UOL Notícias Internacional
 

14/06/2005

Os últimos 30 anos revolucionaram o casamento

The New York Times
Claudia Dreifus

Em Boston
Embora muitos historiadores passem as suas vidas examinando documentos sobre presidentes norte-americanos ou generais da Guerra Civil, o território de Stephanie Coontz é ao mesmo tempo mais mundano e mais contencioso.

Coontz, 60, professora de Estudos sobre a Família na Faculdade Estadual Evergreen, em Olympia, Washington, pesquisa o processo de formação das famílias ao longo da história. A sua especialidade é a história do casamento.

O seu quinto livro sobre o tópico, "Marriage, a History: From Obedience to Intimacy or How Love Conquered Marriage" ("Uma História do Casamento: Da Obediência à Intimidade, ou Como o Amor Conquistou o Casamento"), acabou de ser lançado pela editora norte-americana Viking.

A revista "Publisher's Weekly" disse que Coontz "apresenta os seus argumentos de forma clara, proporcionando um excelente equilíbrio entre o acadêmico e o assimilável pelo público comum neste livro atual e importante".

A família de Coontz inclui o marido, Will Reissner, um aposentado de 60 anos da Northwest Airlines, e o filho, Kris Coontz, 24, bombeiro que deve começar em breve a Faculdade de Medicina.

"Eu estudo aquilo que vivencio", explica Coontz, enquanto saboreia uma taça de vinho. No mês passado ela visitou Boston para promover o novo livro.

The New York Times - Como foi que você desenvolveu aquilo que certas pessoas podem considerar uma especialidade incomum, a história do casamento?

Stephanie Coontz -
Quanto enveredei por esse caminho, nos anos 70, era um campo realmente bizarro. Eu era formada em história política e econômica. Em 1975, que foi o ápice do movimento feminista, pensei em escrever um livro sobre a história das mulheres.

Mas ao buscar um tópico, percebi que havia poucos pontos no decorrer da história nos quais homens e mulheres interagiam. Finalmente, a idéia surgiu para mim: "Ah, veja a família. É esse o ponto no qual houve interação".

Nos anos 70, a história da família ainda não era tida como um campo de estudos sério. Fiquei apavorada com a possibilidade de que outros historiadores rissem de mim. Chamei o meu livro de "The Social Origins of Private Life" ("As Origens Sociais da Vida Privada").

Deveria ter sido "As Pompous as You Want to Be" ("Tão Pomposo Quanto Você Quiser Ser"). Cada sentença era um jargão acadêmico, e se eu dissesse X, explicaria com Y. O novo livro não tem nada disso.

NYT - Qual a tese central do novo livro?

Coontz -
A de que o casamento mudou mais nos últimos 30 anos do que nos 3.000 anos anteriores. Isso aconteceu em grande parte devido ao fato de as mulheres terem mudado tão dramaticamente.

No decorrer da minha vida, o casamento, que era uma instituição rígida na qual o papel dos gêneros era estritamente definido, se transformou naquilo que atualmente vemos com freqüência --parcerias. Até meados do século 20, sustentar a família era papel do homem. O papel da mulher era fornecer sexo e cuidar da casa. Isso acabou.

Em três décadas, nos livramos de todas as exigências legais e políticas de que as mulheres sejam subordinadas aos seus maridos. Ao mesmo tempo, as mulheres conquistaram independência econômica, de forma que não são subordinadas.

Também eliminamos as leis que penalizavam as crianças rotuladas de ilegítimas. Tomando todos esses fatores juntos, temos uma mudança na história humana tão dramática quanto a Revolução Industrial.

NYT - Os românticos do final do século 18 tentaram reformar o casamento?

Coontz -
Sim, isso fez parte do Iluminismo, a demanda pelo casamento por amor. Os defensores daquilo que à época era um casamento tradicional, um casamento arranjado, ficaram horrorizados.

Eles disseram: "Se as uniões com base no amor se tornarem a norma, teremos pessoas vivendo juntas sem casamento, parcerias homossexuais, divórcio e ilegitimidade".

Eles estavam certos. A união por amor era desestabilizadora. Mas as implicações radicais da "revolução do amor" não seriam colocadas em prática até que as mulheres contassem com métodos confiáveis de contracepção e fontes de renda independentes. E isso demorou mais 200 anos para ocorrer.

NYT - Alguns críticos se perguntam se as mudanças no casamento foram boas para os filhos. Você simpatiza com tais preocupações?

Coontz -
Certamente a situação para as famílias modernas não é fácil. Mas, como sabemos, quando as pessoas pensam de forma romântica nos casamentos do passado, dizem: "O objetivo do casamento é garantir que toda criança tenha uma mãe e um pai".

Mas durante milhares de anos, o casamento dizia respeito a determinar quem seriam os parentes, fazer alianças, determinar que criança tinha um direito aos pais e à herança. Filhos ilegítimos não tinham direito. Vários desses tradicionalistas idealizaram um paraíso que nunca existiu.

NYT - Por que os anos 50 são freqüentemente tidos como a era dourada das famílias norte-americanas?

Coontz -
Parte disso tem a ver com a economia. A década de 50 foi um período de otimismo, quando uma legião de soldados que retornaram da 2ª Guerra Mundial se mudou para subúrbios subsidiados e formou famílias, tudo ao mesmo tempo. A economia estava em expansão, assim como as esperanças nacionais, e havia uma experiência compartilhada.

Contrastando com isso, estamos vivendo agora em uma era na qual as disparidades sociais estão se ampliando. Ao mesmo tempo, as mulheres desempenham atividades assalariadas e não estão mais em casa. Algumas pessoas se perguntam o que ocorrerá com as crianças quando as mulheres não se sentirem mais obrigadas a cuidar dos filhos.

Os norte-americanos acreditam que é possível ter uma economia na qual o vencedor ganhe tudo, porque a família nuclear zelará pelo altruísmo e as obrigações.

Assim, quando constatamos que parece que a família nuclear não vai mais fazer isso, o sentimento é muito assustador. Creio que grande parte dos critérios sociais que influíram na votação durante a última eleição presidencial foi alimentada por essa sensação.

Tudo isso veio à tona por causa da questão dos gays e das lésbicas. Os Estados Unidos são uma das nações mais sexualmente conservadoras do Ocidente, especialmente quando se trata da homossexualidade. Assim, para muitos eleitores, o fato de os gays lutarem pelo direito ao casamento, enquanto os heterossexuais procuram revolucioná-lo, foi a gota d'água.

NYT - Como você encara o fato de os índices de divórcio serem especialmente elevados em vários Estados republicanos, como Oklahoma e Alabama?

Coontz -
Vejo isso como um sinal de que as famílias estão mudando tão rapidamente que os valores estabelecidos são indicadores fracos dos comportamentos reais. Os indivíduos educados têm mais probabilidade de possuir um sistema de valores que afirme não haver problema com o divórcio, mas eles apresentam menor tendência a fazê-lo.

Os negros são mais propensos do que os brancos a desaprovar a separação. E, no entanto, a praticam mais. Oklahoma e Alabama apresentam altos índices de divórcio. Em Massachusetts, o Estado mais conhecido pelo liberalismo, esses índices são baixos.

NYT - Periodicamente, as revistas de notícias publicam artigos sobre mulheres empresárias que deixam os escritórios para se tornarem mães em tempo integral. Sobre o que de fato tratam esses artigos?

Coontz -
Uma expectativa irreal, é o que suspeito. As estatísticas não indicam que tal fenômeno esteja ocorrendo. O que elas revelam é que o rápido ingresso de mães com filhos novos no mercado de trabalho se estabilizou e caiu ligeiramente.

Em 1998, quase 60% das mulheres retornavam ao trabalho antes que os filhos completassem um ano de idade. Agora esse número é de 55%. Isso pode ser um sinal da revolução se consolidando, em vez de se revertendo. Atualmente muitas mulheres têm confiança para dizer: "Posso negociar licenças mais longas, e se não puder, pedirei as contas e conseguirei outro emprego mais tarde".

NYT - Você diz que um componente-chave da revolução do casamento tem sido a capacidade da mulher controlar a sua fertilidade. Será que essas mudanças continuarão se o aborto se tornar ilegal?

Coontz -
Isso não vai mandar as mulheres de volta para casa. Haverá uma crescente polarização entre as opções disponíveis para as mulheres afluentes e as pobres. Mulheres afluentes encontrarão maneiras de contornar as leis restritivas ao aborto, e as mulheres pobres ficarão sem opção. Creio que a revolução do casamento é uma mudança social grande demais para ser revertida. Não é possível acabar com ela.

NYT - Qual é o aspecto mais positivo da revolução do casamento?

Coontz -
O quanto os homens mudaram nestes últimos 30 anos. Nunca se via homens com os filhos. Atualmente os maridos acreditam que fazem muito mais trabalhos domésticos do que de fato fazem, mas eles estão realizando algo de fato. Quando vejo os relacionamentos maravilhosos e respeitosos que o meu filho e os seus amigos mantêm com as mulheres em suas vidas, enxergo algo realmente novo.

NYT - Qual é a história conjugal da historiadora do casamento?

Coontz -
Eu passei pelo tipo de vida complexa sobre a qual escrevo. Fui mãe solteira durante 12 anos. Fui noiva. Me casei. Aí descobri que estava grávida e optei por ter o meu filho por conta própria. Eu era professora e tinha trinta e poucos anos. Tinha condições de arcar com as despesas. Doze anos mais tarde, um outro homem, Will --uma paixão dos tempos de faculdade--, reapareceu em minha vida. Nos casamos, e ele se tornou um segundo pai para o meu filho.

A minha história ilustra aquilo sobre o qual eu às vezes escrevo. Não se pode julgar a saúde de uma família pela forma que ela assume em um dado momento. Atualmente, as pessoas chegam a boas posições por meio de rotas bem estranhas. Também é verdade que os indivíduos podem seguir rotas bastante tradicionais e acabar em situações muito ruins. "Papel da mulher era fornecer sexo e cuidar da casa. Isso acabou" Danilo Fonseca

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