UOL Notícias Internacional
 

16/06/2005

Província chinesa rompe o silêncio, admite problema com a Aids e luta contra a doença

The New York Times
Jim Yardley

Em Gejiu, China
A pequena fachada se parece com a de uma lojinha de qualquer centro de cidade. Mas, por detrás dela, funcionários do setor de saúde oferecem exames de HIV e fornecem metadona a usuários de drogas. No andar de cima, um grupo sem fins lucrativos oferece aconselhamento e apoio a vítimas do HIV e da Aids.

Não muito longe, um outro grupo abriu um centro para que pais de usuários de drogas troquem informação sobre como evitar o HIV. Em outro escritório, as prostitutas da cidade, que são mais de mil, recebem preservativos, exames de HIV e conselhos de graça, no sentido de se evitar que contraiam o vírus.

Aqui no montanhoso sudoeste da China, onde a heroína gera a Aids, e esta traz a morte, a discriminação e a negação, Gejiu está emergindo como um modelo de como o país tenta agora reverter o seu outrora terrível histórico relativo à doença.

Nos últimos 18 meses, os principais líderes da China fizeram da Aids uma prioridade nacional e introduziram uma série de novas políticas, algumas delas controversas até mesmo para os padrões ocidentais.

Não faz muito tempo que a China negava que tivesse um problema com a Aids e tentava ocultar a verdade sobre um programa de venda de sangue que infectou milhares de camponeses. Mesmo agora, a polícia em algumas cidades ainda prende e assedia ativistas que lutam contra a Aids, ou procura ocultar a existência da doença.

Mas locais como Gejiu estão começando a implementar as novas políticas do governo central, incluindo o fornecimento de agulhas e a distribuição de preservativos nos quartos de hotel. E o Ministério da Saúde quer ampliar tais programas. A China possui atualmente oito clínicas de metadona, mas pensa em expandir esse número para 5.000 até 2010.

"Ainda há muitos países nos quais isso é contra a lei", diz Peter Piot, diretor-executivo da Unaids, referindo-se ao fornecimento de agulhas e ao programa de metadona.

Os problemas remanescentes são vários e intimidantes. O sistema de saúde pública rural da China está à beira do colapso, e poucos funcionários de saúde contam com treinamento apropriado para lidarem com o HIV ou a Aids.

Só uma em cada nove pessoas infectadas sabe que é portadora do vírus. Um programa de distribuição gratuita de drogas antiretrovirais introduzido às pressas pelo governo apresenta sérios problemas, e um em cada cinco pacientes o abandona.

Mas especialistas internacionais concordam que a nova resposta do país supera em muito as da Índia e da Rússia, os outros gigantes regionais que apresentam problemas ainda mais graves com relação à Aids. E a recente vontade política exibida por Pequim para enfrentar o problema impressionou muita gente que se mostrava cética.

"Está claro que a liderança nacional e a desta província estão levando esse problema bastante a sério", disse Randall Tobias, que chefia o programa de combate a Aids do governo Bush, durante uma visita conjunta com Piot à província de Yunnan.

Segundo Piot, o momento da virada ocorreu em 2003, quando a rápida e inesperada disseminação da Sars mostrou ao governo que doenças transmissíveis poderiam representar não só uma ameaça á saúde pública, mas também um risco político.

"Acredito que o fator que fez mais diferença foi a Sars", afirmou. "Nada foi mais importante do que o medo gerado pela Sars em termos de potencial para desestabilizar a sociedade".

A mudança de atitude foi assinalada em dezembro de 2003, quando o primeiro-ministro Wen Jiabao se reuniu com pacientes de Aids, um passo repetido mais tarde pelo presidente Hu Jintao.

Esses passos simbólicos foram acompanhados pela duplicação do orçamento do governo para a Aids e por várias políticas novas, como a distribuição de agulhas e de preservativos (até 2002, a propaganda de preservativos era proibida na China).

Especialistas na China e no exterior previram que mais de 10 milhões de chineses poderia ser infectados pelo HIV até 2010 caso o governo não incrementasse rapidamente as medidas de combate à doença. Desde 2003, o governo chinês estima que 840 mil indivíduos são HIV positivos e que outros 80 mil têm Aids. Acredita-se que cerca de 150 mil outras pessoas com Aids tenham morrido.

A heroína entra na província de Yunnan a partir dos vizinhos Vietnã, Laos e Mianmar. Os primeiros casos de infecção por HIV na província foram relatados em 1989.

Com uma população de 44 milhões de habitantes, Yunnan possui atualmente apenas 200 funcionários do setor de saúde treinados para lidar com a doença. As autoridades calculam que a província possua 80 mil indivíduos infectados, a maioria deles composta por usuários de drogas que disseminaram a doença ao compartilharem agulhas.

Em Gejiu, uma cidade de 310 mil pessoas localizada na rota predileta dos traficantes de drogas, campanhas iniciais de exames de Aids revelaram mais de mil indivíduos portadores do HIV, quase todos usuários de drogas ou prostitutas. Tong Waiyuan, vice-prefeito, explicou que o novo plano de Yunnan, "Uma Medida, Seis Projetos", inclui fornecimento de agulhas e preservativos, além de mais exames, educação e aconselhamento.

"Toda a sociedade está envolvida", explica Tong, usando um broche da campanha contra a Aids enquanto fala com Piot e Tobias.

Piot e Tobias passaram três dias em Yunnan a fim de ressaltar a cooperação entre os Estados Unidos e a Organização das Nações Unidas (ONU) no combate à Aids. Eles escolheram Gejiu porque alguns projetos aqui estão sendo financiados com dinheiro internacional, incluindo algum dos Estados Unidos.

Ao contrário de outras províncias, Yunnan recebeu bem a ajuda externa. O Reino Unido, a Austrália e, mais recentemente, os Estados Unidos, estão entre os países que fornecem assistência.

Quase todos os projetos em Gejiu têm menos de um ano e estão apenas começando a se transformar em uma rede viável de prevenção e tratamento da Aids. Mas ainda há grandes desafios pela frente.

Na clínica de metadona, financiada em parte com dinheiro norte-americano, Ming Xiangdong diz que mais de 270 usuários de drogas buscaram ajuda desde que a instalação foi inaugurada em abril de 2004. A demanda é tão grande que uma segunda clínica, maior, foi aberta no início de junho.

Mas os regulamentos do governo dizem que somente os usuários de drogas que foram expulsos dos centros oficiais de desintoxicação podem se qualificar para o programa da metadona - ou seja, só os usuários mais crônicos.

No Centro de Mulheres de Gejiu, que também recebe ajuda norte-americana, prostitutas recebem educação e treinamento para a prevenção do HIV e a utilização de preservativos, assim como aconselhamento a respeito de como trocarem de profissão.

"Conheço muitas mulheres portadoras de HIV", disse uma mulher no centro, que usava um vestido branco e trazia um telefone celular pendurado em um longo colar verde. "Todas elas ainda estão trabalhando".

Ela diz que os funcionários do centro tentam fazer com que as prostitutas infectadas deixem as ruas ou que pelo menos usem preservativos. Mas a prostituição muitas vezes é o trabalho disponível mais bem pago.

No momento em que as autoridades do setor de saúde começaram a alcançar as prostitutas e os usuários de drogas, funcionários da segurança pública de Yunnan deram início a uma campanha de repressão. Os funcionários de saúde temem que uma recente campanha de repressão em toda a província contra os usuários de drogas faça com que as pessoas infectadas pelo HIV se escondam, aumentando, em vez de reduzir, o risco à saúde pública.

"Eles estão fazendo com que um grupo de pessoas se transforme em algo como um inimigo da sociedade", diz Yang Maobin, diretor do Daytops, um programa sem fins lucrativos na capital provincial de Kunming, que ajuda os usuários de drogas a deixarem o vício.

Em outras províncias, a situação costuma ser bem pior. Um novo relatório feito pela organização Human Rights Watch revelou que os ativistas de combate à Aids ainda são assediados por autoridades locais. Sites da Internet que disseminam informações sobre a Aids a gays foram tirados do ar.

E em um incidente bastante divulgado, a polícia invadiu um centro de tratamento em uma cidade sulista e prendeu usuários de drogas que se reuniam com funcionários do setor de saúde.

Um outro desafio imediato para o governo central é a disponibilidade limitada de drogas antiretrovirais. Muitos pacientes não suportam o tratamento oferecido pelo programa de medicamentos gratuitos, mas o governo ainda não conta com uma alternativa.

Negociações estão em andamento com as companhias farmacêuticas, mas a China resiste ao licenciamento compulsório de medicamentos ou a qualquer outra medida que possa infringir as leis de patente.

Mesmo assim, o governo está seguindo adiante em várias frentes. O número de clínicas de metadona deve chegar a mil até 2007. Neste mês, autoridades do setor de saúde em Pequim anunciaram planos de âmbito nacional para aumentar a distribuição de agulhas, assim como para persuadir um número maior de prostituas a usar preservativos.

"Para promover o controle da Aids na província de Yunnan, temos uma longa jornada pela frente e precisamos superar muitas contradições", diz Chen Juemin, diretor do departamento de saúde da província. "Já temos alguns resultados e realizações. Mas isso tudo é só um primeiro passo". Sistema de saúde pública no interior do país está à beira do colapso Danilo Fonseca

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