UOL Notícias Internacional
 

17/06/2005

Julgamento revive ameaças contra direitos civis

The New York Times
Shaila Dewan

Em Philadelphia, Mississipi
Tão logo a noticia sobre onde eles estavam se espalhou, deveriam ter partido. Um homem que alugou a casa para eles foi ameaçado. A mulher de um pastor lhes deu um apartamento, mas não havia água corrente e eles tiveram que ir a um hotel de propriedade de um negro todas as manhãs para se lavarem, entrando furtivamente pela porta dos fundos porque eram brancos.

Quando conseguiram um telefone, este tocava constantemente. As pessoas do outro lado da linha diziam a Rita Schwerner que o seu marido era um homem morto. O número da placa do seu carro foi distribuído entre os policiais.

Foram essas as boas vindas dadas pelo Mississipi a um jovem casal que veio de Nova York em 1964 para participar do movimento pelos direitos civis, disse na quinta-feira (16/06) a um tribunal Rita Schwerner, que atualmente se chama Rita Bender.

Ela foi a primeira testemunha no julgamento de um ex-membro da Ku Klux Klan acusado de orquestrar o assassinato do seu marido, Michael Schwerner, e de dois outros militantes do movimento pelos direitos civis, James Earl Chaney e Andrew Goodman, há mais de 40 anos.

Articulada e serena, com cabelos grisalhos curtos e um sorriso suave e triste, Bender falou ao júri sobre o seu casamento com Michael Schwerner --ela tinha 20 anos, ele 22-- e a mudança, logo depois, para o sul.

Ela também comentou o desaparecimento do marido próximo a Philadelphia, quando ela estava em um programa de treinamento em Ohio, e como, quando retornou ao Mississipi após saber das notícias, o único lugar em que pôde ficar foi o hotel de propriedade de um negro, onde contou com a proteção de uma guarda organizada por pastores negros que ficou a postos do lado de fora.

Foi uma descrição detalhada de um período no qual o terror era comum e a mera iniciativa de ajudar pessoas poderia colocá-las em risco. O júri prestou bastante atenção, mas o réu, Killen, 80, não estava presente na sala de julgamento. Ele se retirou, reclamando de falta de ar e de uma "sensação sufocante", disse o seu advogado, e saiu da sala em uma maca.

Após um recesso, o juiz que preside o caso, Marcus Gordon, anunciou que Killen estava em um hospital passando por exames e que o julgamento seria reiniciado na sexta-feira de manhã caso os médicos aprovassem.

Killen, um operador de serraria e pregador que está em uma cadeira de rodas devido à queda de uma árvore que sofreu em janeiro, esteve no tribunal durante o primeiro período da manhã, quando o júri discutiu as questões relativas aos procedimentos durante o julgamento. Mas quando o júri entrou para participar do primeiro dia de depoimentos, o seu advogado, James McIntyre, se aproximou do juiz e pediu permissão para que o seu cliente se retirasse.

Devido à saúde debilitada de Killen, a sala de julgamento conta com uma cama e uma enfermeira. Com a permissão de Killen, o julgamento prosseguiu sem a sua presença, e Bender foi a primeira testemunha a depor.

O júri não foi informado sobre o motivo da ausência de Killen porque o juiz não quis que eles fossem induzidos a simpatizar com o réu devido à sua condição física.

Com o procurador-geral do Estado, James Hood, a questionando, Bender, atualmente uma advogada residente em Seattle, descreveu o centro comunitário para crianças que ela e o marido ajudaram a abrir em Meridian, Mississipi, a cerca de 48 quilômetros de Philadelphia.

Michael Schwerner e Chaney, que era de Meridian, construíram instalações para armazenar livros doados que não estavam disponíveis nas bibliotecas públicas para negros. Havia uma mesa de pingue-pongue. Mas eles também estavam tentando ajudar os negros a se registrarem para votar, faziam contatos e procuravam locais para fornecerem treinamento eleitoral.

Michael Schwerner e Chaney visitaram a Igreja Metodista Unida Mount Zion, uma igreja negra em Neshoba County, próxima a Philadelphia.

Em junho, quando eles estavam em uma sessão de treinamento em Ohio, onde conheceram Goodman, souberam que os líderes da igreja foram espancados por membros da Ku Klux Klan, e que a igreja foi completamente queimada, contou Bender.

Nesse ponto da narrativa, Gondon gentilmente chamou a atenção de Bender, dizendo que ela estava falando muito baixo. "Desculpe", disse ela. "É que o assunto me emociona".

Na sala de julgamento, o marido de Bender e parentes de Chaney observavam, assim como Bettie Dahmer, filha de Vernon Dahmer, um outro defensor dos direitos civis no Mississipi, cujo assassino foi julgado e encarcerado em 1998. Dois homens ocupavam uma fila de cadeiras reservada para a família de Killen.

Bender falou mais alto, dizendo que o marido, que era conhecido como Mickey, e Chaney, a quem ela chamava de "J.E.", decidiram retornar ao Mississipi imediatamente para ver o estado em que ficara a igreja.

"Eles precisavam voltar e falar com essas pessoas", disse ela. "Não se abandonam pessoas que se colocaram em situação de risco". Os dois homens, juntamente com Goodman, entraram no automóvel station wagon azul que os Schwerner usavam e retornaram ao Mississipi.

Eles chegaram em segurança a Meridian, no dia seguinte, no domingo, 21 de junho, e seguiram para Philadelphia para ver a igreja. Mais tarde, naquela noite, Rita Schwerner recebeu uma ligação telefônica dizendo que eles não haviam retornado.

Eles estavam desaparecidos havia dois dias quando Rita Schwerner descobriu que o station wagon fora encontrado, queimado, no pântano Bogue Chitto, em Neshoba County.

A essa altura ela estava no aeroporto de Cincinnati, seguindo de volta para o Mississipi. Coincidentemente, uma colega defensora dos direitos civis, Fannie Lou Hamer, estava lá, e as duas receberam a notícia juntas. Hamer, neta de escravos, abraçou Rita Schwerner e as duas choraram. "As nossas lágrimas se misturaram", disse Bender.

Temendo pela segurança de Rita Schwerner, os defensores dos direitos civis providenciaram para que ela fosse acompanhada por uma escolta até Neshoba County. "Eu queria ver o carro queimado", disse ela. "E não parava de insistir quanto a isso".

O veículo estava em uma garagem, totalmente queimado por dentro e apoiado em blocos de concreto porque os pneus haviam se derretido, contou ela. Durante o questionamento, McIntyre tinha essencialmente apenas uma pergunta para Bender. Ela tinha algum conhecimento de um envolvimento de Killen nos assassinatos?

Bender disse que não.

Sob o sol escaldante na área em frente ao tribunal, Bender aproveitou a atenção que lhe foi dispensada por jornalistas para defender uma idéia que vem repetindo desde 1964, quando autoridades estaduais disseram publicamente que o desaparecimento dos militantes era apenas um ardil para atrair atenção.

"Vocês estão tratando esse julgamento como o mais importante do movimento pelos direitos civis porque dois dos três homens mortos eram brancos", afirmou.

"Isso significa que temos uma discussão sobre racismo neste país que precisa continuar. E se o julgamento é uma forma de vocês reconhecerem isso, de todos nós reconhecermos isso, e se implicar em uma discussão aberta, então esse processo tem um sentido".

No início da manhã, o juiz disse que admitiria a apresentação de transcrições do julgamento federal de 1967 sobre o caso, no qual 18 homens, incluindo Killen, foram acusados de conspirar para negar às três vítimas os seus direitos civis. Sete homens foram condenados, mas o júri não chegou a uma conclusão quanto ao caso de Killen devido a um impasse no júri.

Testemunhas-chave daquele julgamento já morreram, mas os promotores pretendem apresentar os seus depoimentos a partir de transcrições. A defesa procurou impedir o uso desses antigos testemunhos.

Após Bender, uma segunda testemunha foi chamada, mas mal começou a responder às perguntas quando o juiz recebeu uma mensagem e subitamente mandou o júri deixar novamente a sala. Killen havia recebido oxigênio, e os paramédicos o estavam conduzindo ao County General Hospital.

No final da tarde, Patrick Eakes, chefe da unidade de tratamento intensivo do hospital, disse aos repórteres que Killen provavelmente seria capaz de retornar ao tribunal pela manhã.

Ele tem pressão alta, e teve um surto de hipertensão, disse o médico, explicando que isso talvez se devesse aos ferimentos resultantes da queda. Quando pressionado, ele admitiu que o pico de pressão possa ter sido causado pelo estresse do julgamento.

"Imagino que a pressão de todos naquela sala provavelmente esteja um pouco alta neste momento", disse Eakes. Assassinos de ativistas são julgados por crimes cometidos em 1964 Danilo Fonseca

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