UOL Notícias Internacional
 

09/06/2005

Legisladores da Bolívia procuram um novo líder

The New York Times
Juan Forero

Em La Paz, Bolívia
O agravamento de uma crise política de cinco anos na Bolívia chegou a um impasse precário nesta quarta-feira (8/6), com adversários de esquerda e direita tão polarizados que o presidente de saída, Carlos Mesa, alertou seu país a recuar da beira de uma guerra civil.

Noah Friedman-Rudovsky/The New York Times 
Índios da Nação Quechua marcham com sua tradicional bandeira, a wiphala, na tensa capital boliviana, La Paz
Com o colapso do governo de Mesa e o aumento das manifestações indígenas exigindo a antecipação das eleições e mais participação na política econômica, a Bolívia, um país andino de 9 milhões de habitantes, se encontra em um momento perigoso. Cinco anos de instabilidade forçaram a renúncia de dois presidentes.

Em Santa Cruz, a província na baixada leste onde se encontra grande parte do setor de energia do país, camponeses pressionando pela desapropriação de companhias de petróleo privadas ocuparam as instalações pertencentes a Repsol YPF da Espanha e da British Gas, forçando as empresas a suspenderem a produção.

Aqui no oeste dos Andes, índios marcharam aos milhares e bloquearam estradas chaves, mantendo La Paz com pouco combustível e alimento e levando duas companhias aéreas internacionais, American e LanChile, a cancelarem vôos.

Dois dias depois de Mesa ter oferecido sua renúncia para apaziguar os protestos crescentes, os manifestantes prometeram manter a pressão e derrubar o novo governo caso seja comandado pelo próximo na linha sucessória, o presidente do Senado, Hormando Vaca Diez.

O Congresso está preparando a aceitação da renúncia de Mesa na quinta-feira e a indicação de Vaca Diez como sucessor em uma sessão especial em Sucre, a capital do Judiciário, que tem estado praticamente livre de protestos.

Os líderes do poderoso movimento indígena da Bolívia se opõem veementemente a Vaca Diez, um rico proprietário de terras e político de longa data que conta com o apoio das elites empresariais influentes em Santa Cruz, sua província natal.

A classe empresarial conservadora de lá deseja mais autonomia, que lhes seja dado o controle sobre as reservas de gás natural que os índios das terras altas querem que sejam estatizadas.

Mesa, que continua presidente, alertou a nação que Vaca Diez deve se retirar e permitir a antecipação das eleições para impedir derramamento de sangue.

"Vamos evitar a perda de vidas, vamos evitar uma violência que devorará todos nós", disse Mesa, que está no cargo há menos de 20 meses, em um discurso transmitido pela televisão na noite de terça-feira. "Esta é uma exortação para um país que está à beira da guerra civil."

Desde 2000, quando um levante popular forçou uma empresa americana de águas e esgotos a sair de Cochabamba, uma inquieta maioria indígena tem exercido sua força política, protestando contra as multinacionais estrangeiras e reformas de mercado prescritas pelos Estados Unidos e pelo Fundo Monetário Internacional.

Antes de Mesa, um presidente já tinha sido forçado a renunciar, Gonzalo Sánchez de Lozada, que fugiu para o exílio em outubro de 2003.

Muitos bolivianos, especialmente a população indígena, dizem que as reformas de mercado implementadas por políticos como Sánchez de Lozada deixaram seu país mais pobre do que nunca.

Tal impaciência está evidente em toda a América Latina, onde oito presidentes foram derrubados ou forçados a renunciar em levantes populares desde 2000. Candidatos de esquerda chegaram ao poder em dois terços dos países da América do Sul.

"A conclusão é que a América Latina está em rebelião aberta contra as políticas econômicas do consenso de Washington", disse Jim Shultz, diretor executivo do Centro para Democracia, um grupo de análise política em Cochabamba.

"Às vezes isto acontece nas urnas. Às vezes acontece nas ruas, como na Bolívia. Mas é, em essência, a mesma rebelião."

Mas na Bolívia, o movimento contra as reformas de mercado e a tradicional classe governante provocou uma reação da direita, que deseja manter sua influência. "A rejeição da direita se chama Hormando Vaca Diez", disse Gonzalo Chávez, um analista político da Universidade Católica em La Paz.

Os líderes dos protestos prometeram impedir Vaca Diez e o homem que está atrás dele na linha de sucessão presidencial, Mario Cossio Cortez, o presidente da Câmara dos Deputados. Mesa e muitos outros disseram que a solução é os dois homens abdicarem de seu direito e permitirem que o terceiro na linha sucessória, o presidente do Supremo Tribunal, Eduardo Rodriguez, assuma e convoque as eleições.

"Nós não permitiremos que assumam o poder", disse Evo Morales, um deputado e presidente do poderoso partido do Movimento ao Socialismo. Mas Vaca Diez sinalizou aos repórteres que as forças armadas poderão ser usadas para restaurar a ordem. Ele também alertou que os protestos poderão levar a uma repressão por parte da direita.

"O radicalismo da esquerda leva a governos totalitários", ele disse.

Vaca Diez não disse explicitamente se manterá a presidência assim que a renúncia de Mesa for aceita. Mas dois poderosos partidos institucionais que se beneficiariam dos espólios caso ele assuma o poder, o Movimento Revolucionário Nacionalista e seu próprio Movimento da Esquerda Revolucionária, o apóiam.

Muitos bolivianos estão enfurecidos com a possibilidade.

"Se Vaca Diez for presidente, o remédio será pior do que a doença", disse Mario Acarapi, 37 anos, um funcionário de escritório que participou das marchas de quarta-feira em La Paz. "Ele é um homem que não escutará o povo. Ele escutará a velha classe política."

Em uma pesquisa publicada na quarta-feira no "La Prensa", 55% dos entrevistados disseram que apoiariam Rodriguez, enquanto apenas 16% disseram que apoiariam Vaca Diez.

"O país não pode jogar com a possibilidade de se partir em milhares de pedaços", disse Mesa em seu discurso. Falando diretamente a Vaca Diez, Mesa pediu a ele para "abdicar de seu privilégio de sucessão constitucional".

"Está em suas mãos mostrar ao país uma generosidade que fará história", disse Mesa, "que o deixará mais próximo do povo do que continuar insistindo no impossível". Impasse político e protestos deixam país perto de uma guerra civil George El Khouri Andolfato

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