UOL Notícias Internacional
 

11/06/2005

Nervosos com a UE, turcos voltam-se aos EUA

The New York Times
Craig S. Smith

Em Izmit, Turquia
Zeynel Erdem, importante executivo turco, veio a Izmit, cidade industrial de beira-mar, para dar uma palestra para 400 colegas proeminentes.

"Não contem com a União Européia", disse à multidão depois de um jantar à base de frango em um salão de um hotel. "Olhem para os EUA; eles são nossos verdadeiros amigos."

Essa opinião está se espalhando pela Turquia, uma terra de 70 milhões de habitantes que desejou por décadas tornar-se parte da Europa. Com a confusão política da União Européia depois que os franceses e holandeses rejeitaram a constituição e com o crescimento da oposição à inclusão da Turquia na Europa, muitos turcos estão começando a se perguntar se seus sonhos europeus valem à pena. Eles estão repensando, em vez disso, sua relação com os EUA, que sofreu desgaste com o início da guerra do Iraque.

A Turquia reafirmou seu objetivo de se unir à União Européia, mas a mudança no ambiente assinala uma ambivalência crescente em relação à visão exaltada de soberania compartilhada.

Assim como os eleitores franceses e holandeses expressaram consternação com o controle crescente europeu sobre suas vidas e se preocuparam com a diluição de suas nações pela imigração, muitos turcos agora estão questionando se seu país deve ver seu futuro como parte da Europa.

É claro que poucos turcos acreditam no programa americano para reformulação do Oriente Médio. Além disso, as relações com os EUA perderam sua proeminência durante a guerra no Iraque. A Turquia se opôs à iniciativa militar e transferiu seu foco para a Europa.

Mas isso está começando a mudar. A viagem do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan para emendar as relações com Washington nesta semana foi bem vista. Ele até conquistou algum apoio de Washington para terminar com o isolamento político e econômico dos cipriotas turcos.

Em uma entrevista a The New York Times nesta sexta-feira (10/06), Erdogan contrariou a sugestão de que havia uma mudança para longe da Europa. "A UE e os EUA não são mutuamente exclusivos", disse.

Líderes da UE concordaram em dezembro em começar as negociações para a inclusão da Turquia no dia 3 de outubro. O país trabalhou muito para fazer isso acontecer: adotou um novo código penal e concordou em assinar um protocolo estendendo a união alfandegária a todos os novos membros, inclusive à República do Chipre, dominada pelos gregos, que a Turquia não reconhece.

Apesar de tudo isso, a perspectiva da inclusão da Turquia como país membro da UE parece mais malfadada do que nunca. Quando completar o processo de ingresso na UE, a Turquia terá uma população maior do que qualquer outro país membro [excetuando-se a Alemanha] 80 milhões, segundo as estimativas-- e provavelmente será o mais pobre.

Mais preocupante para muitos europeus é que o ingresso da Turquia geraria uma presença muçulmana poderosa e empurraria as fronteiras da Europa para a Síria, Iraque e Irã.

Alguns políticos europeus sugeriram abertamente oferecer à Turquia uma "parceria privilegiada", em vez de uma sociedade integral, algo totalmente rejeitado aqui.

A idéia, primeiro sugerida publicamente há três anos pelo ex-presidente francês Valery Giscard d'Estaing, foi adotada recentemente pelos cristãos democratas alemães, cuja líder, Angela Merkel, deverá competir contra o chanceler Gerhard Schröder em setembro. O partido de Merkel afirmou inequivocamente que se chegar ao poder vai tentar bloquear a entrada da Turquia.

Neste cenário, está a promessa do ano passado do presidente Jacques Chirac, da França, de submeter a associação turca a um referendo nacional. Depois da rejeição do mês passado à constituição, poucos acreditam que tal referendo produziria uma votação favorável à Turquia.

Muitos turcos dizem que estão ficando cheios de atender às várias demandas européias sem nenhuma garantia de que se tornarão parte da Europa no final.

"A Europa está fazendo um jogo perigoso com a Turquia. Está dando maior poder e motivação às pessoas que querem que a situação prevaleça", disse Can Paker, diretor da Fundação Social e Econômica Turca.

Ela também está alimentando o sentimento nacionalista turco, que foi provocado no mês passado quando uma corte européia de direitos humanos determinou que a Turquia devia dar ao separatista curdo Abdullah Ocalan um novo julgamento.

Alguns turcos estão começando a imaginar o dia em que a Turquia não precisará mais da Europa, particularmente com o apoio dos EUA.

O PIB turco deu um salto de quase 10% no ano passado e deve crescer até 6% neste ano. A atual inflação de 10% é a mais baixa em 30 anos. Os investimentos estrangeiros do Ocidente, lentos por causa da corrupção crônica da Turquia, cresceram.

Pekin Baran, magnata de exportação turco, acredita que as negociações com a Europa vão começar em outubro, como planejado, mas que será "um caminho muito, muito difícil".

Sob as regras de negociação estabelecidas em dezembro, os 25 membros terão que concordar com todos os pontos. Isso dará o poder de veto ao Chipre ou qualquer outro país hostil à entrada da Turquia.

"É pena pois estamos convencidos de que a Turquia poderia ter contribuído muito mais para o futuro da Europa do que poderia esperar receber em troca", disse Baran de seu escritório com vista para o reluzente Bosporus, que separa a Europa da Ásia.

Mesmo assim, ele acredita que a Turquia deve continuar lutando pela associação plena, em parte porque o processo de negociação é tão valioso para promover mudanças políticas e econômicas.

Apesar de ainda haver forte apoio ao ingresso na Europa, as pesquisas observaram um declínio no entusiasmo nacional, que passou de 70% há um ano para menos de 63% antes do referendo francês, em maio.

Hansjoerg Kretschmer, representante da UE na Turquia, avisa que se não houver mais compreensão dos dois lados, as atitudes turcas poderão mudar rapidamente.

"O forte apoio baseado na ignorância não é bom, porque pode cair muito rapidamente", disse ele antes da reunião na terça-feira com representantes de organizações não governamentais em Trabzon, no Mar Negro.

"O principal elemento é que a Turquia faz seu dever de casa e as reformas necessárias. Ninguém vai dizer 'não' para uma Turquia que se tornou uma democracia liberal."

Erdogan, em sua entrevista ao Times na sexta-feira, disse que acreditava que o entusiasmo turco pelo ingresso na UE continuaria alto.

"Se você olhar as pesquisas, o apoio à UE pode ter caído um pouco, mas ainda está em torno de 60%", disse ele. "De fato, a situação da França e da Holanda nas últimas semanas podem ter tido um efeito negativo que provocou uma baixa nos números.

No entanto, quando chegar a hora de começar as negociações no outono, acho que esses números de apoio à associação vão começar a subir novamente."

Saban Disli, vice-diretor de relações exteriores do Partido de Justiça e Desenvolvimento, que está no poder, disse que a Europa não deve tentar projetar uma decisão de 10 anos olhando para a Turquia de hoje.

"Quem sabe? Talvez em 10 anos, será a Turquia que fará um referendo para ver se os turcos ainda quer fazer parte da UE", disse ele. Plebiscitos podem indicar rejeição européia ao ingresso da Turquia Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,48
    3,144
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,53
    75.604,34
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host