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10/06/2005

Por que a classe média dos EUA está sumindo?

The New York Times
Paul Krugman

Em Nova York
NYT Image

Paul Krugman é colunista
"Baby boomers" (a geração pós-Segunda Guerra Mundial) como eu cresceram em uma sociedade relativamente igual. Nos anos 60, os Estados Unidos eram um lugar onde muito poucas pessoas eram extremamente ricas, muitos operários ganhavam salários que os colocavam confortavelmente na classe média, e famílias trabalhadoras podiam esperar um aumento constante do padrão de vida e um grau razoável de segurança econômica.

Mas como reportagens do NYT sobre classes nos Estados Unidos nos recordaram, aquele era um outro país. A sociedade de classe média na qual cresci não existe mais.

As famílias em que todos os adultos trabalham têm visto pouco progresso nos últimos 30 anos. Corrigida pela inflação, a renda de uma família média dobrou entre 1947 e 1973. Mas ela cresceu apenas 22% de 1973 a 2003, e grande parte do ganho foi resultado das esposas terem entrado na força de trabalho remunerada ou de mais horas de trabalho, e não de elevação salarial.

Enquanto isso, a segurança econômica é uma coisa do passado: as flutuações ano a ano nas rendas das famílias são muito maiores do que eram uma geração atrás. Basta um pouco de má sorte no emprego ou na saúde para jogar na pobreza uma família que parecia estar solidamente na classe média.

Mas os ricos têm se saído muito bem. Desde 1973, a renda média do 1% superior de americanos mais ricos dobrou, e a renda do 0,1% superior triplicou.

Por que isto está acontecendo?

Eu terei mais a dizer sobre isto outro dia, mas por ora me permita apenas apontar que a classe média americana não despontou por acidente. Ela foi criada pelo que tem sido chamado de Grande Compressão de rendas que ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial, e foi sustentada por uma geração por normas sociais que favoreciam a igualdade, fortes sindicatos trabalhistas e tributação progressiva. Desde os anos 70, todas estas forças de sustentação têm perdido seu poder.

Desde 1980 em particular, as políticas do governo americano têm consistentemente favorecido o ricos às custas das famílias trabalhadoras -e sob o atual governo, tal favorecimento se tornou extremo e implacável.

Dos cortes de impostos que favorecem os ricos a uma "reforma" da lei de falência que pune os sem sorte [pessoas que contraem dívidas e perdem o emprego, por exemplo], quase toda política doméstica parece visar acelerar nossa marcha de volta à era dos magnatas que enriqueciam sem ética.

Não é um quadro bonito --o motivo de os partidários de direita tentarem a todo custo desacreditar qualquer um que tente explicar ao público o que está acontecendo.

Estes partidários empregam em parte ofuscação: moldando, cortando ou apresentando dados de forma seletiva em uma tentativa de enganar. Por exemplo, é fato claro que os cortes de impostos de Bush favoreceram os ricos, especialmente aqueles cuja renda é proveniente de riqueza herdada.

Mas o Relatório Econômico do Presidente deste ano, em uma demonstração brilhante de como mentir com estatísticas, alega que os cortes "aumentaram a progressividade geral do sistema tributário federal".

Os partidários também fazem uso de táticas de medo, insistindo que qualquer tentativa de limitar a desigualdade minará as iniciativas econômicas e reduzirá todos nós a uma miséria compartilhada.

Tal alegação ignora o fato do sucesso econômico americano pós-Segunda Guerra Mundial. Também ignora a lição que devíamos ter aprendido com os recentes escândalos corporativos: às vezes a perspectiva de grande riqueza para aqueles que têm sucesso fornece um incentivo não para uma alta performance, mas para a fraude.

Acima de tudo, os partidários gostam de inventar nomes. Sugerir que programas sustentáveis como a Previdência Social, que protege os trabalhadores americanos do risco econômico, deve ter prioridade sobre os cortes de impostos para os ricos significa praticar "guerra de classes". Demonstrar preocupação com a crescente desigualdade é praticar "políticas de inveja".

Mas os verdadeiro motivos para preocupação com a explosão da desigualdade desde os anos 70 não têm nada a ver com inveja. O fato é que as famílias trabalhadoras não estão recebendo sua parcela do crescimento da economia, e enfrentam crescente insegurança econômica.

E há um bom motivo para acreditar que uma sociedade na qual a maioria das pessoas pode razoavelmente ser considerada de classe média é uma sociedade melhor --e com maior probabilidade de ser uma democracia funcional-- do que uma em que há grandes extremos de riqueza e pobreza.

Reverter a crescente desigualdade e insegurança econômica não será fácil: a sociedade de classe média que perdemos surgiu apenas após o país ter sido sacudido pela depressão e pela guerra.

Mas nós podemos começar chamando a atenção de políticos que sistematicamente pioram as coisas ao atenderem aqueles que contribuem para suas campanhas. Não dê atenção aos espantalhos, à política da inveja. Vamos tentar fazer algo a respeito da política da ganância. País marcha de volta à era de magnatas que enriqueciam sem ética George El Khouri Andolfato

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