UOL Notícias Internacional
 

21/06/2005

Líderes do Irã alertam candidato que fez acusação de fraude na eleição presidencial

The New York Times
Michael Slackman

Em Teerã, Irã
O círculo interno da liderança iraniana contra-atacou na segunda-feira contra um dos seus, censurando um candidato presidencial e importante conselheiro por suas acusações de que a eleição tinha sido manipulada. Em um alerta austero, o líder supremo do país disse que não permitirá "que alguém provoque uma crise" no Irã.

Enquanto o candidato, Mehdi Karroubi, um conselheiro do líder supremo e um ex-presidente do Parlamento, apresentava suas queixas contra os linhas duras e militares, o candidato mais votado, Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, disse apoiar o pedido de Karroubi de investigação.

Em uma declaração divulgada pela imprensa daqui, Rafsanjani, um importante membro da revolução que estará no segundo turno presidencial na sexta-feira, disse também acreditar que a votação no primeiro turno foi manipulada.

"Durante a eleição, nós testemunhamos certas interferências organizadas visando direcionar os votos das pessoas, e não sabemos onde isto levará se tal comportamento for institucionalizado", ele disse, acrescentando que gostaria de uma investigação a respeito do "protesto e queixa do meu querido irmão, sr. Karroubi, sobre a eleição em certas cidades".

Em sua censura na segunda-feira, o governo linha dura fechou dois jornais que planejavam publicar as acusações de Karroubi de fraude eleitoral.

Karroubi disse que a eleição foi manipulada por elementos das forças armadas iranianas, juntamente com milícias, conhecidas como basiji, que são controladas pelos linhas duras e pelo Conselho Guardião, o conselho controlado pelos clérigos que tem a palavra final sobre todas as ações do governo.

Nesta segunda-feira (20/06), ele renunciou aos seus cargos no governo e prometeu dar início a um novo partido de oposição. Karroubi acusou que em algumas cidades pessoas foram pagas para votarem de certa forma, que algumas pessoas foram autorizadas a depositar múltiplos votos e que pessoas que participaram na conspiração encheram urnas.

Os críticos da eleição não disseram explicitamente, mas ficou claro que acreditam que o governo estava tentando ajudar a candidatura do prefeito ultralinha-dura de Teerã, Mahmud Ahmadinejad. Ahmadinejad, que foi um basiji e um membro da Guarda Revolucionária, saltou de uma das últimas posições entre os oito candidatos para chegar ao segundo turno contra Rafsanjani. Ele tem negado as acusações de fraude, dizendo que são palavras de um mau perdedor, e tem se concentrado na campanha do segundo turno.

Na campanha para o segundo turno, Ahmadinejad e seus simpatizantes se espalharam pelo país para promovê-lo como um homem do povo capaz de injetar sangue novo no sistema. O prefeito de Teerã é um religioso linha dura. Simpatizantes disseram que esperam que ele reverta as liberdades sociais autorizadas pelo presidente de saída, Mohammad Khatami.

O Conselho Guardião disse no domingo que a votação no segundo turno prosseguirá como planejado caso não receba uma queixa formal. Não se sabe se alguém impetrou alguma até a noite de segunda-feira, mas um simpatizante de Karroubi disse que não faz sentido confiar em um conselho que está acusando de corrupção para averiguar tal queixa.

Em uma declaração breve divulgada na noite de segunda-feira pela Agência Estudantil de Notícias iraniana, o Conselho Guardião disse que recontará 100 urnas.

O conselho, como de costume, não forneceu qualquer explicação. (Posteriormente na segunda-feira, a agência de notícias "The Associated Press" citou uma declaração do Conselho Guardião, feita na televisão estatal, de que concluiu a recontagem e que mantêm os resultados eleitorais.)

Karroubi, que foi o mais votado em 11 províncias por todo o Irã, mais do que qualquer outro candidato, ameaçou ir à público com suas acusações caso o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, não interviesse.

Na segunda-feira, as agências de segurança impediram Karroubi de cumprir sua ameaça ao fechar dois jornais, ambos associados a partidos políticos reformistas, que tinham planejado imprimir uma declaração de quatro páginas de Karroubi.

Sem nenhuma outra alternativa, Karroubi a postou na Internet juntamente com uma cópia da resposta que recebeu de Khamenei.

A resposta era dura e irada e sugere que o aiatolá se sentiu traído pelo membro de seu círculo interno.

"O que você disse está além de sua posição e visa provocar uma crise no país", disse a declaração. "Você está ciente do que está fazendo? Você está ciente de que o está fazendo visa criar uma crise e pessimismo entre a população, e está de acordo com o que nossos inimigos querem fazer com a revolução e a república islâmica, e que o farão com você também?"

Os comentários do aiatolá concluíram: "Outros podem ter protestos semelhantes. Você acha que eles também devem ter o direito de questionar tudo? Eu não esperava isto de você. E não permitirei que alguém provoque uma crise neste país".

Karroubi disse que ele teve que renunciar ao seu posto como conselheiro do líder supremo e membro do Conselho de Conveniência, o poderoso conselho que ajuda a mediar disputas entre o governo eleito e o Conselho Guardião.

Ele e muitos de seus simpatizantes se reuniram na segunda-feira para discutir o que farão a seguir. Ali Akbar Mohtashamipou, um clérigo radical que já serviu como ministro do Interior, disse que Karroubi e seus seguidores acreditam que o governo precisa realizar um novo primeiro turno nas cidades de Isfahan, Qum e Teerã.

Muitas pessoas apontaram que particularmente na votação de Isfahan, onde os resultados mostraram Ahmadinejad recebendo 800 mil votos entre os 1,7 milhão depositados, tal número parece inchado.

"A questão é de interferência das forças armadas e das forças basiji na eleição", disse ele. Enquanto a reunião prosseguia noite adentro, Rafsanjani tentou usar o conflito em seu benefício, esperando convencer as pessoas que votar nele significa votar contra o extremismo.

Mas a questão toda ressaltou a fragilidade da candidatura de Rafsanjani. Apesar de grupos reformistas e outros críticos da liderança linha dura terem dito que trabalharão contra Ahmadinejad, eles não endossaram Rafsanjani com entusiasmo.

"Nós achamos que devemos deixar as coisas claras para as pessoas a respeito de Ahmadinejad", disse Abdullah Moneni, um membro do principal movimento estudantil do Irã, o Escritório para Promoção da Unidade. "Ele não é bom para nossa nação. Por outro lado, nós não estamos dizendo para as pessoas votarem em Hashemi."

Tentando olhar mais além, Moneni insinuou que o espetáculo de conflito no alto escalão do governo poderá ajudar sua causa.

"Se não pudermos promover mudanças", disse ele, "então não é ruim os altos líderes brigarem entre si". Segundo turno será realizado entre moderado e ultraconservador George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h16

    -0,05
    3,173
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host