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08/06/2005

General Motors vai despedir 25 mil funcionários

The New York Times
Danny Hakim
Em Wilmington, Delaware
A General Motors anunciou nesta terça-feira (7/6) que vai cortar mais de 22% de sua força de trabalho operária nos EUA, cerca de 25.000 empregos, até o final de 2008, em uma amplo reconhecimento do seu declínio no mercado americano.

Os cortes deixariam a GM americana com 86.000 operários que trabalham por hora, quase o número que empregava na cidade de Flint, Michigan, nos anos 70. Um número não especificado de plantas industriais seria fechado, no maior corte de vagas anunciado desde 1992.

A GM já tinha eliminado quase 30.000 vagas nos últimos cinco anos. A empresa espera continuar fazendo os cortes por meio de pacotes de compensação e aposentadorias adiantadas, para evitar demissões.

Com a conclusão do plano, a GM ficará com 125.000 funcionários americanos. Em 1979, ano que teve maior número de trabalhadores, tinha 600.000.

"Temos que lidar com algumas questões estruturais, questões antigas e difíceis. Isso será difícil e desconfortável, mas está claro que evitá-las causará risco significativo à viabilidade de longo prazo de nosso negócio", disse Rick Wagoner, diretor executivo da GM. Suas observações foram feitas na 97ª reunião anual da empresa, durante a qual teve que ouvir o descontentamento dos acionistas.

Para fechar as plantas, a GM precisa de aprovação do sindicato United Auto Workers (UAW). A não ser que os dois lados concordem em tomar o raro passo de rediscutir o atual contrato do sindicato, que expira em 2007, as fábricas só poderá ser fechadas no próximo contrato.

Enquanto isso, a GM só poderá fazer uma fração dos cortes planejados na força de trabalho e realizar apenas uma parte das economias anuais de US$ 2,5 bilhões (cerca de R$ 6,25 bilhões) que espera depois de 2008.

A fabricante e o sindicato fizeram declarações ameaçadoras sobre seu relacionamento na terça-feira, sugerindo que sua recente cooperação está se desgastando.

"O UAW não está convencido de que a GM pode resolver seus problemas atuais simplesmente encolhendo de tamanho. É necessária uma concentração na reconstrução da fatia do mercado americano da GM, e a forma de chegar lá é oferecer uma combinação correta de produtos, com veículos de classe e qualidade mundial", disse Richard Shoemaker, vice-presidente do sindicato responsável pelas relações com a GM.

Gigante em crise

O anúncio de terça-feira foi o mais recente capítulo no declínio da GM. No final dos anos 70, a GM controlava quase metade do mercado de veículos americano. Desde então, a entrada de competidores estrangeiros fortes como Toyota, Honda e Hyundai cortaram as vendas da GM para um quarto do mercado americano.

A empresa também perdeu dinheiro em suas operações na Europa por cinco anos consecutivos e seus lucros na Ásia esfriaram junto com o mercado chinês.

Nos últimos três meses, a dívida da GM foi rebaixada para abaixo de nível de investimento pela primeira vez por duas das três maiores agências de crédito e suas ações chegaram a ter a menor cotação em 12 anos. As ações da GM fecharam em US$ 30,73 (cerca de R$ 76), subindo US$ 0,31 (aproximadamente R$ 0,77) no dia.

O destino da empresa não é uma questão menor. Entre outras coisas, é a maior provedora de seguro de saúde do país, dando cobertura a 1,1 milhão de americanos com um custo anual próximo a US$ 6 bilhões (em torno de R$ 15 bilhões). Cerca de 450.000 são aposentados e seus cônjuges. Atualmente, ela emprega nos EUA 111.000 operários e 39.000 trabalhadores assalariados.

Wagoner disse que seu novo plano de redução de custos produziria economias anuais de US$ 2,5 bilhões. Ele disse que a empresa ia usar os recursos que já vem usando para diminuir sua força de trabalho, acelerando a saída e aposentadoria dos funcionários em vez de recorrer à demissão.

Antes de colher as economias, a GM terá que pagar por esses pacotes de demissão voluntária, fechar as plantas e pagar aos novos aposentados benefícios invejáveis de saúde e pensão.

Wagoner também disse que a GM estava explorando opções de reestruturação para sua divisão de financiamento, a General Motors Acceptance Corp. A classificação da GM de junk bond prejudica a habilidade da Gmac, como é conhecida a divisão, de levantar fundos de forma barata.

Analistas financeiros disseram que os cortes de Wagoner não significavam uma aceleração no atual ritmo de reduções de empregos da GM. Segundo eles, talvez haja a necessidade de outros cortes para restaurar a estabilidade financeira da empresa.

Stephen Girsky, analista do Morgan Stanley, chamou o anúncio de "pequeno passo na direção certa". Rob Hinchliffe, analista da UBS Securities, disse em sua nota que era um "plano não agressivo" e provavelmente significaria fechar três ou quatro das 66 plantas de peças e montagem nos EUA.

Wagoner disse que a GM tem trabalhadores e fábricas demais em relação à quantidade de carros e caminhões que vende. As montadoras de carros de passageiros podem ser vulneráveis, já que Wagoner disse que vans e caminhonetes eram as principais prioridades da empresa.

Wagoner não citou novas reduções da força salariada da GM, mas nos últimos cinco anos, a empresa cortou em média 1.000 trabalhadores salariados por ano. Ele também não quis dizer quantas fábricas seriam fechadas. O sindicato concordou em deixar a GM fechar três plantas em suas negociações contratuais de 2003.

"Trabalhamos ativamente com o sindicato nessas questões", disse Wagoner.

Shoemaker, em sua declaração, disse: "Vários fatores importantes entrarão em jogo" para tornar esses cortes realidade, inclusive as negociações do contrato de 2007.

"Faremos todo o possível para proteger os interesses de nossos membros e suas famílias", disse ele.

O sindicato e a GM já vinham tendo o que Wagoner chamou de "discussões intensas" nas últimas semanas sobre o seguro médico, enquanto a GM pressiona os líderes do sindicato a abdicarem de alguns benefícios de saúde dos trabalhadores.

O presidente do sindicato, Ron Gettelfinger, disse que não vai fazer concessões grandes antes da expiração do contrato trabalhista da GM.

Os comentários de Wagoner sobre a questão na quarta-feira sugeriram que ele está disposto a lutar por amplas concessões.

"Ainda não chegamos a um acordo. Para ser franco, não tenho 100% de certeza de que chegaremos", disse ele.

"Nossa abordagem preferida é fazer isso em cooperação com o UAW", disse ele, acrescentando: "Honestamente, na última década, tivemos períodos de conflito e períodos de cooperação com o sindicato.

Ambos podem ter melhorado a competitividade da GM, mas é claro para nós que a melhor alternativa para essa questão difícil será de trabalharmos juntos na base da cooperação."

"De qualquer forma", acrescentou, "está claro que precisamos chegar a uma redução significativa em nossa desvantagem de custos de saúde, e rápido. Estamos comprometidos com isso."

Em outra frente, expirou às 17h de terça-feira uma oferta do bilionário Kirk Kerkorian de comprar milhões de ações da GM. A firma de investimento de Kerkorian, Tracinda, disse que esperava revelar os resultados da oferta na quarta-feira pela manhã. A compra de Kerkorian daria a ele quase 9% das ações da GM.

Na reunião de acionistas, em um salão de bailes do Hotel Dupont no centro de Wilmington, Wagoner se viu várias vezes na defensiva. Uma resolução dos acionistas, para mudar a tabulação dos votos nas eleições do conselho de diretores, recebeu quase 49% dos votos, apesar de ser oposta à posição da administração.

Um vendedor da Buick de Flint, Jim Dollinger, repetidamente descreveu seu próprio plano para reanimar a GM e discursou para Wagoner na reunião.

"Você está tentando tirar a Buick do mercado como fez com o Oldsmobile", disse Dollinger, que se diz um "Buickman".

Lucy Kessler, criadora de cavalos de Libertytown, Maryland, sugeriu sem sucesso a restrição dos pacotes de benefícios dourados pagos aos executivos de saída.

Ela lamentou o que chamou de "triste desempenho" da empresa. "Desde o ano passado, perdemos metade de nosso valor de ações. Metade", disse ela em entrevista.

Tom Townsend, professor de 61 anos da Universidade de West Chester da Pensilvânia, disse a Wagoner que tinha trocado seu Saturn por um carro híbrido elétrico feito pela Honda, porque a GM não tinha oferta similar.

"Gostaria que a GM fosse mais ativa em vez de reativa em termos de desenho e disponibilidade de veículos", disse Townsend, aplaudido. Ele disse que detinha ações da GM desde jovem.

Richard Devine, 74 que trabalha meio período no Departamento de Estado revisando pedidos de Liberdade de Informação, disse que queria vir pela primeira vez ao encontro de acionistas da GM para ouvir o plano de Wagoner.

Agora, ele disse em entrevista, "as pessoas dizem que a GM é só um banco que dá carros". A GM faz mais dinheiro financiando empréstimos para a compra de carros do que fabricando e vendendo carros.

Executivos da GM expuseram suas opiniões. Robert A. Lutz, vice-diretor, fez uma defesa vigorosa do progresso em seus três anos e meio como diretor de desenvolvimento de produtos da GM.

Mas em comentários aos repórteres depois da reunião, Wagoner admitiu alguns erros durante seus cinco anos na direção. Entre outras coisas, falou do novo plano para diminuir o número de modelos oferecidos por marcas como Buick e Pontiac e tornar os mais vendidos em mais especiais.

"Se tivéssemos a chance de refazer os últimos cinco anos", disse Wagoner, "provavelmente teríamos pensado mais em garantir que cada produto fosse distinto e tivesse chances de sucesso". Cortes ocorrem até 2008; anúncio causa alta de ações da montadora Deborah Weinberg

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