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09/06/2005

Pessoas que não têm desejo sexual lutam para se ajustar a um mundo guiado pelo sexo

The New York Times
Mary Duenwald

Em Nova York
Os pássaros praticam a abstinência sexual, e as abelhas também. Mas não necessariamente todos pássaros e abelhas. As abelhas operárias, que são irmãs da abelha rainha, não praticam sexo. E em certas espécies de pássaros --como, por exemplo, a gralha dos arbustos da Flórida-- alguns indivíduos, conhecidos como auxiliares, não geram, mas apenas ajudam os pais a criar os filhotes.

Randi Lynn Beach/The New York Times 
David Jay, da Rede de Visibilidade para os Assexuais, diz que existe diversão sem sexo
Mas será que a indiferença em relação ao sexo poderia também se estender aos seres humanos?

Um número cada vez maior de pessoas diz que sim e apresenta provas. Elas se descrevem como assexuadas, e dizem ser normais, e não o resultado de uma orientação sexual confusa, de um medo da intimidade ou de um lapso temporário do desejo. Elas gostariam que o mundo compreendesse que são capazes de viver felizes sem o sexo.

"As pessoas acham que precisam converter os outros", diz Cijay Morgan, 42, vendedora de telefones em Edmonton, Alberta [Canadá], que se autodefine como assexuada.

"Elas são capazes de entender que alguém não goste de música country ou de cebola, ou que não se interesse por aprender a assoviar, mas não podem aceitar que alguém não queira praticar sexo. O que elas não entendem é que muitos assexuados não desejam ser 'curados'".

Levando-se em conta a propaganda maciça de drogas para melhorar o desempenho sexual, os esforços no sentido de vender um adesivo de testosterona para aumentar o desejo sexual das mulheres e a abundância de referências sexuais na cultura popular, não é de se surpreender que aqueles que professam não ter impulso sexual sejam mal entendidos, ou pelo menos ignorados.

Somente uma pesquisa científica parece ter sido feita nesta área. E vários especialistas em sexualidade humana, quando são informados de que há uma comunidade crescente de pessoas na Internet que se definem como assexuadas, dizem que não ouviram falar de tal coisa. Mas a maioria desses especialistas não se surpreende com o conceito.

Três quartos dos pacientes que procuram o Centro de Medicina Sexual da Universidade de Boston não sentem qualquer desejo sexual, diz Irwin Goldstein, diretor da instituição, que também é editor do periódico "The Journal of Sexual Medicine". "Chamamos isso de desordem do desejo sexual hipoativo (HSDD, na sigla em inglês)", explica ele.

Porém, a falta de interesse por sexo não é necessariamente uma desordem ou sequer um problema. A não ser, apressa-se a acrescentar Goldstein, que isso cause sofrimento, ao, por exemplo, causar conflitos no casamento ou na relação amorosa.

John Bancroft, o diretor recém-aposentado do Instituto de Pesquisa sobre Sexo, Gênero e Reprodução da Universidade de Indiana, disse: "Creio que seria muito surpreendente se não houvesse indivíduos assexuados. Sob uma perspectiva kinseyana há uma grande variação na sexualidade humana".

Nem todos os médicos concordam que a falta de interesse no sexo possa ser considerada normal. "É algo como se uma pessoa dissesse que não tem apetite", diz Leonard R. Derogatis, psicólogo e diretor do Centro de Saúde e Medicina Sexual da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore.

"O sexo é um impulso natural, tão natural quanto o impulso para comer e beber a fim de garantir a sobrevivência. É meio difícil afirmar que essas pessoas sejam normais".

Pessoas assexuadas muitas vezes dizem ter consciência da falta de interesse em sexo desde a adolescência e que, embora isso possa tê-las perturbado, nunca conheceram nada de diferente.

"Descobri que era assexuada mais ou menos na mesma época em que percebi que era baixa, quando tinha cerca de 15 anos", conta Miss Morgan, de Edmonton, que tem 1,55 m de altura.

"Descobri que era baixinha quando todas foram ficando mais altas que eu, e percebi que não tinha desejo sexual quando todo mundo a minha volta começou a expressar e experimentar tais desejos".

A Internet proporcionou uma plataforma para que as pessoas que se definem como assexuadas anunciem a sua existência coletiva. O anonimato da Web torna mais fácil conversar sobre o assunto, diz Todd Niquette, 36, analista de sistemas em Saint Paul, e membro da Rede de Educação e Visibilidade dos Assexuados, um grupo da Internet.

Com mais de 4.000 participantes registrados, essa é a maior comunidade de assexuados. "O que realmente estamos tentando descobrir é: como posso me sentir menos sozinho nesta história?", diz Niquette.

A sua rede define um assexuado como alguém que "não sente atração sexual". Essa definição é, logicamente, distinta do conceito bem mais antigo de reprodução assexuada, praticada, por exemplo, por amebas, águas-vivas e certos lagartos, assim como por muitas espécies de plantas.

Os assexuados podem sentir desejos sexuais, e até mesmo se masturbar, mas eles não desejam manter relações sexuais com outras pessoas, diz David Jay, 23, que fundou a Rede de Educação e Visibilidade dos Assexuados (Aven, na sigla em inglês) quatro anos atrás, quando estava na faculdade.

Os assexuados sentem com freqüência atração romântica por outras pessoas, diz Jay. Só que tal atração não envolve sexo.

Jay, que trabalha para uma organização sem fins lucrativos em São Francisco, é um homem extrovertido que exibe um sorriso fácil e que tem muitos amigos.

Ele diz que tem interesse por um "envolvimento emocional profundo" e que gostaria de criar filhos (mas frisa que "não necessariamente filhos biológicos"). Mas garante que nunca praticou sexo, e acrescenta que há uma grande chance de que jamais venha a fazê-lo.

Se é comum encontrar pessoas assexuadas, por que elas não foram mencionadas em livros de história ou em outras publicações antes do surgimento da Internet?

Elizabeth Abboth, pesquisadora do Trinity College da Universidade de Toronto, é autora do livro "A History of Celibacy" ("Uma História do Celibato"). Ela especula que isso pode se dever ao fato de tais pessoas geralmente não serem detectadas. Elas costumam não se casar, ou entrar em casamentos sem sexo, ou fazer sexo sem sentirem vontade. Ela observa que, ao contrário da homossexualidade, a assexualidade nunca foi ilegal.

No entanto, a sociedade nem sempre aceitou a assexualidade. Abbot diz que na Idade Média a "não consumação do casamento" era considerada "um insulto ao sacramento do matrimônio" e motivo para o divórcio.

A pesquisadora observa que a assexualidade é diferente do celibato, que implica uma decisão consciente de reprimir um desejo pelo sexo. Aquele que parece ser o único estudo publicado sobre a assexualidade --que foi definida como uma ausência, durante a vida toda, de atração sexual por homens ou mulheres-- revelou que 1,1% dos adultos podem ser assexuados.

O número foi obtido a partir de uma pesquisa com 18 mil britânicos que foram entrevistados em 1994 sobre doenças sexualmente transmissíveis. Os dados foram novamente analisados por Anthony F. Bogaert, psicólogo da Universidade Brock, em Saint Catharines, Ontário, que publicou as suas descobertas em agosto do ano passado no periódico "The Journal of Sex Research".

Bogaert descobriu que 44% das pessoas que não expressam interesse em sexo ou estão casadas ou vivendo com parceiros (ou o fizeram no passado).

Pode-se pensar que ao evitar o sexo e todas as emoções e responsabilidades que o acompanham, sem falar dos riscos à saúde, os assexuados podem ter uma vida comparativamente mais fácil.

"Mas creio que nós trocamos tudo isso por um tipo diferente de problema", diz Jay. "O sexo é peça central da vida de várias formas, e um dos verdadeiros desafios para quem é assexuado é tentar descobrir onde se encaixar".

O problema costuma aparecer durante a adolescência. "Quando eu tinha 16 ou 17 anos, sabia que o sexo era algo que parecia ser tremendamente importante para todo mundo, só que não entendia por quê", diz David Warner, 55, escritor técnico e editor, que mora em um subúrbio da região metropolitana de Washington D.C.

Assim como vários outros assexuados, Kate Goldfield, 21, aluna do Goucher College, em Baltimore, já chegou a pensar que fosse lésbica. "Concluí que era gay porque sabia que não gostava de homens", conta Goldfield. Mas ela diz que depois percebeu que também não se sentia sexualmente atraída por mulheres.

Segundo os assexuados, muita gente lhes diz que passarão a sentir desejo quando encontrarem a pessoa certa ou quando as circunstâncias mudarem, mas que tais previsões simplesmente não se concretizam.

"Por que precisaria tanto da sexualidade na minha vida a ponto de desviar meu tempo e minha energia para descobrir o que despertaria o meu desejo?", questiona Jay.

Os médicos descobriram ser capazes de gerar desejo sexual em mulheres e homens fornecendo-lhes suplementos hormonais. E alguns cientistas suspeitam que os hormônios podem ser o motivo de certos casos de assexualidade. Ou, sugere Bogaert, pode ser que certas estruturas cerebrais se desenvolvam de maneira diferente em pessoas assexuadas.

Derogatis concorda que baixos níveis hormonais geralmente são responsáveis pela baixa libido mas diz que às vezes há mecanismos psicológicos envolvidos. "Muitas dessas pessoas podem ter uma fobia muito poderosa com relação ao sexo", afirma.

Mas uma pesquisa pequena e ainda não divulgada feita junto a 1.146 pessoas --incluindo 41 que se descrevem como assexuadas-- e conduzida por meio de entrevistas online realizadas por Nicole Prause, estudante de pós-graduação em psicologia na Universidade de Indiana, revelou que o motivo pelo qual os assexuados não fazem sexo não é o medo.

"Eles simplesmente não possuem um impulso para a excitação", disse Prause em uma mensagem por e-mail.

Barry W. McCarthy, professor de psicologia da American University e autor do livro "Rekindling Desire" ("Reacendendo o Desejo"), um livro de auto-ajuda para casais, diz que muita gente que experimenta uma inibição do desejo deveria examinar essa inibição porque a causa do fenômeno poderia ser o medo, e não um desejo natural de abdicar do sexo.

"É preciso respeitar as diferenças individuais", afirma. "Mas para a grande maioria das pessoas que apresentam inibição do desejo, a resposta não é a assexualidade".

Os indivíduos muitas vezes passam por períodos de assexualidade. Muitos casais abdicam do sexo após alguns anos, diz Pepper Schwartz, socióloga da Universidade de Washington em Seattle e autora do livro "Everything You Know About Love and Sex is Wrong" ("Tudo o Que Você Sabe Sobre o Amor e o Sexo Está Errado").

"Certas pessoas se sentem aliviadas não só relegando o sexo a um segundo plano, mas também abdicando dele de vez", diz ela.

Jay reconhece que alguns assexuados passaram --ou passarão-- algum tempo como sexuados. "Vemos gente na Aven que passa por relacionamentos nos quais de repente passam a gostar de sexo, e vemos muitas que dizem que costumavam gostar de sexo, mas não gostam mais", afirma. "Mas a maioria da comunidade é bem estável".

Um homem de 32 anos de Dallas, cujo nome é Keith (ele se recusou a fornecer o sobrenome) disse ter tentado lidar com a sua assexualidade se casando. "Achei que o fato de me casar me curaria, e que subitamente me interessaria pelo sexo".

Após seis anos de casamento, ele se divorciou, e atualmente vive com um homem mais jovem em um relacionamento que descreve como amoroso e romântico, mas sem sexo.

Jay diz acreditar que as pessoas assexuadas podem aprender a chegar a um acordo quanto ao relacionamento com indivíduos sexuados.

"No segundo grau e na faculdade, quando percebia que alguém estava dando em cima de mim, caía em uma atitude defensiva e dizia a mim mesmo que a coisa não podia dar certo", conta ele. "Mas depois disso percebi que se alguém se aproximar de mim sexualmente, isso significa que essa pessoa gosta da minha personalidade".

Nos últimos meses muita gente entrou na rede de assexuados da Internet para aprender a entender melhor os parceiros e cônjuges sexuados, diz Jay.

"Existe um desejo real dessas pessoas de descobrir como administrar relacionamentos sem sexualidade", explica ele. "Ainda não temos algo como um livro de auto-ajuda sobre o assunto". Médicos apontam o desequilíbrio hormonal como possível causa Danilo Fonseca

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