UOL Notícias Internacional
 

12/06/2005

Julgamento revisita assassinatos raciais cometidos em 1964

The New York Times
Shaila Dewan

Em Philadelphia, Mississippi
É apenas uma bifurcação em uma estrada rural, com nada para marcá-lo a não ser um editor de jornal aposentado chamado Stanley Dearman, parado lá com um leve tremor em seu corpo robusto, dizendo: "Foi aqui que aconteceu. Bem aqui no centro. Os carros pararam em círculo e eles estavam no centro".

Ele estava falando de James Earl Chaney, Andrew Goodman e Michael H. Schwerner, três jovens ativistas de direitos civis que foram assassinados aqui por uma turba de homens da Ku Klux Klan, em 21 de junho de 1964. O desaparecimento deles -eles foram encontrados 44 dias depois, enterrados em um dique de terra- chamou a atenção do país e provou ser um evento chave na história dos direitos civis. Na segunda-feira, um homem originalmente acusado dos assassinatos, Edgar Ray Killen, 80 anos, será julgado pela segunda vez pelas mortes.

Em 1967, o governo federal julgou 18 homens, incluindo Killen, por conspiração para violar os direitos civis das vítimas. Sete foram condenados, e nenhum cumpriu mais que seis anos de pena; no caso de Killen, um júri inteiramente composto por brancos chegou a um impasse. Onze membros do júri queriam condená-lo, mas houve uma exceção -uma mulher que disse que "nunca poderia condenar um pastor". Cinco dos réus originais, nenhum presente no julgamento original, foram intimados a testemunhar no novo julgamento.

Os promotores continuaram intimando novas testemunhas, informou um funcionário do tribunal na sexta-feira, incluindo o irmão de Killen, Oscar Kenneth Killen.

Edgar Ray Killen, um segregacionista confesso, mantém sua inocência.

O julgamento será um dos maiores do que alguns têm chamado de "julgamentos de expiação" do Sul, revisando as atrocidades mais notórias de direitos civis da época. Um após o outro, novos promotores têm retornado a estes crimes antigos, estimulados por investigações da mídia e imprensa, parentes das vítimas, o sucesso de outros promotores e até mesmo lembranças de sua própria juventude.

Em 1994, Byron de la Beckwith foi condenado pelo assassinato de Medgar Evers, um líder da Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor do Mississippi. Beckwith morreu na prisão em 2001. Três anos atrás, Bobby Frank Cherry foi condenado no Alabama pelo atentado a bomba de 1963 contra uma igreja de Birmingham, que resultou na morte de quatro meninas negras. Ele morreu de câncer na prisão no ano passado.

Em Chicago neste mês, promotores federais exumaram o corpo de Emmett Till, um negro de 14 anos que foi raptado e morto no Mississippi em 1955. Dois homens foram absolvidos do assassinato por um júri todo branco, mas posteriormente admitiram sua responsabilidade. Os homens morreram, mas os promotores acreditam que outros estiveram envolvidos e estão buscando evidências de DNA.

As exumações literais e figurativas do passado são resultado do aumento do poder político negro e de brancos mais esclarecidos, disse Susan M. Glisson, diretora do Instituto William Winter para Reconciliação Racial da Universidade do Mississippi. "Isto representa o amadurecimento do Sul", disse ela.

Em Philadelphia, o caso contra Killen será julgado pelo promotor público de Neshoba County, Mark Duncan, e pelo procurador-geral do Estado, Jim Hood, que estão servindo o primeiro mandato em seus cargos.

Segundo testemunhos do julgamento de 1967, Killen não estava presente durante os assassinatos, mas foi quem os planejou. Os três ativistas de direitos civis foram a Neshoba County para inspecionar a Igreja Metodista Unida Monte Sião, uma igreja negra que tinha sido incendiada pela Klan na semana anterior. Eles foram parados por dirigir em alta velocidade por Cecil R. Price, o vice-xerife, e levados para a cadeia em Philadelphia.

Price, segundo os testemunhos, era um membro da Klan e manteve os três detidos por horas até que uma turba pudesse se formar. Testemunhas disseram que Killen, que era um pastor e um líder local da Klan, convocou os membros do grupo e decidiu pelo assassinato e local de enterro.

Por anos, o caso permaneceu fechado. Dearman, que é um ex-editor do "The Neshoba Democrat", disse que a opinião predominante entre os brancos era que era melhor deixar o tempo apagar as lembranças dolorosas daquela época. Mas as histórias se recusaram a ser esquecidas. De pé no local dos assassinatos, Dearman disse, "eu já trouxe literalmente centenas de pessoas aqui ao longo dos últimos 40 anos".

Em 1988, os assassinatos foram encenados no filme "Mississippi em Chamas". Os assassinatos não eram apenas uma mancha na imagem de Neshoba County - eles passaram a ser a imagem de Neshoba County.

As primeiras sugestões de que o caso devia ser revisto ocorreram quando um grupo se reuniu para planejar a observação do 25º aniversário das mortes em 1989, na Igreja Monte Sião, onde o secretário de Estado do Mississippi, Dick Molpus, ofereceu o primeiro pedido de desculpas de uma autoridades estadual às famílias das vítimas.

Mesmo passado tanto tempo, seu comentário foi amplamente visto como tendo prejudicado sua carreira política. Em 1995, durante a candidatura malsucedida de Molpus ao governo, seu adversário, o governador Kirk Fordice, foi aplaudido na Feira de Neshoba County quando disse: "Eu não acho que precisamos dirigir este Estado de acordo com 'Mississippi em Chamas', pedindo desculpas pelo que aconteceu 30 anos atrás".

Mas com o tempo a idéia de reabertura do caso ganhou força, com a ajuda de uma reportagem no "The Clarion-Ledger", um jornal de Jackson, apontando que um dos condenados em 1967, Sam Bowers, tinha se gabado para um arquivista estadual de que o "principal instigador" dos assassinatos em Philadelphia tinha se safado. Posteriormente, Bowers, que eventualmente foi condenado pelo assassinato de Vernon Dahmer, um proeminente ativista de direitos civis, confirmou para as autoridades estaduais que estava se referindo a Killen.

Em 1999, o antecessor de Hood, Mike Moore, reabriu o caso. Mas as evidências, que incluíam 40 mil páginas do FBI, eram intimidadoras e a investigação perdeu fôlego. Em 2001, Price, o ex-vice-xerife, que estaria cooperando com as autoridades na investigação, morreu após uma queda de um apanhador de cerejas.

Enquanto isso, outro grupo foi formado em Neshoba County para observar o 40º aniversário dos assassinatos. A Coalizão de Philadelphia, como foi chamada, incluía o prefeito, o editor do "The Neshoba Democrat", veteranos da Igreja Monte Sião e outros líderes. Mas desta vez eles fizeram mais do que planejar um evento. Eles pediram ao Estado para que tomasse uma atitude.

Na época, apenas uma placa na Igreja Monte Sião lembrava as três vítimas. A coalizão publicou um guia de turismo detalhando todos os locais relacionados aos assassinatos e ao movimento dos direitos civis no condado.

Para alguns moradores, estas medidas eram aguardadas há muito tempo. Deborah Posey, uma mulher branca que já teve parentesco por casamento com um réu do julgamento de 67, se juntou à coalizão após ter lido sobre ela no jornal. "Era o que eu estava esperando e para o que estava rezando há anos", disse Posey. "Para que dissessem: 'Isto ocorreu aqui; nós não vamos esconder mais. Nós vamos lidar com isto'."

Mas outros resistiram, questionando a necessidade de trazer o caso novamente à tona. Hugh Thomasson, um empresário local, sugeriu em uma carta ao "The Neshoba Democrat" que as vítimas eram "encrenqueiros de fora". Ele acrescentou: "A mídia tem lucrado por quatro décadas denegrindo Neshoba County e o Mississippi. Eu pergunto: quando haverá um basta?"

Em janeiro, o procurador-geral do Estado, Hood, reuniu um grande júri e apresentou evidências contra oito dos réus originais ainda vivos, disse Jacob Ray, seu porta-voz. Segundo notícias na imprensa, pelo menos dois deles testemunharam. (Os procedimentos do grande júri são secretos, o que levou alguns observadores a questionarem se as testemunhas fizeram algum acordo com os promotores.) O júri rendeu o indiciamento de apenas um homem, Killen. Logo depois, Killen, um operador de serraria que ainda é pastor, foi atingido pela queda de uma árvore e foi hospitalizado. O julgamento, originalmente marcado para março, foi adiado para 13 de junho.

Jim Prince, um co-presidente da Coalizão de Philadelphia e atual editor do "The Neshoba Democrat", estima que cerca de 70% dos moradores do condado agora apóiam a revisão do caso.

Ainda assim, enquanto a cidade se prepara para a invasão de repórteres, fechamento de ruas e até mesmo, potencialmente, manifestantes supremacistas brancos, há um ar de estoicismo sobre o julgamento que se aproxima.

"Isto devia ter acontecido 40 anos atrás", disse Teresa Pace, proprietária da Stribling Printing, na praça do tribunal. "Se tivessem feito a coisa certa na época, não teriam que lidar com isto agora."

O chefe de polícia David Edwards, que é branco, considera o julgamento uma chance de mostrar que Philadelphia mudou. "A atenção está sobre nós", disse ele, "e nós queremos deixar uma boa impressão".

Apesar de muitos brancos acharem que o julgamento é uma chance de mostrar que Philadelphia mudou, muitos negros, como Elsie Kirksey, uma despachante da polícia que é membro da Igreja Monte Sião, vê de forma ligeiramente diferente. "O julgamento é um começo", disse Kirksey, que é um membro da coalizão. "Não conseguiremos um milagre com o julgamento. Um julgamento não pode mudar Neshoba County -apesar de poder ajudar." George El Khouri Andolfato

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