UOL Notícias Internacional
 

19/06/2005

Moderado iraniano diz que linhas-duras fraudaram a eleição presidencial do país

The New York Times
Michael Slackman*

Em Teerã, Irã
A confusão tomou conta da disputa presidencial no Irã neste sábado (18/06), quando um dos candidatos mais votados acusou os linhas-duras conservadores de terem fraudado a eleição e ameaçou continuar a expor o caso publicamente a menos que o líder supremo do país ordene uma investigação independente --uma ação ousada em um país que geralmente não tolera tais formas de dissensão pública.

A acusação de Mehdi Karroubi, um clérigo conhecido como conciliador, e não um encrenqueiro, acrescentou uma dose de confusão e incerteza à corrida, no momento em que as autoridades esperavam finalizar os resultados eleitorais, anunciar os planos para o segundo turno e apresentar o resultado como uma validação do sistema de governo do país, baseado na religião.

O Ministério do Interior divulgou os supostos resultados finais na noite de sábado [horário local], dizendo que o ex-presidente por dois mandatos, Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, enfrentará o prefeito ultraconservador de Teerã, Mahmoud Ahmadinejad. Não se sabe que efeito as acusações de fraude terão sobre o segundo turno.

Um elemento de bizarro foi adicionado ao caso porque Ahmadinejad, que estava mais atrás nas pesquisas de opinião pré-eleitorais, anunciou horas antes do ministério divulgar os resultados que ele estaria no segundo turno.

O governo não respondeu imediatamente às acusações de manipulação dos votos, mas uma nuvem tem pairado sobre a disputa desde as primeiras horas da manhã, quando o Ministério do Interior viu seus resultados serem contestados publicamente na televisão estatal pelo Conselho Guardião, a junta controlada pelos clérigos linhas duras que tem a palavra final sobre todas as ações do governo. Ele tem, por exemplo, o poder de rejeitar unilateralmente o resultado de qualquer eleição.

Inicialmente, o Ministério do Interior declarou Rafsanjani em primeiro, Karroubi em segundo e Ahmadinejad em terceiro. Meia hora depois o Conselho Guardião, que supostamente não deve se envolver na contagem dos votos, disse que Ahmadinejad estava em primeiro lugar.

Aparentemente esperando evitar um conflito público embaraçoso, o presidente de saída, Mohammad Khatami, visitou pela manhã o local onde os votos estavam sendo contados e ofereceu palavras de garantia.

"Todos os nossos esforços têm sido pela realização de um eleição saudável e pela proteção dos votos das pessoas", disse Khatami em comentários transmitidos para todo o país. "Eu vim aqui para agradecer as autoridades do Ministério do Interior e para assegurar que os votos estão sendo contados cuidadosamente. Se alguém fez algum comentário contrário, ele não é correto."

Mas o esforço fracassou quando as acusações de Karroubi também foram repetidas por assessores do dr. Mostafa Moin, o candidato reformista que ficou em quinto após as pesquisas de opinião o apontarem disputando o segundo lugar.

Apesar de os assessores de Moin não terem se identificado, por medo de represália, eles apresentaram acusações semelhantes às feitas por Karroubi, que acusou o Conselho Guardião e a Guarda Revolucionária de tentarem fraudar a eleição.

"Ocorreram interferências; eles receberam dinheiro", disse Karroubi enquanto pedia ao líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, para formar uma comissão independente para investigar o governo e o resultado da eleição.

Ao se declarar candidato no segundo turno, Ahmadinejad considerou as palavras de Karroubi como sendo as palavras de um mau perdedor. Ele disse que Karroubi deve olhar a forma como fala porque ele é um clérigo, e que suas acusações "não são corretas".

"É óbvio que aquele que perdeu está protestando agora", disse Ahmadinejad. "Eu esperava que Karroubi, que é um clérigo e veste roupas sagradas, fizesse comentários com mais propósito."

Quando os eleitores votaram na sexta-feira, as pesquisas de opinião, que são realizadas por agências controladas pelo governo, mostravam Rafsanjani em primeiro lugar, com Moin e o ex-chefe de polícia, Mohammad Baqer Qalibaf, disputando o segundo. Mas os resultados desconcertaram as expectativas.

"É muito estranho", disse Hermidas Davoud Bavand, um professor de lei internacional da Universidade Alameh em Teerã, sobre os resultados. "Levando em consideração a popularidade dos candidatos, palpites e suposições, ninguém previa isto."

Ao tentar explicar seu sucesso saído do nada, analistas disseram que parece que a candidatura de Ahmadinejad passou a representar o último esforço do movimento conservador para refrear uma sociedade que está se movendo cada vez na direção de idéias mais liberais, enquanto o apelo de Karroubi era mais pragmático: ele oferecia dar US$ 60 por mês para cada iraniano caso fosse eleito.

A oferta de dinheiro foi condenada pela elite política e pelos intelectuais urbanos como uma manobra ridícula para conquistar votos --mas que poderia muito bem ser aceita pelos pobres do campo, cuja preocupação está mais concentrada em ter meios para alimentar e vestir suas famílias do que na direção ideológica do país, disseram analistas políticos.

"US$ 50 ou US$ 60 por mês poderiam fazer uma grande diferença para uma família com quatro ou cinco filhos", disse Ahmad Zeidabadi, um analista político em Teerã. "Estas famílias devem pensar que se ele mantiver sua promessa, ótimo, caso contrário, ele é apenas igual aos outros."

Mas outros viram uma mão sombria no processo eleitoral. Um assessor de Moin disse que sua campanha tinha informação de que representantes do Conselho Guardião, que apenas deveriam monitorar os locais de votação, se envolveram na contagem dos votos.

Karroubi foi mais específico em suas acusações, dizendo que dinheiro foi pago em certas cidades para encorajar pessoas a votarem de certa forma, e que as autoridades realmente pressionaram as pessoas a votarem em candidatos apoiados pelos líderes religiosos linhas duras.

"Eu acho que algumas das bases de poder mudaram a decisão", disse ele em sua coletiva de imprensa. "Eu tenho documentos. Eu posso mostrar fitas para provar que ocorreram discursos para fazer as pessoas votarem em certos candidatos."

O Conselho Guardião também tentou interferir no cálculo de quantos eleitores compareceram às urnas. Os líderes religiosos conservadores do país apontam para o comparecimento dos eleitores como uma validação do sistema de governo do Irã, e estavam ansiosos para ver um grande presença de eleitores nos locais de votação. Muitas pessoas disseram que planejavam boicotar a eleição para negar credibilidade ao sistema.

O Ministério do Interior disse que 28,8 milhões de votos foram contados, com um comparecimento de quase 62%, e que Rafsanjani ficou em primeiro com 6 milhões de votos, Ahmadinejad ficou em segundo com 5,5 milhões e Karroubi ficou em terceiro com 5,3 milhões.

Mas o Conselho Guardião anunciou na manhã de sábado que o comparecimento foi de quase 70%. Khatami, cujos oito anos no cargo foram definidos em parte por sua relutância em confrontar publicamente os supervisores linhas-duras do Estado, manteve tal postura no sábado, durante sua visita ao Ministério do Interior enquanto os votos eram contados.

Quando questionado pelos repórteres iranianos sobre a diferença entre a contagem de votos do Conselho Guardião e do Ministério do Interior, Khatami disse: "Eventualmente elas deverão ser exatamente as mesmas. Um ou 2% não é importante".

*Contribuiu Nazila Fathi com reportagem. Resultado é muito diferente dos números previstos pelas pesquisas George El Khouri Andolfato

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