente como um pouco sitiada e apenas tentando se manter, como os membros da família da Nova Inglaterra em "The Hills at Home", o romance de 2003 de Nancy Clark, todos fracassos de uma forma ou de outra e que se retiram de volta à sua mansão ancestral, ou como os advogados e empresários brancos anglo-saxões de Louis Auchincloss, que pensam em si mesmos como os últimos da espécie.

Em outras partes no cenário da ficção, um número de jovens escritores --especialmente escritores de contos-- ainda estão trabalhando no nosso antes quente romance literário com o mundo dos Wal-Marts e estacionamentos de trailers, tão vividamente evocados nos trabalhos de Raymond Carver, Bobbie Ann Mason e Frederick Barthelme, entre outros.

Mas um número considerável de romances atualmente transcorre em uma espécie de América de classe média para todos os propósitos, em bairros que poderiam ser qualquer lugar, e onde os fardos são mais psíquicos do que econômicos, com as pessoas ocupadas demais cuidando de seus relacionamentos cambaleantes para prestar atenção em seus vizinhos.

É um local onde qualquer um se encaixa, mais ou menos, mas onde, se você olhar atentamente, ninguém se sente em casa. Nosso último grande herói de classe média, alguém que realmente desfrutou de suas férias e de seu clube de campo, foi Rabbit Angstrom de John Updike, e ele teve uma morte prematura.

Atualmente, quando um escritor como Richard Russo, Russell Banks ou Richard Price apresenta uma visão à moda antiga, quase dickensiana, da vida entre os pobres e trabalhadores, é um pouco surpreendente; eles parecem com exploradores que voltaram de alguma terra distante.

Cinema

A leitura de romances é um passatempo da classe média, o que é outro motivo para os romances tão freqüentemente se concentrarem nas classes média e alta.

O entretenimento de massa é outro assunto, e quando Hollywood aborda o tema de classe, como fez nos anos 30, ela fez um ajuste crucial. Durante a Depressão, os estúdios, que eram comandados principalmente por imigrantes judeus, lançaram uma série de fantasias formulaicas sobre a vida entre a classe alta dos gentios.

Estes filmes eram basicamente variações de um único tema: ou um jovem rico se apaixonava por uma garota operária, como acontece em, digamos, "Garota de Sorte", para citar um entre muitos exemplos, ou uma herdeira faz amizade com um jovem que tem que trabalhar para viver (em vários casos ele é um jornalista, que era a idéia de Hollywood de uma profissão realmente desonrosa naquela época).

Joan Crawford se especializou no papel de garota operária, em filmes como "Três Amores" e "Amor de Dançarina", e também fez a herdeira em "Do Amor Ninguém Foge" e "Só Assim Quero Viver".

Mas o grande exemplo deste gênero é "Aconteceu Naquela Noite", com Claudette Colbert e Clark Gable, que escandalizou ao aparecer apenas de camiseta.

"Aconteceu Naquela Noite" respondeu implicitamente a pergunta do que uma mulher de classe alta recebia em troca por escolher alguém de classe mais baixa: ótimo sexo. Em outras versões da história a pessoa de classe alta é apenas degelada e humanizada pela mais pobre, mas na maioria dos casos a troca é vista como justa, com o personagem de classe mais baixa dando tanto quanto ele ou ela dá em troca.

Diferente dos romances de classe, com suas ansiedades e senso de diferenças insuperáveis, estas são histórias de harmonia e inclusão, e acrescentaram um elemento durável na visão de classes americana --a noção de que a riqueza e o privilégio são condições um tanto debilitantes: se eles não tornarem você uma pessoa censurável, eles deixam você rígido e emocionalmente vazio até ser abençoado pela cordialidade e coração da classe baixa.

A fórmula persistiu até filmes como "Love Story" e "Uma Linda Mulher", apesar de parecer em desuso agora que filmes, assim como romances, estão cada vez mais situados em uma América de classe alta onde os brancos anglo-saxões são uma espécie em extinção, deplorável.

Como os sogros em "Entrando Numa Fria Maior Ainda" e "Casamento Grego", eles ainda são incuravelmente rígidos, mas não mais tão ricos.

Televisão

A televisão costumava ser fascinada pela vida operária, em séries como "The Honeymooners", "Tudo em Família", "Sanford and Son" e "Roseanne", mas ultimamente ela também tem voltado sua atenção para outros lugares.

As únicas pessoas que trabalham atualmente na televisão são policiais, médicos e advogados, e eles estão tão ocupados que raramente vão para casa.

O único vestígio da antiga curiosidade sobre como as outras pessoas vivem se encontra na chamada TV realidade, quando Paris Hilton e Nicole Richie visitam caipiras em "The Simple Life", ou quando famílias de classe média e alta trocam mamães em "Wife Swap" e experimentam uma semana de choque cultural.

Mas grande parte da TV realidade explora uma espécie de fantasia, baseada na antiga fórmula dos game-shows: a idéia de que você pode ser tirado da vida comum e nomeada a nova supermodelo, a nova diva, o novo sobrevivente, o novo assistente de Donald Trump.

Você recebe uma infusão instantânea de riqueza e é simultaneamente investido de algo bem mais valioso: a celebridade, que se tornou uma espécie de superclasse nos Estados Unidos, e uma que torna irrelevante todas as antigas categorias.

As celebridades, de fato, herdaram grande parte do glamour e sensualidade que costumavam ser atribuídos à aristocracia. Se Gatsby voltasse hoje, ele voltaria como Donald Trump e não ia querer sair com Daisy, mas com Britney. E se Edith Wharton ainda estivesse escrevendo, como ela não poderia incluir um magnata do hip-hop?

Mas se as margens mudaram, e se a fama, por exemplo, atualmente conta mais do que o berço, o que persiste é o grande tema americano do anseio, de querer algo mais, ou outra coisa além daquela com que nasceu --o desejo não de mudar de classe mas apenas de se tornar bacana.

Segundo os romances de Dickens ou Thackeray, as pessoas que se sentem mais à vontade na Grã-Bretanha são aquelas que sabem seu lugar. Mas este raramente foi o caso neste país, onde as fronteiras de classe parecem ser ilusórias e permeáveis o suficiente para sustentar tanto o medo de queda quanto o sonho de fuga. Das sitcoms da TV à alta literatura, sonho americano sofre mutação George El Khouri Andolfato

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