UOL Notícias Internacional
 

14/06/2005

Trovadores do sertão do Brasil e a arte do cordel

The New York Times
LARRY ROHTER

Em Caruaru (PE)
Eles são os bardos do sertão, viajando com seus poemas de cidade em cidade e de feira em feira. Praticantes de uma forma de arte que teve origem na Europa medieval e hoje está quase obsoleta em toda parte, eles continuam pujantes aqui.

John Maier/The New York Times 
José Ferreira da Silva trabalha numa base de madeira para decorar seus cordéis
"Cordel" é o nome dado a sua arte, que se desenvolveu neste interior árido do nordeste do Brasil, em comunidades agrícolas isoladas que valorizam mais a palavra cantada ou falada que a escrita. Como forma de arte autóctone e instintiva, os mesmos baladeiros que criam os poemas, inspirados em lendas ou fatos atuais, geralmente são quem os imprime, ilustra e distribui.

"Assim como muitas outras formas de folclore, o cordel transforma o vocabulário antigo para caber em novas situações", disse Candace Slater, autora de "Stories on a String" [Estórias em um Cordão] e professora da Universidade da Califórnia em Berkeley.

"O que não mudou é que os poetas de cordel continuam escrevendo para o grupo, e o que eles escrevem continua tocando as pessoas do nordeste brasileiro, não importa onde elas estejam vivendo."

"Cordel" significa literalmente um cordão ou barbante, uma referência à maneira como os livretos de papel barato contendo os poemas, com até 32 páginas, são dependurados nas barracas de feiras. Os versos geralmente têm seis linhas, e embora seja permitida uma variedade de esquemas de rima, o mais utilizado provavelmente é "abcbdb".

Originalmente, o cordel era uma extensão da tradição do trovador europeu. Os poetas e cantores de cordel percorriam o vasto interior do nordeste do Brasil, uma área maior que o Alasca e que hoje abriga 50 milhões de pessoas, apresentando-se nas feiras como a que se realiza aqui todo sábado, ou nos mercados, dias comemorativos de santos e outros eventos públicos, para recitar suas baladas, trazendo notícias e diversão para os agricultores muitas vezes analfabetos.

"A literatura popular em forma de verso se desenvolveu aqui no Brasil como em nenhum outro lugar do mundo", disse Audálio Dantas, um colecionador de cordel e curador de "Um Século de Cordel", uma exposição realizada em São Paulo em 2001.

"O panfleto de cordel foi durante décadas praticamente o único veículo de informação com que as pessoas do interior podiam contar."

Mas com a ascensão do rádio, depois da televisão e agora da Internet, o principal foco do cordel mudou gradualmente para divertir o leitor ou ouvinte.

No entanto, quando um leão devorou uma criança em um circo perto daqui não muito tempo atrás, o incidente rapidamente se tornou tema de um cordel, e poucos dias depois dos atentados terroristas de 11 de setembro panfletos interpretando o evento circulavam no sertão.

"Somos poetas menestréis, porque o que escrevemos é em rima e vem de nossa imaginação", disse José João dos Santos, que sob o nome de pena Azulão escreveu e publicou mais de 300 títulos de cordel.

"Mas também sou um jornalista que leva notícias aos pobres e analfabetos em uma forma que eles compreendem e confiam mais que os jornais ou a televisão."

A maioria dos poetas vem do mesmo ambiente que suas platéias. Por exemplo, José Francisco Borges, que abandonou a escola aos 12 anos e hoje talvez seja o mais célebre mestre dessa arte, trabalhou como pedreiro, vendedor de ervas, agricultor, carpinteiro e poteiro.

Apesar do que lhes falta em escolaridade, os poetas de cordel são criativos e têm mente ágil. Quando Abraão Batista foi questionado sobre o que o tornou poeta, respondeu: "Bem, eu fui até a lua, encontrei São Jorge e os santos conversando, e eles me deram sua bênção. Desde então tenho saltado por aí no tempo e no espaço".

Como indicam panfletos como "A garota que bateu em sua mãe e foi transformada em um cachorro" ou "A garota que se casou 14 vezes e continua virgem", o cordel muitas vezes transmite uma moral, com heróis e vilões claramente definidos.

Outros títulos, como "A mulher que colocou o diabo em uma garrafa" ou "O homem que se casou com uma jumenta", destinam-se a ser sobrenaturais ou cômicos.

Outro tema favorito são as aventuras de Lampião, um bandido no estilo Robin Hood que escapou da polícia durante mais de uma década antes de ser capturado e morto perto daqui em 1938.

Os poetas de cordel dizem, porém, que o título de maior vendagem de todos os tempos é "O Romance do Pavão Misterioso". Ambientado no distante Mediterrâneo, ele conta a história de um jovem que, frustrado porque sua amada é mantida presa por seu pai, obtém um pavão mecânico que lhe permite resgatá-la. Os dois fogem, o sogro morre e o casal se torna seu herdeiro.

"Algumas das histórias mais populares podem ser identificadas nas lendas européias, a Carlos Magno no século 10º, mas a maioria se originou na península Ibérica no final do século 16 e no 17", diz Mark Curran, professor da Universidade Estadual do Arizona que escreveu vários livros sobre cordel.

"Mas a genialidade dessas histórias é que mesmo aquelas que vêm do Oriente foram totalmente adaptadas e recriadas para se adaptar às circunstâncias do nordeste brasileiro."

José Ferreira da Silva, um poeta daqui que escreve sob o nome de Dila, diz: "Alguns assuntos nunca saem de moda no cordel e sempre venderam. Eu já escrevi tantos panfletos sobre Lampião que perdi a conta --pelo menos 200".

Os brasileiros instruídos originalmente desprezavam o cordel e as capas em xilogravuras grosseiras ligadas a ele como algo vulgar, um símbolo do atraso do país.

Mas, hoje, intelectuais de São Paulo e do Rio de Janeiro são colecionadores ou admiradores dos panfletos, e a estética do cordel pode ser detectada em quase todos os cantos da cultura popular brasileira.

"Os poetas de cordel dirão que o interesse por seu trabalho cresceu principalmente por causa dos estrangeiros", diz Curran. "Mas eu acho que o Brasil atingiu um momento de mudanças em que existe mais consciência e uma fome para procurar as raízes culturais do país, e o cordel é uma parte importante da cultura brasileira do século 20."

Na música pop, por exemplo, compositores de vanguarda muito admirados fora do Brasil se basearam no cordel em canções como "A chegada de Raul Seixas e Lampião no FMI", de Tom Zé e "Isaac Asimov e Santos Dumont se encontram no céu", de Chico Science.

Na literatura, o romance de Jorge Amado "Tereza Batista Cansada de Guerra" e a peça de Ariano Suassuna "A História do Rei sem Cabeça" são fortemente influenciados pelo cordel, no tema e na forma.

Com títulos como "O Cordel das Doenças Sexualmente Transmissíveis" e "A Reforma Agrária é um Direito de Todo Brasileiro", os governos federal e estaduais também vêm usando esse formato para promover a saúde, a segurança no trânsito, a consciência política, a prevenção à Aids e outras campanhas oficiais.

E políticos e empresários de pequenas cidades do nordeste muitas vezes recorrem ao cordel para promover suas candidaturas ou seus produtos.

"Não muito tempo atrás, um advogado cuja filha ia se casar me pediu para escrever os convites em versos de cordel", disse José Severino Cristóvão, um poeta local.

Quanto às xilogravuras que adornam as capas dos panfletos de cordel, elas evoluíram em uma forma de arte própria. O trabalho de Borges já foi exibido no Louvre e no Smithsonian. Mas em sua barraca de feira aqui ele também vende camisetas e azulejos estampados com imagens das xilogravuras.

"As pessoas dizem que o cordel está condenado desde os anos 20", diz Slater. "Mas a energia criativa continua aí hoje; apenas está sendo canalizada de maneiras diferentes.

O cordel sempre foi uma forma híbrida, capaz de incorporar novas influências. Sua capacidade de se tornar coisas diferentes pode decepcionar pessoas que querem que ele seja o que foi nos anos 40 ou 70, mas é exatamente nessa adaptabilidade que reside sua sobrevivência criativa." Outrora desprezados, poemas populares ganham reconhecimento Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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