UOL Notícias Internacional
 

16/06/2005

Futuro do Haiti pode depender de um preso morrendo de fome

The New York Times
Ginger Thompson

Em Port-au-Prince, Haiti
Novamente, um homem se tornou o centro de uma tempestade política que ameaça a dura luta do país pela estabilidade. Desta vez, não é Jean-Bertrand Aristide, ex-padre e líder carismático das favelas que foi deposto no ano passado por um levante armado e forçado ao exílio. É o homem que teve sua ascensão e queda na sombra de Aristide, seu ex-primeiro-ministro, Yvon Neptune.

Michael Kamber/The New York Times 
Gehanne Beaulieu é amparada após ser libertada por seqüestradores; criminalidade aumenta a convulsão social no Haiti
O ex-senador e apresentador de rádio está preso há um ano sem acusações sob o novo governo instalado pelos EUA e está lentamente morrendo de fome em uma prisão de segurança mínima.

No ano passado, o novo governo do Haiti prendeu Neptune, 58, acusando-o de planejar o massacre em uma pequena cidade do norte, St. Marc. O primeiro-ministro Gerard Latortue argumentou que a Justiça era a melhor forma de curar as feridas do Haiti e promoveu o caso como prova de que ninguém, não importa quão famoso, ficaria acima da lei.

No entanto, com a aproximação do aniversário da prisão de Neptune, sua detenção tornou-se embaraçosa para o governo Bush e símbolo do fracasso do que supostamente seria a transição do Haiti para uma democracia operante.

Da prisão, o ex-primeiro-ministro denunciou seu caso como uma "caça às bruxas política", uma vingança contra os que apoiaram Aristide. Em fevereiro, ele começou uma série de greves de fome para exigir que o governo o julgue ou libere.

Quando um visitante encontrou Neptune na casa de dois andares onde está sendo detido, o ex-primeiro-ministro não conseguiu levantar seu minúsculo corpo de um colchão de espuma no chão da cela. Ele vestia shorts listrados e ouvia música com seu walkman. O mais impressionante era seu tórax magro.

"Sinto-me fraco" disse sussurrando. "Alguns dias me sinto mais fraco que outros. Mas foi minha escolha fazer greve de fome."

As greves de fome levaram o preso duas vezes ao hospital em condição crítica e geraram expressões de preocupação e até revolta com as injustiças que continuam a afligir a justiça do Haiti. Somente cerca de 20 ou mais dos 1.000 prisioneiros da penitenciária federal foram condenados; muitos passaram anos esperando julgamento.

Jocelyn McCalla, porém, diretora executiva da Coalizão Nacional pelos Direitos Haitianos em Nova York, disse que há muito mais em jogo do que o sistema jurídico do país.

Em vez de uma conquista política do governo interino, disse ele, o caso tornou-se uma questão séria de responsabilidade, a menos de quatro meses do início de importantes eleições nacionais.

Em vez de unir esta sociedade violentamente polarizada, a questão parece agravar as antigas hostilidades políticas, disse McCalla, levantando questões sobre crimes do antigo governo e sobre a legitimidade do atual.

"O caso de Neptune gerou questionamentos difíceis sobre a legitimidade da 'intervenção americana' no Haiti", disse McCalla. "A intervenção se baseava na premissa de que os EUA estavam expulsando um déspota criminoso, o presidente Aristide, que tinha usado seus poderes para subverter a democracia, e que o governo interino ia estabelecer um Estado de direito. Isso não aconteceu."

Não é fácil dizer exatamente o que aconteceu em St. Marc. Estima-se que morreram entre cinco e 50 pessoas. Mas de acordo com os investigadores e a imprensa, a violência teve suas raízes no levante que derrubou o presidente Aristide.

Aquela rebelião começou no início de fevereiro 2004 em Gonaives, quando um grupo esfarrapado de ex-soldados atacou as delegacias de polícia e forçou as autoridades a abandonarem seus postos. Rapidamente, a notícia chegou a St. Marc, onde os opositores de Aristide, chamados Ramicos, atacaram a delegacia e montaram barricadas.

Neptune chegou à cidade em um helicóptero presidencial no dia 9 de fevereiro. Testemunhas disseram que ele deu uma volta na cidade, convocou os policiais de volta à delegacia e prometeu, em um discurso irritado, que o governo não ia se render.

"O que estamos fazendo é assegurar que a paz seja restabelecida", disse ele, segundo um jornal haitiano. "Estamos estimulando a polícia a se unir à população para que o ciclo de violência possa cessar. Pedimos a toda a população que queira a paz que se mobilize contra a violência crescente."

Olhando para trás, alguns vêem essas palavras como dar à polícia licença para matar. Outros as vêem como um primeiro-ministro cercado, tentando dar confiança à população.

Dois dias depois, segundo as testemunhas, o helicóptero presidencial voltou a sobrevoar a cidade. Policiais acompanhados por homens de Aristide derrubaram as barricadas em torno do reduto dos Ramicos, colocando fogo nas casas e jogando pessoas dentro para que queimassem vivas.

Ninguém diz ter visto Neptune. De fato, vários dias se passaram antes que alguém tivesse a coragem de entrar na área para buscar os sobreviventes.

Terry Snow, missionário de Tyler, Texas, que começou a trabalhar no Haiti em 1986, lembra-se que as ruas ficaram cheias de corpos. Ele também ficou com medo de tirar fotos, disse, mas lembra-se de ter visto ao menos sete em uma casa e três cabeças em um banheiro. Outros disseram a ele que havia corpos na colina sendo comidos por porcos e cães.

"Quando a polícia começou a procurar os corpos", disse ele, "já não havia mais nada".

Aristide também já tinha partido. A instabilidade crescente no Haiti provocou imensa pressão dos EUA, e Aristide deixou o país para o exílio na África.

Neptune, entretanto, recusou-se a fugir e cooperou com os EUA, entregando o poder a Latortue, que retribuiu prendendo-o.

Há três semanas, o prisioneiro emaciado foi levado em uma maca para sua primeira audiência em St. Marc e testemunhou por várias horas. Este foi o último sinal de que o governo interino tinha começado a ceder sob a pressão crescente e estava procurando uma forma de apressar seu caso.

Meses antes, o governo ofereceu enviar Neptune para tratamento médico na República Dominicana, mas o preso recusou-se a deixar o Haiti até que seu nome estivesse limpo.

(Na terça-feira, o ministro da justiça Bernard Gousse renunciou, o que pode acabar com um último obstáculo à liberação de Neptune).

O governo haitiano bloqueou várias tentativas de dois repórteres do New York Times de visitarem Neptune. Na última quinta-feira, um repórter no Haiti que trabalha para o Times fingiu ser amigo da família e obteve permissão de ficar com ele por sete minutos.

O ex-senador estava macérrimo e mal podia falar. Mesmo assim, estava limpo e arrumado, penteado, de gravata borboleta perfeitamente alinhada. Ele não sabe ao certo se vai ser liberado em breve. Mas se for, vai passar um tempo nos EUA para se recuperar, com sua esposa e filha. Mesmo assim, ele disse que não ia deixar o Haiti por muito tempo.

"Voltarei. Tomei a decisão e nunca vou viver no exílio. Vou ficar aqui. Acho que posso ser muito mais útil no Haiti que nos EUA. O Haiti precisa mais de mim." Ex-primeiro-ministro diz que há vingança contra aliados de Aristide Deborah Weinberg

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