UOL Notícias Internacional
 

10/06/2005

FBI poderia ter detido ataque de 11/9, diz relatório

The New York Times
Eric Lichtblau

Em Washington
O FBI perdeu pelo menos cinco chances, nos meses que antecederam 11 de setembro de 2001, de encontrar dois dos seqüestradores enquanto preparavam os ataques e se instalavam em San Diego, disse o inspetor geral do Departamento de Justiça em um relatório divulgado nesta quinta-feira (9/6), após ter sido mantido em sigilo por um ano.

Os investigadores foram impedidos por obstáculos burocráticos, falhas de comunicação e falta de urgência, disse o relatório.

As fortes conclusões espelham as da comissão de 11 de setembro do verão passado e de uma investigação conjunta do Congresso em 2002, mas também fornecem novos detalhes significativos sobre muitos dos problemas burocráticos que atormentavam o FBI antes dos ataques de 11 de setembro.

Elas provavelmente alimentarão o questionamento sobre os esforços da agência para se reformular. A comissão de 11 de setembro teve acesso a uma versão preliminar do estudo do inspetor geral e incorporou partes de suas conclusões em seu relatório final.

No caso dos seqüestradores em San Diego, por exemplo, o relatório revelou que um agente do FBI, cedido para a Agência Central de Inteligência (CIA), queria passar a informação para o FBI sobre os dois homens no início de 2000 --19 meses antes dos ataques--, mas foi impedido por um supervisor da CIA e não persistiu em sua tentativa.

Isso preparou o terreno para uma série de oportunidades perdidas em um episódio que muitas autoridades agora consideram como tendo sido sua melhor chance de ter detectado ou impedido o plano de 11 de setembro.

Muitas passagens na versão pública do relatório foram censuradas para ocultar informação ainda considerada sensível pelo governo, e uma seção inteira de 115 páginas sobre um suspeito não foi liberada.

O relatório fornece novas informações sobre a forma como o FBI lidou indevidamente com o alerta de um de seus agentes em Phoenix, em julho de 2001, sobre o risco de extremistas do Oriente Médio ligados a Osama Bin Laden estarem usando escolas americanas para receber treinamento em aviação.

O desajeitado sistema de computador do FBI, ainda cheio de problemas no momento, não encaminhou automaticamente o memorando do agente para as autoridades do birô que deveriam receber cópias dele, revelou o relatório.

Os agentes que viram o alerta não tiveram tempo para se dedicarem a ele, ou o ignoraram por sentirem que a presença de estudantes de vôo do Oriente Médio já era de conhecimento de todos.

Os agentes, preocupados com o fato da suspeita com base em raça ter se tornado uma questão "quente", decidiram não investigar a suspeita do agente de Phoenix, revelou o relatório.

O relatório chegou perto de recomendar uma ação disciplinar contra funcionários do FBI. "O que encontramos foram deficiências significativas na forma como o FBI lidou com tais questões", disse Glenn A. Fine, o inspetor geral, em uma entrevista.

"Nós não acreditamos que foi uma má conduta por parte de indivíduos mas sim problemas sistemáticos, mas recomendamos que o FBI avalie a atuação dos indivíduos por conta própria."

O FBI disse em uma declaração que tomou medidas significativas desde os ataques de 11 de setembro para tratar dos problemas identificados pelo inspetor geral.

"Reforçando nossas capacidades de inteligência, melhorando nossa tecnologia e trabalhando juntos, nós temos desenvolvido as capacidades que precisamos para sermos bem-sucedidos contra todas as ameaças", disse Cassandra M. Chandler, uma diretora assistente do birô.

Ainda assim, a profundidade dos problemas burocráticos revelada no relatório provavelmente intensificará o debate sobre se o FBI tem feito o bastante desde os ataques para se tornar uma agência capaz de detectar e deter ameaças de terror dentro dos Estados Unidos.

O FBI se opôs aos esforços de alguns de seus críticos no ano passado para criação de uma nova agência de inteligência doméstica, seguindo o molde do MI-5 britânico, já que muitos legisladores disseram ter ficado impressionados com a liderança de Robert S. Mueller III, o diretor do FBI.

Mas nas últimas semanas ressurgiram perguntas sobre o futuro do FBI, motivadas pelos relatórios de grupos externos que não estão certos de seu sucesso em promover tal reforma.

De particular preocupação são as dificuldades do FBI de contratar e treinar analistas de terrorismo e no desenvolvimento de um sistema moderno de software capaz de permitir que os agentes examinem arquivos de casos. O birô jogou fora um sistema de "arquivo virtual de casos" de US$ 170 milhões e anunciou um novo plano nesta semana.

O senador Charles Grassley, republicano de Iowa, que tem sido um crítico freqüente do FBI, disse na quinta-feira: "Nós esperamos que o FBI esteja fazendo as mudanças necessárias, mas a resposta mais simples é, parece que ele tem ainda muito a fazer".

Ele disse ainda que não "estava pronto" para defender uma nova agência de inteligência doméstica para substituir o FBI, mas acrescentou que "quando você recebe relatórios como este, você fica mais próximo de tomar tal decisão".

As conclusões do inspetor geral mostram, segundo disse Grassley em uma entrevista, que "mesmo quando havia olhos e ouvidos antes de 11 de setembro que diziam as coisas que o FBI precisava saber, eles os ignoravam. Eles simplesmente não têm capacidade de ligar os pontos".

Kristen Breitweiser, uma líder de um grupo de sobreviventes de 11 de setembro, cujo marido morreu no World Trade Center, chamou o relatório do inspetor geral de "muito aguardado".

Ela disse ser "totalmente inaceitável que mais de três anos após 11 de setembro, o FBI ainda não tenha um sistema de computador confiável, e ainda estamos lidando com os mesmos problemas de antes. Quanta inépcia nós vamos tolerar?"

O relatório do inspetor geral, totalizando mais de 400 páginas, foi concluído em julho de 2004 em um formato confidencial.

Mas foi mantido em segredo durante o ano passado, em parte por preocupações das autoridades do governo sobre questões de confidencialidade e em parte por objeções dos advogados de defesa de Zacarias Moussaoui e do juiz de seu caso de terrorismo, que disse que a divulgação pública poderia comprometer o processo.

Como resultado, uma seção de 115 páginas que lidava com os erros do FBI na investigação das atividades de Moussaoui no verão de 2001 foi removida do relatório divulgado na quinta-feira, e provavelmente só será divulgada publicamente após ele receber o veredicto.

Enquanto isso, um relatório separado do inspetor geral da CIA sobre a atuação da agência antes de 11 de setembro ainda não foi entregue ao Congresso ou divulgado publicamente.

Acredita-se que ele contenha fortes críticas às autoridades dos escalões mais altos da agência, incluindo George J. Tenet, o ex-chefe de inteligência, e James L. Pavitt, o ex-vice-diretor de operações, e sua conclusão foi atrasada por objeções levantadas por advogados de algumas das autoridades citadas.

O relatório do inspetor geral do Departamento de Justiça, por outro lado, usa alcunhas para identificar funcionários do FBI que tiveram papéis chaves tanto no caso dos seqüestradores de San Diego quanto no memorando de Phoenix. Nenhum indivíduo foi citado nominalmente.

O caso dos seqüestradores de San Diego, Khalid Al Mihdhar e Nawaf Al Hazmi, tem sido fonte de atrito entre o FBI e a CIA desde os ataques de 11 de setembro, e o inspetor geral cita erros e falhas de comunicação em ambas as agências.

Os dois homens eram conhecidos por terem participado de um encontro de agentes da Al Qaeda na Malásia, em 2000, e entraram nos Estados Unidos semanas depois, se fixando em San Diego antes de participarem dos ataques de 11 de setembro como dois dos seqüestradores que lançaram o vôo 77 da American Airlines contra o Pentágono.

O FBI estava ciente da reunião na Malásia mas não foi formalmente informado pela CIA de que Al Mihdhar tinha recebido um visto para entrar nos Estados Unidos, disse o relatório.

Ainda assim, um agente do FBI cedido à CIA sabia sobre o visto e queria compartilhar estas e outras informações sobre as ligações terroristas de Al Mihdhar com as autoridades do FBI em Nova York e Washington, chegando até mesmo a preparar um memorando, disse o relatório.

Mas o relatório disse que um supervisor da CIA impediu o agente de enviar o memorando, dizendo que ele não tinha a autoridade apropriada, e após uma nova advertência, o agente não prosseguiu.

O incidente ressaltou os problemas no uso de agentes do FBI cedidos à CIA, que descobriram que suas funções eram "mal definidas e sem direção", disse o relatório.

Outras oportunidades perdidas ocorreram quando agentes do FBI deixaram de interrogar agressivamente um informante em San Diego que estava alugando um apartamento para os dois homens. Várias outras informações chaves não foram passadas pela CIA ao FBI, revelou o relatório.

O FBI em Nova York continuou não ciente de que a CIA sabia sobre os dois homens quando agentes do birô realizaram uma rápida busca por eles semanas antes dos ataques, disse o relatório.

O escritório de Nova York designou poucos recursos e um agente inexperiente para rastrear os homens, e "pouca urgência foi dada à investigação", disse o relatório.

"O FBI não estava perto de localizar Mihdhar e Hazmi antes de participarem dos ataques de 11 de setembro", ele concluiu.

Mesmo depois do agente do FBI ter percebido que Al Mihdhar estava nos Estados Unidos e poderia ter informação valiosa, o memorando de 28 de agosto de 2001, que o agente enviou para determinar seu paradeiro, foi marcado como "rotina", o nível mais baixo de urgência.

Agentes em Nova York da unidade Bin Laden "reconheceram que havia alguma urgência na investigação de Mihdhar". Mas o escritório "não tratou como se fosse um assunto urgente", designando um agente inexperiente para o caso, revelou o relatório.

"O FBI perdeu várias oportunidades importantes para encontrar Hazmi e Al Mihdhar antes dos ataques de 11 de setembro", concluiu o relatório.

Os resultados foram igualmente deprimentes depois que um agente em Phoenix, Kenneth Williams, escreveu um memorando em julho de 2001 sobre seu temor de que Osama Bin Laden tinha iniciado um "esforço coordenado" para enviar agentes aos Estados Unidos para receber treinamento de aviação.

Seu memorando, baseado na suspeita em torno de um punhado de pessoas que acabaram não tendo nenhuma ligação direta com os seqüestros de 11 de setembro, pedia que o FBI investigasse as escolas de aviação de todo o país em busca de estudantes do Oriente Médio.

O memorando de Phoenix era datado de 10 de julho, mas ele só deu entrada no sistema de computador do FBI em 27 de julho, revelou o inspetor geral.

Ele foi encaminhado de uma seção de contraterrorismo para outra sem que fosse tomada nenhuma ação concreta; um agente notou que seria necessário "um esforço tremendo" para realizar a operação de investigar as escolas de aviação como Williams tinha recomendado, disse o relatório.

O inspetor geral descobriu que apesar do memorando ter sido considerado uma teoria informada, em vez de um alerta específico, ele "exigia uma análise estratégica por parte do FBI, o que ele não recebeu, e distribuição oportuna, o que ele não recebeu".

Os problemas de computador do FBI tiveram participação no episódio, disse o relatório. Os supervisores em Washington que foram inseridos na "linha de atenção" do memorando não foram automaticamente notificados que o receberam, e nenhum supervisor o viu antes de 11 de setembro, concluiu o relatório.

Como resultado, houve pouco ou nenhum envolvimento de quaisquer supervisores na forma como a pista de Williams foi tratada, ficando as decisões chaves a cargo de agentes de baixo escalão, disse ele.

O relatório disse que o processo do FBI de designar agentes para averiguar a suspeita de um agente veterano era "significativamente falha".

O gabinete do inspetor geral disse que não pôde concluir se uma análise mais agressiva teria revelado ou não o plano de 11 de setembro, mas "deveria ter sido tratada de forma diferente". Burocracia, isolamento e lentidão impediram birô de evitar atentado George El Khouri Andolfato

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