UOL Notícias Internacional
 

14/06/2005

Michael Jackson é absolvido de todas acusações

The New York Times
John M. Broder

Em Santa Maria, Califórnia
Michael Jackson foi inocentado nesta segunda-feira (13/06) de todas os indiciamentos ligados às acusações de que teria molestado um garoto de 13 anos, do qual ficou amigo quando este se recuperava de um câncer em 2003.

Monica Almeida/The New York Times 
Michael Jackson sai do tribunal após ouvir sentença que o absolveu das acusações
A absolvição completa de Jackson --uma derrota dolorosa para um promotor que está se aposentando e que passou mais de uma década perseguindo o cantor por acusações de pedofilia-- encerra um julgamento de quase quatro meses que contou com 140 testemunhas que pintaram retratos conflitantes do astro pop internacional de 46 anos como sendo pedófilo ou Peter Pan.

"Sr. Jackson, sua fiança está dispensada e o senhor está livre", disse o juiz Rodney S. Melville após a leitura de uma série de veredictos "não culpado".

Jackson se levantou para os veredictos e depois abraçou seu principal advogado, Thomas A. Mesereau Jr. Uma das assistentes de Mesereau começou discretamente a soluçar quando o primeiro dos veredictos "não culpado" foi lido no tribunal.

Juntamente com o veredicto, os jurados apresentaram uma nota para que o juiz lesse no tribunal. Nela, eles disseram que sentiram "o peso dos olhos do mundo sobre todos nós" e que estudaram "ampla e meticulosamente" todas as evidências. A nota concluiu com o apelo: "Nós gostaríamos que as pessoas nos permitissem voltar às nossas vidas com o mesmo anonimato de antes".

O júri composto por oito mulheres e quatro homens apresentou o veredicto no Tribunal Superior da Califórnia daqui no sétimo dia de deliberações, que teve início em 3 de junho. O júri não ficou enclausurado e teve os fins de semana de folga.

Apesar do apelo por escrito para que fossem deixados em paz, os jurados e suplentes se reuniram para uma coletiva de imprensa de uma hora na qual foram identificados apenas pelo seu número de jurado, apesar de terem oferecido alguns poucos detalhes pessoais no processo de discussão do caso com os repórteres.

"Nós esperávamos melhores evidências, algo que fosse um pouco mais convincente", disse uma jurada, acrescentando que também é mãe. "Elas não estavam lá."

Outros jurados expressaram irritação com o comportamento da mãe do acusador de Michael Jackson, notando que ela encarou os jurados durante grande parte de seu testemunho às vezes bizarro e de até ter estalado os dedos para eles.

Ao ser questionada sobre o consentimento da mãe em deixar seu filho passar as noites no quarto de Jackson, uma jurada disse: "Que mãe em sã consciência deixaria isto acontecer?"

Ao serem indagados sobre a celebridade de Michael Jackson, os jurados disseram que teve pouco efeito sobre eles, apesar de um jurado ter dito que o caso "o tornou real aos meus olhos" e outra disse que passou a ver o astro um tanto excêntrico como simplesmente uma pessoa comum.

Um homem de meia-idade disse que apesar de suas opiniões pessoais sobre Michael Jackson, que ele se recusou a expressar, ele às vezes esquecia que o cantor estava presente no tribunal. "Nós baseamos nosso veredicto nas 10 acusações que nos foram pedidas para deliberar", disse ele, e não na opinião particular sobre Michael Jackson.

Jackson, usando óculos de aviador, um terno escuro, gravata preta e camisa de colarinho branco, parecia tenso e abatido quando deixou o tribunal com sua família e comitiva logo após a leitura do veredicto, e ele caminhou rapidamente para o veículo utilitário esportivo que o aguardava.

Protegido da forte luz solar por um guarda-sol segurado por um assistente, Jackson levantou a mão em agradecimento aos fãs extáticos do lado de fora, que comemoravam sua absolvição.

Helicópteros de televisão acompanharam a partida de sua caravana do rancho Neverland, próximo dali, sob escolta policial.

Quando a notícia do veredicto se espalhou pela multidão, um enorme comemoração eclodiu entre seus fãs, enquanto aqueles que esperavam por uma condenação vaiavam. Seus fãs, que achavam que as acusações faziam parte de uma vasta conspiração, abraçaram uns aos outros, dançaram e lançaram confete.

"Vitória! Vitória!" gritava Omar Reece, 25 anos, que viajou de Belleville, Illinois, até Santa Maria. "Ele provou sua inocência. As pessoas têm tentado detê-lo por 20 anos, destruir seu caráter, seu nome. E toda vez ele volta melhor, mais forte, inquebrável."

John Carlson, que disse ter seis filhos, disse que o júri pode ter sentido compaixão por Jackson, que foi levado ao hospital por vários problemas durante o julgamento.

"Talvez o júri tenha sentido que a vida dele acabou", disse Carlson. "Eles podem ter tido compaixão dele. Talvez tenha funcionado para ele toda aquela publicidade sobre as idas ao hospital."

Anteriormente, pouco antes da divulgação de que os jurados tinham chegado a um veredicto, helicópteros de televisão sobrevoaram o rancho Neverland de Michael Jackson perto daqui.

Os canais de cabo de notícias transmitiam um fluxo quase constante de imagens mostrando o pequeno comboio de veículos utilitários esporte de Jackson a caminho do tribunal para a leitura do veredicto. No tribunal, uma multidão se reuniu às pressas do lado de fora para aguardar sua chegada, ao mesmo tempo em que o contingente policial também inchava.

Jackson estava acompanhado no tribunal por vários membros de sua família, incluindo seu pai e mãe, Joe e Katherine Jackson, dois irmãos, Randy e Jermaine Jackson, e duas irmãs, LaToya e Rebbie Jackson. Ele parou brevemente enquanto caminhava na direção do saguão do tribunal para acenar para a multidão de fãs que chamava por ele.

Jackson foi processado por 10 acusações --quatro por abuso de criança, um por tentativa de abuso de criança, quatro por oferecer álcool visando cometer um crime, e conspiração para cometer seqüestro de criança, cárcere privado e extorsão. Juntas, as acusações poderiam lhe render uma sentença de mais de 18 anos de prisão.

Michael Jackson foi acusado de molestar o garoto em fevereiro ou março de 2003, em seu rancho Neverland de mais de 1.000 hectares. Os promotores disseram que o cantor forneceu álcool ao jovem visando abusar deste e posteriormente conspirou para intimidar e restringir a liberdade do garoto, que atualmente tem 15 anos, e sua mãe para mantê-los afastados da imprensa.

Mas o veredicto mostrou claramente que o júri considerou que o testemunho da família do acusador --o menino, sua mãe e seu irmão-- não era crível.

Na coletiva de imprensa posterior, Thomas W. Sneddon Jr., o promotor-público de Santa Barbara County, disse que "obviamente estamos decepcionados com o veredicto", mas "em 37 anos, eu nunca me queixei de um veredicto de júri e não vou fazê-lo hoje".

Ao ser questionado se o caso da promotoria foi minado porque dependia do testemunho da "família errada", ele respondeu: "Nós não selecionamos nossas vítimas e não selecionamos as famílias de onde elas vêm".

"Quando uma vítima se apresenta e diz que foi vitimizada e você acredita nisto, você não olha para seu pedigree", ele acrescentou. "Nós procuramos por aquilo que achamos ser correto, o motivo certo."

À medida que o julgamento avançava e os testemunhos se tornavam mais gráficos, Jackson parecia mais farto e esgotado. Em 5 de junho, apenas dois dias depois do júri ter iniciado suas deliberações no caso, ele foi ao hospital buscando tratamento para dores nas costas.

Logo após o início das deliberações do júri, o irmão de Michael, Jermaine Jackson, disse para a CNN que o irmão era "1.000% inocente". Ao ser indagado sobre se Michael mudaria seu comportamento em caso de absolvição, Jermaine Jackson disse: "Ele se tornará um completo recluso se for absolvido", acrescentando: "Ele não conseguirá mais lidar com ninguém porque ele não consegue mais confiar em ninguém".

O caso derivou da exibição em fevereiro de 2003 do programa "Living with Michael Jackson", um documentário britânico no qual o cantor admitiu que dividia sua cama com crianças, considerando isto algo adorável e não relacionado a sexo.

O garoto que posteriormente se tornou o acusador foi exibido de mãos dadas com o cantor e descansando sua cabeça afetuosamente em seu ombro. Ele foi descrito como um paciente de câncer de 13 anos que Jackson decidiu ajudar.

O documentário provocou sensação, reforçando anos de rumores e especulações de que Jackson tinha um apreço não natural por meninos. Ele também levou Sneddon, o promotor de Santa Barbara County, onde Neverland fica localizado, a abrir uma investigação criminal, reprisando um esforço semelhante e malsucedido de 1993 de processar Jackson por pedofilia.

As pessoas ao redor de Jackson viram o documentário de 2003 como um desastre de relações públicas e buscaram isolar o garoto e sua família. Eles também fizeram planos para um vídeo em resposta para desfazer parte do estrago e, não incidentalmente, ganhar algum dinheiro.

Seus esforços para persuadir a família a participar do vídeo de resposta e mantê-la afastada da imprensa, primeiro com um vôo para a Flórida e depois com várias estadias prolongadas em Neverland, serviram como base para a acusação posterior da promotoria de conspiração para cometer extorsão, abdução de criança e cárcere privado. Foi no fim da estadia em Neverland, no final de fevereiro e início de março, disseram os promotores, que Jackson molestou o garoto em várias ocasiões.

Passados quase nove meses da investigação de Sneddon, em 18 de novembro de 2003, um pequeno exército de auxiliares do xerife e investigadores do promotor público chegaram a Neverland com um mandado de busca.

Eles passaram cerca de 11 horas lá, registrando em vídeo todos os cantos da propriedade e apreendendo centenas de itens, que eles disseram incluir revistas pornográficas, roupa de cama e uma boneca de tamanho real que tinha sido obscenamente desfigurada.

Um dia depois, Sneddon anunciou que Jackson seria indiciado de múltiplas acusações de cometimento de ato lascivo contra criança. Ele pediu para que outros pais cujos filhos passaram a noite com Jackson se apresentassem para auxiliar os investigadores; nenhum apareceu.

Assim tiveram início 20 meses de um espetáculo às vezes bizarro, que incluiu a prisão coreografada de Jackson no aeroporto, em novembro de 2003, e sua dança em um utilitário esporte em janeiro de 2004, após sua citação em nove acusações, enquanto centenas de fãs gritavam do lado de fora do tribunal. Ele chegou e partiu acompanhado de seus irmãos Tito e Jermaine e de uma falange de guardas na Nação do Islã.

Seu advogado na época, Mark Geragos, desdenhou as acusações como tolice, motivadas pelo desejo de vingança de Sneddon, cujo processo em 1993 ruiu quando o acusador no caso retirou sua queixa após fechar um acordo de US$ 20 milhões com Jackson.

Analistas legais disseram que Mesereau, um renomado advogado de defesa de Los Angeles, superou em argumentos a equipe da promotoria, mas não tinham certeza se ele tinha conseguido obter uma forte conexão com os jurados, que foram convocados de uma área altamente conservadora ao redor de Santa Maria, uma comunidade rural de 90 mil habitantes.

O júri, selecionado me menos de uma semana no final de fevereiro, era eclético, variando em idade de 20 a 79 anos. Sete são brancos, três são latinos e um asiático; o 12º jurado se recusou a definir sua etnia. O único negro a sentar na júri é um jovem que serviu como suplente e não participou das deliberações.

Oito jurados são pais e seis disseram ser fãs da música de Michael Jackson. Um já esteve em Neverland, um homem de 21 anos que usa cadeira de rodas. Ele disse durante a seleção do júri que tinha visitado com um grupo de outros com paralisia cerebral. Todos os jurados, com exceção de dois, têm formação superior; três possuem doutorado.

O julgamento foi marcado por momentos patéticos, de melodrama e de genuína tensão, particularmente quando o acusador e sua mãe estiveram no banco das testemunhas. A promotoria guardou sua evidência mais forte para o final, um vídeo de um menino sendo entrevistado por um detetive do xerife. O menino, que tinha 13 anos na época, parecia tímido e relutante em discutir o assunto enquanto o oficial buscava seu relato.

A tensão sobre Jackson ao longo de todo o procedimento foi evidente e sem dúvida contribuiu para suas duas visitas ao hospital, a primeira por sintomas semelhantes a gripe e por dores nas costas.

O caso pareceu também pesar sobre Sneddon. O promotor de 64 anos via o julgamento como forma de vingar sua longa busca para colocar Jackson atrás das grades. Mas várias testemunhas importantes deixaram a desejar sob o interrogatório de Mesereau, e Sneddon ocasionalmente enterrou sua cabeça entre as mãos em aparente desespero.

O próprio testemunho às vezes se inclinava para o incrível. A mãe do acusador fez discurso para Mesereau e repreendeu o júri enquanto expunha uma estranha história sobre ter sido seqüestrada pelos capangas de Jackson enquanto ela gastava o dinheiro dele em restaurantes, roupas e tratamentos de beleza. Ela também falou sobre o plano dos assessores de Jackson de fazer ela e sua família desaparecerem em um balão de ar quente.

Jackson, que não se sentou no banco das testemunhas, foi exibido em uma entrevista gravada falando sobre quanto amava as crianças e seus planos de dar uma festa de aniversário para seu chimpanzé Bubbles, com uma lista de convidados composta de animais famosos do show business, como Benji, Lassie e Chita, dos filmes de Tarzan.

Os testemunhos expuseram a vida oculta de um dos astros mais conhecidos do mundo, revelando, por exemplo, que Jackson chamava vinho de "suco de Jesus", que ele bebia ostensivamente em latas de refrigerante.

Os promotores apresentaram como evidências fotos sexualmente explícitas de garotos nus assim como revistas com títulos como "Barely Legal", exibindo modelos femininas que aparentam ter menos de 18 anos.

Especialistas também falaram sobre o estado perigoso das finanças de Jackson, dizendo que ele estava gastando de US$ 20 milhões a US$ 30 milhões por ano além do que ganhava.

Os promotores pintaram um retrato sombrio de Neverland, como um covil de pedofilia em série, não um local mágico de inocência para compensar a infância que Jackson alega lhe ter sido privada como astro infantil.

Os promotores também fizeram uso de uma lei da Califórnia que permite a apresentação em casos de sexo de evidências de "atos indevidos anteriores" ou a propensão para cometimento de crimes sexuais, mesmo se tais ofensas nunca tenham sido denunciadas ou processadas.

Vários ex-funcionários de Neverland testemunharam que tinham visto Jackson molestar meninos, mas a defesa mostrou que tais testemunhas eram um grupo com rancor de Jackson e motivos financeiros para caluniá-lo.

O principal argumento da defesa foi de que o acusador e sua família envolveram Jackson em um plano elaborado, usando a doença do menino como isca. Em sua conclusão, Mesereau chamou repetidamente a família de "golpistas, atores e mentirosos", que pressionaram várias celebridades em busca de dinheiro, cometeram fraudes contra o bem-estar social e apresentaram uma falsa acusação de agressão contra J.C. Penney. Caso de abuso sexual termina com grande vitória para ídolo do pop George El Khouri Andolfato

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