UOL Notícias Internacional
 

17/06/2005

Campanha eleitoral do Irã termina com violência

The New York Times
Michael Slackman*

Em Teerã, Irã
Terminou nesta quinta-feira (16/06) uma campanha incomum no Irã, definida por candidatos que enfatizaram plataformas moderadas de reforma do sistema e marcada, mesmo assim, por extraordinária violência.

James Hill/The New York Times 
O presidente Mohammad Khatami pede a trabalhadores votos para ser reeleito na 6ª
Nos dias que antecederam a eleição presidencial houve 12 atentados a bomba, que mataram mais de 10 pessoas e feriram dúzias de outras. Um escritório de campanha foi incendiado, ferindo seriamente um voluntário.

Pessoas foram agredidas enquanto faziam campanha, cartazes foram rasgados e, na quinta-feira, dia anterior ao das votações, o presidente advertiu que havia uma campanha de truques sujos para prejudicar a disputa.

"Parece haver um movimento organizado para prejudicar o processo glorioso das eleições", escreveu o presidente Mohammad Khatami em uma carta citada pela mídia oficial.

Sem identificar quem estava por trás do movimento, Khatami disse na carta que estava se referindo à "perturbação de reuniões, ataques, panfletos ilegais e mentiras para arruinar as reputações dos candidatos, independentemente de inclinação política."

Os iranianos estão acostumados à violência política, e os confrontos da polícia com manifestantes são quase uma rotina. Mas as explosões que ocorreram pelo país geraram preocupações de que os extremistas políticos teriam agravado suas táticas.

Alguns dos conservadores, que controlam os braços religiosos todo-poderosos do governo, acusaram os EUA de enviarem "mercenários" para reduzirem o número de eleitores votantes e embaraçarem o governo islâmico.

No entanto, um coro crescente de reformistas culpou as forças conservadoras extremistas pela violência. As pesquisas mostram que os candidatos dos conservadores não devem se sair bem nas eleições na sexta-feira, e que talvez nem cheguem ao segundo turno.

"Nunca tivemos questões de segurança no país antes das eleições", disse Saeed Laylaz, analista político e jornalista que escreveu para vários jornais reformistas.

"Precisamos ver quem está perdendo o jogo no último minuto. Parece que alguém não está gostando do que vai acontecer na sexta-feira." Sem deixar dúvidas de quem suspeitava, ele acrescentou: "Os conservadores perderam o jogo."

Os atentados também serviram para marcar as tensões abaixo da superfície no Irã, onde a ansiedade e o medo existem lado a lado com imagens de um processo de eleição democrático. Manifestantes foram agredidos pela polícia anti-motim na quinta-feira, por repetirem slogans contra o governo em um parque público.

Uma testemunha disse que os manifestantes estavam cantando sobre a liberdade quando a polícia anti-motim aproximou-se a pé e de motocicleta e atacou a multidão. A testemunha era um segurança de uma loja -que saiu para ver o que estava acontecendo e também apanhou.

"A polícia veio e bateu nas pessoas indiscriminadamente", disse o homem, que não quis dar seu nome por temer represálias.

Há sete candidatos na disputa para presidente --um oitavo retirou-se na quarta-feira. O primeiro lugar é considerado Ali Akhbar Hashemi Rafsanjani, que já foi duas vezes presidente e está concorrendo como moderado pragmático.

Dr. Mostafa Moin, candidato reformista que foi inicialmente impedido pelos conservadores religiosos de entrar na disputa, saltou nas pesquisas e pode chegar ao segundo lugar, segundo comentadores políticos.

Nenhum dos candidatos deve ter mais do que 50% dos votos, quantidade exigida para a vitória em primeiro turno, então a disputa deve ser decidida em um segundo turno marcado para a próxima semana.

Os partidários de Moin dizem que a violência em todo o país aumentou quando as perspectivas de seu candidato melhoraram. "Tudo teve motivação política. A situação mudou quando as pesquisas mostraram que o Dr. Moin estava em segundo lugar e que os conservadores não iam para o segundo turno", disse Issa Saharkhiz, assessor de Moin, durante uma entrevista na sede de seu comitê.

Acreditava-se que muitos eleitores reformistas, que votaram em números recordes para eleger Khatami em 1997 e em 2001, iam boicotar essa eleição, abrindo as portas para os candidatos conservadores. Mas no final da disputa, a candidatura de Moin subitamente tornou-se razoável.

Agora, seus opositores temem que aqueles que pensavam em boicotar as eleições irão votar. A teoria dos partidários de Moin é que as explosões tinham a intenção de manter esses eleitores em casa.

Os partidários de Moin ficaram ainda mais perturbados na quinta-feira, quando um escritório da campanha na pequena cidade de Hormoj, perto do Golfo Pérsico, foi incendiado, ferindo seriamente um de seus voluntários. Saeed Shariati, repórter do jornal Iqbal, que defende Moin, confirmou que membros do partido tinham certeza de que tinha sido proposital.

O ministro do interior, Abdolvahid Moussavi Lari, disse em uma conferência com a imprensa na quarta-feira que os atentados a bomba não estavam todos diretamente ligados entre si e que uma das primeiras explosões, em Ahvaz, perto da fronteira iraquiana, tinha sido obra de um "grupo terrorista profissional" que tinha contato com pessoas no exterior. Ele disse que algumas prisões foram feitas e que haveria mais, porém não deu mais detalhes.

Apesar de não dizer quais seriam os responsáveis, o ministro disse que, quanto ao resto das explosões, os investigadores concluíram que havia um elemento político envolvido.

"Os que estão por trás dessas explosões queriam criar medo e intimidação antes das eleições", ele disse.

*Colaborou Nazila Fathi. Projetos moderados são duramente reprimidos no país dos aiatolás Deborah Weinberg

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