UOL Notícias Internacional
 

15/06/2005

San Francisco tenta conter abusos na lei que permite uso da maconha medicinal

The New York Times
Dean E. Murphy

Em San Francisco, Califórnia
Os itens mais vendidos no dispensário de maconha medicinal da Green Cross são preparados na cozinha de Kevin Reed, seu fundador e presidente. Bolos de maconha assados na hora. Biscoitos de maconha com lascas de chocolate Ghirardelli. Pasta de amendoim com maconha, pirulitos, confeitos e trufas. Cada um deles vem rotulado com um alerta: "Por favor, mantenha fora do alcance de crianças e animais de estimação".

Jim Wilson/The New York Times 
A Green Cross, loja autorizada a vender a maconha medicinal, oferece-a até na forma de bolos e de doces
Reed, 31 anos, um ex-vendedor de casas móveis do Alabama e que se mudou para cá depois de ter sido preso duas vezes por posse de maconha, disse que o alerta foi acrescentado aos doces quando um cliente contou que "sua vó tinha comido um deles".

The Incredible Edibles (os comestíveis incríveis), como os confeitos são chamados, representam 40% das vendas da Green Cross, uma próspera organização sem fins lucrativos em um bairro de bares e restaurantes da moda e casas vitorianas.

Os cerca de 150 clientes que ela atende diariamente podem pagar com Visa ou MasterCard e precisam apenas de uma recomendação médica para entrar.

Faz nove anos desde que os eleitores da Califórnia aprovaram a primeira lei estadual permitindo o uso da maconha para fins medicinais. A medida foi aprovada em San Francisco, uma cidade de 800 mil habitante, com 78% dos votos, o maior percentual no Estado.

Mas o Estado, onde tem surgido dezenas de dispensários como o Green Cross, conhecidos como clubes da maconha, está agora entre os muitos que estão enfrentando os excessos do sucesso da lei.

Mesmo antes de a Suprema Corte dos Estados Unidos ter mantido na semana passada a autoridade federal sobre a maconha, inclusive em Estados onde seu uso para fins medicinais é legal, autoridades municipais, donos de dispensários e defensores da maconha medicinal em San Francisco já estavam questionando quanto da droga era suficiente.

No mês passado, a Junta de Supervisores de San Francisco impôs uma moratória de seis meses na autorização de novos dispensários, depois que autoridades de saúde contaram pelo menos 43 instalações ilegais, incluindo uma em um prédio onde antes moradores de rua recebiam orientação sobre abusos de drogas e álcool. Mas mesmo com a moratória, há relatos de que novos clubes estão sendo abertos.

"A ausência de leis permitiu o surgimento de oportunidades adversas", disse o supervisor Ross Mirkarimi, que propôs a moratória.

O capitão de polícia de San Francisco, Rick Bruce, disse que mais maconha está nas ruas do que em qualquer momento em seus 30 anos no departamento.

Ele disse que apesar da existência de muitas pessoas doentes que legitimamente se voltam para a droga para tratamento, inúmeros traficantes têm usado os dispensários como cobertura para vendas ilegais.

"Este é um enorme golpe", disse Bruce, que comanda a estação Bayview da cidade, que cobre alguns dos bairros de maior criminalidade.

"Nós vemos pessoas saindo destes lugares e a única descrição em que posso pensar é que parece um filme de Cheech e Chong. Eles são o que você poderia chamar de maconheiros tradicionais; se eles têm alguma condição médica além desta está sujeito a debate."

Apesar de pesquisas de opinião mostrarem que os californianos continuam apoiando o uso medicinal da maconha, os problemas associados à distribuição da droga têm incomodado muitos bairros e cidades.

No ano passado, pelo menos cinco cidades californianas proibiram os dispensários por temerem que levariam a crimes e abusos. Além disso, 47 cidades e condados impuseram moratórias a novos dispensários, segundo uma pesquisa da Americanos pelo Acesso Seguro, um grupo de defesa da maconha em Oakland.

"Parece que está se espalhando um pouco de pânico", disse Hilary McQuie, uma porta-voz do grupo.

O legislativo estadual criou normas em 2003 para execução da lei de maconha medicinal, mas as autoridades locais de todo Estado ainda têm dificuldade para controlar os dispensários. Até o momento, apenas 17 cidades e condados aprovaram diretrizes os regulando, segundo a Americanos pelo Acesso Seguro.

A tarefa ficou ainda mais complicada na semana passada com a decisão da Suprema Corte, que afetou a Califórnia e 10 outros Estados que permitem alguns usos da maconha medicinal. (Os outros Estados são Alasca, Colorado, Havaí, Maine, Maryland, Montana, Nevada, Oregon, Vermont e Washington.)

Grupos de defesa informaram que alguns pequenos dispensários fecharam na semana passada, e autoridades de saúde estaduais disseram que estão agindo mais cautelosamente no plano de lançar um programa estadual de carteira de identidade de usuário de maconha medicinal.

Cerca de 100 mil pessoas na Califórnia usam a droga para fins medicinais, bem mais do que em qualquer outro Estado, segundo Aliança de Política de Drogas, um grupo que apóia o uso medicinal da maconha.

"No momento nós estamos analizando a lei federal", disse Norma Arceo, porta-voz do Departamento de Serviços de Saúde da Califórnia. "Nós não sabemos quanto isto afeta a lei estadual."

Entrar nos dispensários não é difícil, disseram muitos pacientes. Segundo a lei estadual, candidatos a usuários de maconha devem receber uma recomendação médica, que é mais ou menos o equivalente a uma receita médica para medicamentos aprovados pelo governo federal.

Se seus médicos habituais estiverem relutantes em fazer a recomendação, os pacientes podem se voltar para "médicos compassivos" que anunciam seus serviços em jornais e na Internet.

Um destes médicos, o dr. R. Stephen Ellis, cuja prática é explicada no site www.potdoc.com, promete reembolsar as taxas de exames caso a consulta não resulte em uma recomendação.

A MediCann, uma rede de 10 clínicas em todo o Estado dirigida por uma médica de Santa Cruz, Jean Talleyrand, consulta cerca de 700 pacientes por semana, com cerca de três quartos deles recebendo uma recomendação, disse um porta-voz da MediCann, Nicholas Jarrett.

"Nossa preocupação é sempre com os pacientes", disse Jarrett. "Nós queremos que eles tenham acesso ao medicamento que precisam."

O dr. Joshua Bamberger, diretor médico de habitação e saúde urbana do Departamento de Saúde Pública de San Francisco, disse que o departamento emite cerca de 4 mil carteiras de identidade de maconha medicinal por ano.

Os pacientes pagam uma taxa de US$ 25, apresentam a recomendação do médico e concordam em serem fotografados. A identidade é oferecida para tornar a compra da maconha medicinal mais conveniente e é aceita em dispensários em San Francisco e cinco condados próximos.

Mas Bamberger disse que o condado não tem capacidade segundo a lei de controlar quanta maconha os pacientes compram com a identidade. Para impedir que as autoridades federais usem os registros do condado para processar os portadores da identidade, o condado não mantém registros de quem recebeu a identidade ou o nome do médico que forneceu a recomendação, mas numera cada cartão para fins de rastreamento.

Quando alguns traficantes são presos, mesmo com grandes quantidades de maconha, disse Bruce, muitos deles produzem uma identidade de maconha medicinal e insistem que não fizeram nada errado.

"Pode muito bem ser o verão do amor por aqui", disse o capitão da polícia.

As queixas em San Francisco pioraram no ano passado quando Oakland, do outro lado da Baía de San Francisco, aprovou uma ordem limitando o número de dispensários, levando à migração dos clubes para cá. Em março, o prefeito Gavin Newsom pediu novos controles para os clubes, e Mirkarimi realizou audiências públicas sobre os problemas.

Mirkarimi disse que a regulamentação foi a única forma de salvar os dispensários de um repúdio público. "Nós provavelmente veremos uma redução e reorganização de muitos clubes", disse ele.

"Mas pelo menos será um processo legitimizador da infra-estrutura do clube, de forma que não terão que operar em uma atmosfera marginal."

McQuie, da Americanos pelo Acesso Seguro, disse que os grupos de defesa chegaram à mesma conclusão e têm trabalhado com as autoridades locais em todo o Estado para elaborar regras para os clubes.

Não apenas a regulamentação desarmará a oposição, disse ela, mas também demonstrará para o governo federal que os legisladores da Califórnia apóiam a lei estadual de maconha medicinal.

"Nós queremos licenças, nós queremos zoneamento, nós queremos autorizações", disse McQuie. "Como os Estados visam ser laboratórios sociais, nós queremos mostrar quão bem a maconha medicinal pode funcionar."

Muitos operadores de dispensários, que segundo a lei estadual devem ser estabelecimentos sem fins lucrativos dirigidos por pacientes, se juntaram ao apelo por maior supervisão.

Alguns não têm medido esforços para fazer seus clubes parecerem mais como uma "farmácia de produtos naturais do que um ponto de drogas no meio de Guetolândia", disse Reed da Green Cross.

Reed recolhe imposto sobre vendas --US$ 10 mil no mês passado-- fornece plano de saúde e outros benefícios para seus 10 funcionários e tem 16 câmeras de segurança no dispensário. Um leão-de-chácara fica na porta e um funcionário do lado de fora mantém a calçada livre da vagabundos.

"Eu estou nisto para ajudar as pessoas e mostrar às pessoas que pode ser feito corretamente", disse Reed, "e não para ir para a prisão".

Reed vende confeitos de maconha por US$ 5 cada, mas se os pacientes preferirem preparar seus próprios, ou fumar a maconha, eles podem escolher entre uma variedade de folhas de maconha seca. O preço para as cerca de 50 variedades em estoque é o mesmo, independente do que o paciente compre: US$ 300 a onça.

Os chamados "cultivadores" que trabalham atrás de grandes divisórias de vidro fornecem ajuda na escolha da melhor variedade. Todos são usuários de maconha medicinal, e geralmente são medicados enquanto trabalham.

"Nós nos divertimos muito aqui", disse Reed, picando algumas folhas de maconha em uma tigela para tratar um ferimento nas costas resultante de um acidente de carro há 13 anos. "E fazemos as pessoas sorrirem." Cidade quer disciplinar abertura de estabelecimentos que a vendem George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,71
    3,127
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,37
    64.938,02
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host