UOL Notícias Internacional
 

20/06/2005

Projeto do "ground zero" causa polêmica em NY

The New York Times
Nicolai Ouroussoff

Em Nova York
A esta altura, a maior parte nós já acabou aceitando que o "marco zero" (local onde ficava o World Trade Center) está arquitetonicamente condenado. Mesmo assim, o memorial para as quase 3.000 pessoas que morreram no 11 de setembro de 2001, considerado o centro espiritual do marco zero, tem sido discutido com sinceridade.

Em determinado momento, uma discussão intensa entre arquitestos, planejadores e familiares das vítimas chegou até a dar a impressão de que se acabaria chegando a um projeto relativamente coerente.

Porém, conforme ficou demonstrado pela discórdia quanto à vizinha Torre da Liberdade, nada aqui se desenrola sem problemas. A Lower Manhattan Development Corporation (Corporação de Desenvolvimento da Baixa Manhattan) está discretamente se preparando para finalizar os planos para o memorial até meados de julho.

Mas, após dois anos e meio de reparos, a cidade provavelmente acabará contando com um memorial voltado para turistas --gente que não consegue se concentrar por muito tempo em determinado assunto--, e não com um projeto que enfatize seriamente a perda de vidas humanas.

E o pior é que as constantes revisões continuam a engolir espaços destinados aos vivos, ameaçando transformar o local em um parque temático assombrado pela morte.

O projeto original, feito pelo jovem e inexperiente arquiteto Michael Arad, era notável pela sua simplicidade: uma praça vasta e árida pontuada por dois vazios gigantescos, cujos espelhos d'água tinham como objetivo evocar a ausência das torres gêmeas.

Mas, trabalhando segundo a aparente premissa do "quanto mais, melhor", a corporação de desenvolvimento inseriu no projeto a empresa de arquitetura Davis Brody Bond, e o arquiteto paisagista Peter Walker para contribuir para o design, uma decisão que gerou mais brigas.

Pouco a pouco, o esquema foi inchando para incluir um centro memorial subterrâneo, ocupando mais de 9.000 m², um salão memorial, um salão familiar e um outro para os despojos dos mortos.

Parte desse inchaço é compreensível, apesar de completamente equivocado. O que se pediu aos projetistas, basicamente, foi que criassem ao mesmo tempo um memorial e um espaço fúnebre --um monumento público e um local para o luto privado.

Para isso, os arquitetos projetaram um salão particular para as famílias das vítimas ao lado do "salão público de contemplação". Eles agoras estão acatando os pedidos para que haja uma entrada particular no memorial, de forma que os familiares possam evitar as multidões de turistas.

Mas, por mais coerentes que tenham sido as intenções dos planejadores, o memorial está cada vez mais derrapando para campo do sentimentalismo banal.

Os problemas começam acima do solo. No desenho original de Arad, a praça era um espaço deserto e varrido pelo vento, como se tivesse sido retirado de um filme de Antonioni --um clichê da alienação moderna (pensem em Monica Vitti correndo sozinha em uma piazza vazia usando saia e sapatos de salto alto).

Argumentando que tal desenho era demasiadamente desnudo, Walker pontilhou o local de árvores. E para dar um toque mais emocional, incluiu trilhas de granito arranjadas em uma série de linhas paralelas ligando as ruas Greenwich e West.

Mas a formalidade opressiva das trilhas tinha mais em comum com os jardins de Versalhes do que com as paisagens onduladas da, digamos, Nova York do arquiteto Frederick Law Olmsted. Onde a proposta de Arad era taciturna, os complementos de Walker são irritantes.

E o mais importante, Walker fez com que a fronteira entre as partes do memorial dedicadas à memória dos mortos e aquelas que deveriam pertencer aos vivos ficasse difusa. Nesse processo, ele presta um desserviço a ambas. Quanto mais nítido for o contraste entre as duas zonas --a morte no subterrâneo, e a vida acima-- mais efetiva será cada uma delas.

Isso deve ser algo óbvio para qualquer pessoa familiarizada com o Memorial do Vietnã em Washington, considerado por muitos como sendo o padrão supremo para projetos de memoriais nos Estados Unidos do século 20.

O lendário muro de granito negro daquele memorial foi concebido para ser um corte profundo no cenário luxuriante do Washington Mall, uma cicatriz no tecido democrático que mantém o país unido.

No princípio, Arad tinha algo de semelhante em mente. No seu desenho original, um par de rampas construídas nas extremidades dos dois vazios descia até as galerias, onde os visitantes circulariam em torno dos espelhos d'água antes de subirem de volta para o solo.

Embora o plano carecesse da clareza notável do Memorial do Vietnã, um projeto de Maya Lin, ele era promissor. E, em um mundo mais decente, Arad teria sido encorajado a explorar o seu conceito de forma mais profunda e sensível.

Em vez disso, as trapaças incessantes --a maior parte delas por parte da corporação de desenvolvimento e dos seus elementos contratados na Davis Brody-- drenaram do desenho qualquer vitalidade que ele poderia possuir.

A visita ao subsolo é agora dolorosamente direta. Os visitantes descem por uma rampa única de 120 metros construída entre os dois espaços vazios.

E o anteriormente discreto salão central através do qual os visitantes ingressariam inchou a tal ponto que há o risco de que ele venha a dominar toda a experiência da visita subterrânea. Desse ponto, uma segunda rampa conduz até o nível do solo.

Essas novas rampas, que dão a sensação de dobrarem o percurso devido à sua extensão, provavelmente darão uma sensação de claustrofobia. E o pior é que o fato de estarem localizadas no centro do conjunto permitirá que os visitantes entrem e saiam rapidamente, evitando totalmente o circuito em torno do memorial de espelhos d'água, sabotando assim a intenção original de Arad.

Para mim, tal abordagem traz à memória os funerais motorizados que foram brevemente populares no meio-oeste há cerca de uma década. Os indivíduos prestavam homenagem aos mortos de dentro do casulo fechado dos seus carros, passando em frente a uma tela de vídeo.

Ambos os projetos são vinculados a uma cultura da distração, que prefere que as experiências emocionais sejam cuidadosamente sanitizadas.

Enquanto isso, no lugar de uma vigorosa narrativa arquitetônica, os projetistas deixaram de lado todos os salões destinados a exibições didáticas e às famílias dos mortos.

O projeto original incluía um "salão de contemplação" de 930 m² diretamente abaixo do local onde existia a torre norte. Agora esse local está reservado para uma sala para as famílias e uma outra para os despojos dos mortos, ambas dando a impressão de serem espaços que sobraram e foram destinados a armazenagem.

O aglomerado de câmaras subterrâneas faz lembrar uma antiga tumba egípcia em vez de uma abstração límpida como, por exemplo, o memorial de Lin.

Enquanto isso a corporação de desenvolvimento procura determinar que exibições utilizará no chamado centro memorial. Entre os itens que estão sendo objeto de consideração há as fotografias das vítimas e as fichas com as suas realizações pessoais, além de um fragmento de uma das fachadas das torres e um caminhão de bombeiros esmagado.

Essa abordagem simplista não é puramente norte-americana. Em Berlim, o recém-terminado Memorial dos Judeus Assassinados da Europa inclui um pequeno centro de informações, que lembra um bunker, em vez de se basear nas formas abstratas do memorial para comunicar a idéia da amplitude do horror do Holocausto.

Ainda assim, com a maioria dos sobreviventes do Holocausto já morta, o centro de informações do memorial deriva das ansiedades naturais relativas ao esquecimento.

Já no marco zero, o fluxo de informação e emoção se aproxima perigosamente do kitsch. Isso faz com que se indague se um memorial digno da enormidade dos fatos poderá ser criado em um intervalo tão reduzido de tempo. E faz também com que nos lembremos de que a abstração pode ser a força mais potente para a transmissão da perda, seja ela coletiva ou intensamente pessoal.

Os perigos dessa tendência à interpretação literal são evidentes no debate delicado sobre como exibir os nomes dos mortos. No projeto de Arad, os nomes das vítimas seriam dispostos aleatoriamente, para evitar a criação de uma idéia de hierarquia.

Quase que imediatamente após ele ter vencido a concorrência pelo projeto, os bombeiros disseram que desejavam que os seus nomes fossem exibidos separadamente. Desde então, alguns familiares das vítimas argumentaram que desejam que os nomes dos mortos sejam agrupados pelas companhias para as quais trabalhavam, ou por andares dos edifícios.

Mas isso significaria segregar as vítimas que foram mortas fora dos edifícios. O que fazer, por exemplo, com os nomes daqueles que morreram no Pentágono? Ou nos aviões? Ou aqueles que tomavam café da manhã no Windows of the World (o restaurante que ficava no 107º andar de uma das torres)?

Onde colocar os seus nomes? Essas questões simplesmente não são práticas. Qualquer segregação desse tipo reforça a idéia de que temos a propensão de fazer distinções entre o valor das vidas humanas individuais - uma mensagem que parece ser especialmente perversa em tal clima politicamente carregado.

A solução racional de Arad foi criar um padrão de "adjacências significantes", estabelecendo relações entre as vítimas que seriam detectadas por aqueles que as conheciam. Por exemplo, nomes de membros da mesma família poderiam ser colocados lado a lado, da mesma forma que certos companheiros de trabalho.

Ao sugerir um padrão de associações particulares, quase subliminares, Arad se recusou a impor uma narrativa sobre o que ocorreu naquela manhã, ou a emitir um julgamento sobre quem merece ser homenageado. Tal neutralidade novamente faz pensar no Memorial do Vietnã, no qual se lêem nomes de cima para baixo. De fato, quando alguém se detém em um nome, está reconhecendo como igual o nome que o antecede.

Isso também faz pensar no local do Estádio Olímpico de 1936, projetado por Werner March sob ordens de Hitler. Lá, os nomes de dois atletas judeus estão entre dezenas de outros gravados em uma série de simples pilares de pedras que trazem os nomes dos alemães olímpicos.

Acredita-se que Hitler permitiu a inclusão dos dois nomes devido a objetivos políticos durante os jogos. A preservação desses nomes, sem nenhum comentário, é um dos memoriais mais poderosos que eu já vi.

Pode ser tolice esperar tal clareza em um memorial do 11 de setembro, uma data ainda tão dolorosa na memória. O Memorial do Holocausto foi encomendado meio século depois do fim da 2ª Guerra Mundial; o Memorial do Vietnã foi inaugurado quase uma década após o retorno das tropas norte-americanas.

Mas a menos que a Corporação de Desenvolvimento da Baixa Manhattan retire algumas das bobagens visuais do projeto do marco zero, será impossível vincular qualquer pessoa ao local, viva ou morta. O que o memorial requer é um silêncio eloqüente - um silêncio que proporcionaria um consolo coletivo em vez de um campo de distrações. Local pode se tornar um parque temático assombrado pela morte Danilo Fonseca

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