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18/06/2005

Reformista, moderado e conservador disputam segundo turno das eleições no Irã

The New York Times
Michael Slackman

Em Teerã, Irã
Pela primeira vez desde a revolução islâmica em 1979, o Irã terá um segundo turno nas eleições presidenciais. Nenhum dos sete candidatos na disputa conseguiu 50% dos votos na sexta-feira (17/06), segundo anunciou um porta-voz no início de sábado.

A votação terminou às 23h de sexta-feira --depois de as votações terem sido prolongadas por quatro horas para acomodar os muitos eleitores atrasados.

Uma autoridade anunciou que a escolha ficará entre dois de três candidatos: Ali Akhbar Hashemi Rafsanjani, que já foi duas vezes presidente e concorreu como moderado; Dr. Mostafa Moin, ex-primeiro-ministro e membro do Parlamento, que concorreu como reformista; e Mahmood Ahmadinejad, prefeito ultra-conservador de Teerã que, até o final da votação, não apareceu entre os primeiros nas pesquisas de opinião.

As cédulas de papel, em grandes caixas de papelão, foram contadas durante a noite, e as autoridades disseram que esperavam os resultados preliminares até a manhã de sábado. O segundo turno será na próxima sexta-feira, dia 24.

No dia da votação, os governantes pareciam mais preocupados com a quantidade de eleitores que iriam às urnas do que com quem venceria a disputa.

Os líderes religiosos essencialmente controlam o país e temiam um boicote à eleição, o que, para eles, minaria a credibilidade do sistema. No entanto, tarde da noite na sexta-feira, o Ministério do Interior informou que as eleições contaram com a participação de cerca de 55% dos eleitores --muito menos do que os 90% que foram às urnas em 1997 para eleger o presidente Mohammad Khatami, ou os 68% que votaram em sua reeleição em 2001.

Mesmo assim, a participação nas eleições na sexta-feira foi mais do que razoável, melhor do que as últimas eleições parlamentares.

"Não importa em qual desses sete candidatos votaremos. De fato, estamos votando no regime e na constituição, essas duas coisas. É por isso que as pessoas participam das eleições", disse o líder supremo aiatolá Khamenei, logo após lançar sua cédula.

Durante a sexta-feira, os líderes da nação fizeram o que podiam para levar as pessoas a votarem, usando desde sedução até a culpa.

"As pessoas sentem que têm a responsabilidade de votar. Elas sentem que os inimigos estão acompanhando de perto nosso país. A mídia estrangeira vem dizendo que a participação será muito baixa", disse Ehsan Aikkhani, âncora de um canal estatal, em comentários transmitidos por todo o país.

Durante as preces de sexta-feira, os eleitores também foram lembrados de sua obrigação de votar. "A grande participação do povo na nona eleição presidencial indica que o neocolonialismo e a arrogância global estão sendo confrontados com uma nação grande e nobre", disse o aiatolá Mohammad Emami Kashani.

Com sete candidatos na disputa, e nenhum liderando as pesquisas de opinião, poucos quiseram prever o resultado no início do dia. Zahra Eshraghi, 41, neta do falecido aiatolá Khomeini e defensora ativa de Moin, apreciou incerteza em torno do resultado.

Ela disse que demonstrava como o povo tinha conseguido tirar o controle dos governantes. "O governo ficou enganando as pessoas, e agora elas estão enganando o governo", disse Eshraghi, propositora do movimento de reforma.

Um anúncio oficial nesta semana revelou que o país tem 46.7 milhões de eleitores, dos quais cerca de 35 a 40% têm menos de 30 anos de idade.

Os iranianos podem votar a partir dos 15. Os sete candidatos --um oitavo desistiu nessa semana-- voltaram suas campanhas aos jovens eleitores, prometendo maiores liberdades sociais, maiores liberdades civis e melhor economia com menos desemprego.

Esperando aparentar juventude, um candidato tirou os óculos e posou para as fotografias de campanha usando lentes de contato coloridas. Rafsanjani, clérigo de nível médio, tomou o passo previamente impensável de aparecer em público sem seu turbante.

Mesmo Ahmadinejad, prefeito de Teerã famoso por suas opiniões ultra-conservadoras, tentou moderar seu tom. Em discurso divulgado pela imprensa iraniana, ele disse: "O islã sem justiça não é o islã."

Enquanto as campanhas se concentraram em propostas para melhorar a qualidade de vida no Irã, a nação passou por 12 atentados a bomba durante os últimos dias da disputa.

O governo disse que muitos dos atentados tinham a intenção de impedir as pessoas de irem às urnas, enquanto os reformistas disseram que a intenção era afastar seus partidários. Duas outras bombas foram encontradas e desarmadas, disse a Agência Iraniana de Notícias na sexta-feira.

Os eleitores pareciam preocupados em votar ou desafiar a liderança ficando em casa. O conflito ficou evidente nas seções eleitorais, tanto no bairro rico de norte de Teerã, onde as pessoas vivem em casas com portões de ferro, quanto nos bairros decadentes do sul.

"Quem vai ouvir o que eu tenho a dizer. Temos que escolher entre ruim e pior", disse Fatahen Amadzadeh, 34, enquanto passava por uma seção eleitoral na porção sul de Teerã.

Enquanto Sahar Ghassemi, 25, entrava na seção eleitoral em uma escola no sul de Teerã, um jovem, Mohammed, que não quis dar seu último nome, gritou: "Não vou votar. Vou manter meus dedos limpos". Ele disse que estava irritado com o ritmo lento de mudanças no país. "Procurei emprego e eles me perguntaram sobre a minha religião. Que tipo de país é esse?" indagou.

Ghassemi deu meia volta. "Você está fazendo um grande erro", disse ela. "Você está fazendo exatamente o que os conservadores querem." A mesma cena se passou em diferentes partes da cidade. Em uma rua tranqüila e arborizada no Norte, Sepideh Saidi, 23, e seu namorado estavam saindo de uma mesquita que servia de seção eleitoral.

Ela tinha votado. Ele não. Como outras pessoas que não votaram, seu namorado, Hamed, não quis dar seu nome todo, temendo represálias. "Não consegui convencê-lo e ele não conseguiu me convencer", disse Said. "É uma verdadeira democracia. Cada pessoa tem seu ponto de vista."

*Colaborou Nazila Fathi. Etapa final da disputa presidencial ocorre na próxima sexta-feira Deborah Weinberg

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