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13/06/2005

Bob Dylan rejeita os circuitos milionários do rock e continua com o pé na estrada

The New York Times
Bill Wyman
O teatro, 11 quilômetros ao norte de Lansing, Michigan, é grande e tem uma acústica ruim. Parece um grande caixote, e um terço dos lugares está vazio. Os fãs sentam-se, seis de cada lado, em longas mesas perpendiculares ao palco. Algumas dezenas de metros adiante, máquinas caça-níqueis fazem um barulho estridente, luzes piscam, jogam-se cartas. No palco, o cantor de aparência frágil se inclina sobre o teclado e toca uma melodia que a platéia se esforça pacientemente para reconhecer. O cantor, sempre vestido com trajes negros fidalgais, fala pouco ao público, embora abandone o teclado uma ou duas vezes para fazer um solo de gaita no centro do palco.

O lugar é o Soaring Eagle Casino and Resort, e trata-se de um estranho show de rock. Mas é o tipo de show e de lugar que Bob Dylan tem preferido cada vez mais.

É claro que Dylan, 64, também toca nas grandes cidades (em abril ele se apresentou durante cinco noites em Manhattan). Mas ele tem optado mais e mais pelos palcos mais estranhos: feiras estaduais, eventos corporativos, feiras de rua e cassinos (Por exemplo, cassinos indígenas como o Turning Stone, em Verona, Nova York, o Soaring Eagle, e os mais tradicionais, em Las Vegas e em Reno, Nevada). Ele está agora em meio à sua segunda temporada de verão em ginásios de beisebol da segunda divisão, como o Osceola County Stadium, em Kissimmee, Flórida, com Willie Nelson.

Dylan pode estar na fase final da sua longa e iconoclástica trajetória de astro, e por isso escolheu uma turnê muito longa e muito iconoclástica: mais de 1.700 shows, começando em 1988. Mas, vítima de uma crise artística, decidiu desfibrilar a sua carreira e votar à estrada. Acompanhado por um pequeno conjunto, ele se reapresentou aos fãs, exibindo uma energia leve e um compromisso com a exploração do seu incomparável catálogo musical. Ele não dá mostras de desaceleração, embora ultimamente tenha substituído o violão que tocou durante mais de 45 anos por um teclado, gerando especulações de que problemas de coluna poderiam ser a causa dessa troca de instrumento (por meio da Columbia Records, o seu empresário disse que o fato de tocar teclado é "apenas a preferência musical de Dylan", e se recusou a fazer qualquer outro comentário para este artigo).

Dylan transformou a sua carreira em uma das trajetórias mais bizarras do rock. Ele raramente fala ao público, e quando o faz, as suas observações são freqüentemente aforismos obscuros ("Eu tinha uma grande cama de metal, mas a vendi!"). O astro interpreta algumas das suas canções mais conhecidas, mas freqüentemente em versões esquisitas, quase irreconhecíveis, como se estivesse disposto a sepultar as suas qualidades musicais. Ele valoriza as suas composições recentes mais do que os seus sucessos da década de 60, mas essas músicas, também, são interpretadas de forma altamente estilizada, com uma tonalidade monótona. Dylan procura se apresentar no maior número possível de locais, chegando até a tocar em noites sucessivas em teatros e clubes diferentes nas grandes cidades.

Em outras palavras, Dylan parece exibir um compromisso sem paralelos com o compartilhamento da sua arte, mas somente segundo as suas condições próprias e bem específicas.

É claro que no mundo do rock não é novidade se fazer cem shows por ano. Algumas figuras bem conhecidas, Nelson e B.B. King entre elas, fazem ainda mais apresentações que Dylan. Mas nenhum artista de estatura similar exibiu tal compromisso de décadas com o palco. Artistas e grupos como Bruce Springsteen, Rolling Stones e U2 costumam fazer turnês a cada dois ou três anos vinculadas a um grande pacote de marketing de um novo álbum, e nas quais sobressai a utilização de frotas de caminhões de carga que carregam os palcos enormes. Mais tarde há um souvenir como um álbum das gravações ao vivo ou um especial da HBO para divulgação posterior em DVD.

Dylan não faz nada disso. Não há temas, a publicidade é pouca e os caminhões de carga não aparecem no cenário. Ele apenas se apresenta. O escritor Paul Williams, criador da "Crawdaddy", que há quem diga ter sido a primeira revista de rock, em 1966, afirma que o foco de Dylan se afastou das gravações nas últimas décadas. "Essa é a sua forma artística. A apresentação", afirma Williams.

Esses shows não contam com nenhuma da coreografia estrita característica dos modernos concertos de rock. As grandes turnês de apresentação implicam em ingressos de centenas de dólares para que se veja uma atuação ensaiada, com apenas uma ou duas oportunidades para manifestações espontâneas. Já o pequeno conjunto de Dylan toca confiantemente as poucas partes previamente ensaiadas, mas dá a impressão de ser um pouco mais cauteloso durante o resto do show, à medida que o astro do rock vai decidindo que parte do seu repertório será tocada a seguir.

"Ele interpreta tudo. Velhas canções folclóricas, músicas da Guerra Civil e os sucessos mais conhecidos", diz o guitarrista G.E. Smith, que tocou com Dylan no início daquela que ficou conhecida como a Turnê Sem Fim. "Me lembro que, certa vez, tocávamos em Hollywood e ele interpretou 'Moon River'".

Ao contrário de alguns outros roqueiros, no caso de Dylan o dinheiro não parece ser a sua fonte primária de motivação. O preço médio dos seus ingressos é de um pouco mais de US$ 40, segundo Gary Bongiovanni, editor da revista "Pollstar" - o que está significantemente abaixo da média cobrada por outros artistas.

"Bob é um cara que descobriu que o dinheiro não é tudo", diz Jerry Mickelson, da Jam Productions, em Chicago. "O que importa para ele é fazer música e deixar as pessoas felizes, e não cobrar US$ 100 por ingresso".

Mickelson acrescenta que, para a turnê de 2004 de Bob e Willie, os ingressos custavam US$ 45. Neste ano o preço é de US$ 49,50.

Mesmo assim, o aspecto financeiro pode desempenhar um papel na estratégia de turnês de Dylan. Os shows em cassinos são bem lucrativos. O Soaring Eagle cobrou, por ingresso, o preço incomum de US$ 150, o que implica em um pagamento substancial para o artista. É verdade que ele jamais morrerá de fome. Mas Dylan não saiu dos anos 60 e 70 com aquilo que poderia ser chamado de "fortuna McCartney".

Howard Sounes, na sua biografia de Dylan, "Down the Highway", escreve que Dylan teve que abrigar quatro gerações de Zimmerman e Dylan em vários ocasiões, além de duas mulheres e, ao que parece, a estranha amante. Se Dylan se apresenta em cem shows por ano para uma platéia de 4.000 fãs a um preço médio de US$ 40 por ingresso, ele pode embolsar mais de US$ 5 milhões. E, é claro, a isso se somam os milhões de álbuns que vende por ano.

Mas o dinheiro não explica completamente a natureza inquieta da turnê, e tampouco a recusa de Dylan em dar ao público aquilo que este deseja ouvir, a sua abordagem casual da publicidade, os pequenos clubes ou os custos envolvidos com o fato de tocar em locais diferentes na mesma cidade. Para alguns dos seus colegas dos anos 60, cujos lucros estão na casa dos nove dígitos, não parece valer a pena deixar as suas mansões em Hamptons por uma turnê de US$ 5 milhões.

Uma pista para se entender o que Dylan está fazendo pode ser encontrada nas suas palavras para "The Freewheelin' Bob Dylan", um dos seus primeiros álbuns: "Eu não me comporto da forma que Big Joe Williams, Woody Guthrie, Leadbelly e Lightnin' Hopkins se comportam", disse ele. "Espero um dia ser capaz de fazê-lo. Mas são pessoas mais velhas. Às vezes consigo agir assim, mas, quando isso acontece, é algo inconsciente". Esses indivíduos não são apenas meros heróis musicais. Eles são também contrapontos para os decadentes astros de rock da era de Dylan, que cedem alegremente às demandas dos fãs. Ao contrário deles, Bob Dylan só oferece aos fãs aquilo que acredita que estes devem desejar: uma oportunidade de ver um artista fazendo o seu trabalho.

Ele chegou até mesmo a fazer um certo proselitismo a respeito dos poderes curativos de se colocar o pé na estrada. Um telefonema de Dylan encorajou a cantora Patti Smith a voltar a se apresentar após um hiato de 16 anos. "Ele me disse que eu deveria compartilhar aquilo que faço com os outros", conta ela. "Creio que isso é algo de coerente com a sua filosofia".

A turnê atual de Dylan encontra premonições misteriosas nas suas música, especialmente em "Like a Rolling Stone", cuja passagem "no direction home" pode soar ao mesmo tempo sinistra e triunfante. "Creio que quando ele diz 'no direction home' está falando sobre estar perdido, uma espécie de estranho em uma terra estranha", diz Williams. "Mas, ironicamente, foi dessa forma que ele escolheu viver a sua vida".

Jonathan Cott, autor de "Dylan", afirma: "Pensei nisso, e em como essa passagem seria um clichê, mas creio que ele se encontra com o pé na estrada - o "se encontrar", neste caso, nos dois sentidos da expressão. Creio que para Bob Dylan o objetivo é estar com o pé na estrada".

Existe uma questão final, e mais sensível, devido à forma como o cantor preza a sua privacidade. Além do seu relacionamento, relativamente bem descrito, com a primeira mulher, Sara, pouco se sabe da sua vida privada. Até muito recentemente, os biógrafos não conheciam os detalhes básicos da sua família, e muitos fãs não sabem que Dylan se casou uma segunda vez, na década de 80, com uma das cantoras secundárias do seu período gospel, com quem teve um filho.

A pergunta, colocada de forma curta e grossa, é: do que Dylan está fugindo? Ou em direção a que está fugindo? No auge da sua fama, na década de 60, ficou famoso o fato de ele ter deixado de se apresentar durante quase sete anos a fim de viver com a família em uma atmosfera que se aproximava da paz. Que demônios pessoais compeliriam um homem a passar a parte da década dos quarenta anos de idade, toda a década dos cinqüenta e, agora, a dos sessenta, fora de casa?

"Ele está fugindo ou descobrindo o seu próprio caminho?", pergunta Cott. "Eu não sei". Danilo Fonseca

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