UOL Notícias Internacional
 

15/06/2005

Jovem cavaleiro enfrenta seus demônios internos no ótimo "Batman Begins"

The New York Times
Manohla Dargis

Crítico do NYT

Perto do final big-bang de "Batman Begins", o vingador do título, interpretado pelo carismático jovem ator britânico Christian Bale, resgata uma dama em apuros, interpretada por Katie Holmes, e a leva ao seu esconderijo. Assistindo a esta cena, foi difícil não pensar em quão bom teria sido se Batman, em vez disso, tivesse despachado a atriz irritantemente alegre, cujas recentes momices fora das telas ameaçaram ofuscar este filme inesperadamente bom.
 

Warner Brothers Pictures via The New York Times  
Christian Bale, acima em cena de ação do blockbuster, consegue dar forma para os conflitos psicológicos do herói

No final, a missão de resgate mais memorável em "Batman Begins" não é realizada pelo cruzado encapuzado, mas pelo diretor do filme, Christopher Nolan.

"Batman Begins" é o sétimo filme com atores a explorar a lenda dos quadrinhos e o primeiro a projetá-lo no reino do mito cinematográfico.

Concebido à sombra do pop americano em vez de sob sua luz brilhante, esta iteração tensa, eficaz dos quadrinhos originais de Bob Kane deve sua força e prazeres a um diretor que leva seu material a sério e a um astro que carrega tal seriedade com facilidade.

Até agora, Bale, que ganhou projeção trabalhando com Steven Spielberg em "Império do Sol" há quase duas décadas, é mais conhecido por sua interpretação assustadoramente plausível de "Psicopata Americano", um filme de horror intelectual que agora parece um prelúdio para este: pense em um Psicopata Americano revisto, desta vez de fantasia.

Tão luzidio como uma pantera, com malares marcados o suficiente para dar uma pausa até mesmo à amante mais ardorosa, Bale apresenta um vingador soberbamente ameaçador.

Seu Batman está muito distante do personagem cartunesco de Adam West, que corria desajeitadamente pelas telas de televisão americanas em meados dos anos 60 com "zap" e "pow", mas nunca com uma pitada de verdadeiro "uau".

Bale até mesmo aprimora Michael Keaton, que vestiu a capa do homem-morcego em "Batman" de Tim Burton, de 1989, e sua seqüência divertida de três anos depois, dando ao personagem uma dose de ameaça. O que Keaton não conseguiu dar ao papel, e que Bale fornece sem esforço, é o ar de autoridade casual de Bruce Wayne, a altivez aristocrática que é o complemento necessário da megalomania obsessiva de Batman.

O que Nolan consegue, e consegue melhor do que qualquer outro diretor anterior, é que, sem Bruce Wayne, Batman é apenas um rico maluco com ilusões de grandeza e uma magnífica roupa de borracha.

Sem seu alter ego suave, este homem morcego bizarro é um super-herói sem humanidade, um vingador sem consciência, um id sem superego.

Este é o motivo, trabalhando a partir do bom roteiro de sua autoria e de David Goyer, para Nolan mais ou menos começar do princípio, levando Batman de volta ao trauma original da morte de seus pais.

Com uma economia de narrativa e sentimento tangível, ele encena aquele momento terrível e definidor em que o jovem mestre Wayne assistiu um criminoso matar a tiros seus pais em um beco de Gotham City, colocando em movimento sua longa e estranha jornada em busca de si mesmo.

A história começa com um Bruce adulto no meio de tal jornada, em um ponto distante da Ásia, onde ele primeiro se encontra com uma "fraternidade criminosa", depois com uma irmandade clandestina chamada Liga das Sombras.

Liderada por um guerreiro sensei, Ra's al Ghul (Ken Watanabe), e seu assistente, Henri Ducard (Liam Neeson, em seu melhor estilo letal), a liga convida Bruce para se juntar a ela, uma oferta que ele recusa violentamente. Subseqüentemente ele volta para Gotham City, onde assume a dupla identidade de cidadão mais rico da cidade e seu anjo vingador.

Surge a intriga envolvendo um senhor do crime interpretado com brio por Tom Wilkinson, um psiquiatra arrepiante trazido à vida por Cillian Murphy, e o último policial honesto de Gotham, James Gordon, que recebeu um emoção expressiva de um contido Gary Oldman.

É surpreendente o que um excelente elenco, um roteiro sólido e um respeito pelo material original podem fazer por um filme baseado em histórias em quadrinhos.

Diferente de Robert Rodriguez, cuja fidelidade aos quadrinhos de Frank Miller secou "Sin City", Nolan aborda Batman com respeito em vez de reverência. É óbvio que Nolan fez um estudo cuidadoso do legado de Batman, mas ele tem uma dívida em particular com a revisão do personagem feita por Miller nos anos 80, que ressuscitou o lado Cavaleiro das Trevas de sua identidade.

Como o Batman de Miller, o de Nolan é atormentado por demônios tanto físicos quanto psicológicos. Em um mundo incerto, um que o diretor modela com um olho em nosso próprio, este é um herói preso entre a justiça e a vingança, um desejo por paz e o de poder.

Tal luta dá à história o peso necessário, mas o que torna este "Batman" tão agradável é como Nolan equilibra os elementos sombrios da história com sua luz, e organiza elementos familiares do gênero de formas novas e imprevistas.

Alimentados por inúmeras revistas em quadrinhos e um punhado de filmes, nós podemos pensar que conhecemos a batcaverna como conhecemos o interior do quarto de nossa infância. Mas assistir Bruce Wayne no meio da escuridão de sua nova caverna, cercado por uma nuvem de morcegos, é como ver o refúgio subterrâneo pela primeira vez.

Da mesma forma o Batmóvel, que aqui lembra um Hummer que parece ter sido gentilmente achatado por um tanque Bradley e depois preparado para alguma corrida de rua radical, com pneus largos e tinta preta reluzente.

Como freqüentemente acontece com filmes sobre meninos e brinquedos, "Batman Begins" se estende demais, mas mesmo o final reflexivo estilo Bruckheimer não diminui seu charme.

Nolan precisa desenvolver melhor sua ação: Fred Astaire cuidava para que fosse filmado de forma a podermos ver seu corpo todo, um conselho que este diretor devia ter seguido quando filmava seu super-herói.

Ainda assim, o que torna "Batman Begins" a adaptação de quadrinhos mais bem-sucedida, juntamente com "Mundo Cão" de Terry Zwigoff, não são os cenários barulhentos, as referências a "Blade Runner" ou a forma como uma lembrança de criança, uma ponta de flecha indígena, lembra a forma de um morcego.

É a forma como Nolan nos convida a assistir Bruce Wayne montar calmamente sua identidade de Batman, para se tornar uma lenda, como já fizemos ao ler nossa primeira revista em quadrinhos.

O filme tem classificação PG-13 (conteúdo pode ser impróprio para crianças com menos de 13 anos). O filme inclui ação intensa, mas sem derramamento de sangue, mais notadamente a morte a tiros dos pais de Bruce Wayne. Pessoas com fobia de morcegos devem tomar cuidado.

"Batman Begins"

Dirigido por Christopher Nolan; roteiro de Nolan e David S. Goyer, baseado em uma história de Goyer e nos personagens de "Batman", criado por Bob Kane e publicado pela DC Comics; diretor de fotografia, Wally Pfister; montagem de Lee Smith; música de Hans Zimmer e James Newton Howard; desenho de produção, Nathan Crowley; produzido por Emma Thomas, Charles Roven e Larry Franco; lançamento da Warner Brothers Pictures.

Duração: 137 minutos.

Com: Christian Bale (Bruce Wayne/Batman), Michael Caine (Alfred), Liam Neeson (Henri Ducard), Katie Holmes (Rachel Dawes), Gary Oldman (James Gordon), Cillian Murphy (Dr. Jonathan Crane), Tom Wilkinson (Carmine Falcone), Rutger Hauer (Richard Earle), Ken Watanabe (Ra's al Ghul) e Morgan Freeman (Lucius Fox). Diretor e ator acertam na recriação dos conflitos do herói das HQs George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host