UOL Notícias Internacional
 

21/06/2005

Professor é preso na China por estuprar 26 alunas

The New York Times
Jim Yardley

Em Xinji, China
O professor sempre mandava uma menina comprar seus cigarros. Ele deixava a sala de aula sem supervisão e aguardava em seu escritório. Quando a menina voltava para a sala de aula com as bochechas coradas e o cabelo desalinhado, os outros alunos não diziam nada.

Du Bin/The New York Times 
O professor Li Guang é acusado de estuprar alunas de escola primária no interior chinês
Por quase três meses, o professor, Li Guang, estuprou 26 alunas da quarta e quinta série nesta aldeia rural, disseram pais e autoridades. Algumas meninas foram estupradas mais de uma vez já que Li as atacava em um rodízio diário. Ele foi descoberto quando uma menina de 14 anos se recusou a ir à escola na manhã seguinte por temer que seria sua "vez". Ela não queria ser estuprada pela terceira vez.

"A escola é onde nossas crianças aprendem", disse Cheng Junyin, a mãe da menina de 14 anos. "Nós achávamos que era o lugar mais seguro para elas."

Este é o tipo de caso terrível que em muitos países seria um escândalo nacional, mas que na China foi abafado pela censura do Estado. Tal silêncio equivale ao silêncio no âmago do caso: o fato de os estudantes considerarem o professor tão poderoso que não ousavam falar.

De fato, mesmo enquanto as convenções da sociedade chinesa são sacudidas pelo tumulto da modernização, a reverência confucionista aos professores continua forte, particularmente em áreas isoladas como esta aldeia rural na província de Gansu, no oeste da China.

Os pais concedem carta branca aos professores, alguns até mesmo aprovam surras, enquanto os estudantes são treinados a honrar e obedecer os professores, nunca desafiá-los.

"A autoridade absoluta dos professores nas escolas é um dos motivos culturais para os professores não temerem fazer o que querem", disse Yang Dongping, um importante especialista em sistema educacional da China.

Mas a modernização tem ajudado a tirar muitos professores de áreas mais pobres como Gansu. A baixa remuneração em áreas rurais e melhores oportunidades nas cidades têm provocado uma escassez de professores em muitas áreas pobres. Um estudo revelou que 35% dos professores em aldeias partem em um período de três anos.

Resta às escolas mais pobres a contratação de professores mais baratos, muitos deles pouco qualificados, uma tendência que tem coincidido com uma perturbadora série de casos de abuso sexual.

Yang disse que surras eram bem mais comuns que estupro, mas notou que em 2003 o Ministério da Educação publicou uma lista de 10 casos nos quais professores estupraram alunos.

Em dezembro de 2003, um professor na província rural de Shaanxi foi executado pelo estupro de 58 meninas em 15 anos. Em outubro passado, uma adolescente na região central rural da China tentou cometer suicídio depois que um professor a forçou a assisti-lo estuprar sua prima.

Li, 28 anos, poderá ir à julgamento até o final de junho, segundo um funcionário do judiciário em Dingxi, a cidade onde o caso será julgado. Se ele for condenado, ele poderá enfrentar uma pena de no mínimo 10 anos de prisão ou possivelmente a pena de morte.

Autoridades locais de ensino assim como promotores se recusaram a ser entrevistados sobre o caso, limitando-se a confirmar que o julgamento ocorrerá em breve. A imprensa controlada pelo Estado na China permaneceu em silêncio, exceto por um breve artigo inicial de jornal noticiando a prisão de Li.

Mas uma visita a esta aldeia encontrou famílias que expressaram raiva por tal violação da confiança. A aldeia fica a quase seis horas da capital provincial, Lanzhou, as últimas três horas por uma estrada de terra que atravessa as montanhas e onde os caminhoneiros depositam doações em uma caixa de bênçãos como oferendas por uma travessia segura.

As ruínas de antigas fortificações no alto são um lembrete dos clãs que antes governavam esta terra remota. Até hoje a aldeia é tão isolada que as pessoas coletam água de chuva para beber.

A agricultura é o ganha-pão básico, apesar de fornecer apenas subsistência para algumas famílias, que freqüentemente adiam o envio dos filhos à escola para evitar as taxas.

As meninas geralmente são as primeiras a serem mantidas em casa, e algumas só começam a estudar aos 9 ou 10 anos. A classe de quarta série de Li tinha cerca de 50 alunos, entre os quais 26 meninas, com idades variando entre 10 a 14 anos. Ao todo, a escola tem mais de 900 alunos, que vêm de um punhado de aldeias próximas.

Zhang Shengxia, 10 anos, era uma das meninas mais jovens da classe de Li e uma que teve sorte. Ela disse que os estupros começaram no outono passado quando o professor passou a escolher as meninas, uma após a outra. As garotas conversavam entre si sobre o que estava acontecendo mas não ousavam contar para ninguém.

Dentro da classe, disse Shengxia, Li às vezes abusava fisicamente tanto de meninos quanto de meninas ao ordenar que subissem uns sobre os outros em sua mesa. "Mesmo naquele momento nós tínhamos medo de chorar", disse ela.

À medida que as semanas passavam , diariamente Li ou enviava as meninas para buscarem seus cigarros ou simplesmente as chamava ao seu escritório.

"Quando o professor chamava uma aluna, ela tentava fugir ou gritar", lembrou Shengxia. No dia em ele chamou o nome dela, segundo ela, "ele me disse: 'Não escute as coisas ruins que os outros alunos falam sobre mim'". Ele a mandou buscar os cigarros, mas ela correu da escola para casa. Ela nunca foi estuprada.

"Eu fiquei assustada", disse ela. "Eu odeio ele."

"Eu odeio a escola", disse Zheng Gaiguo, 40 anos, a mãe de uma garota da quinta série. Sua filha tem 14 anos e foi estuprada uma vez. "O professor levou minha filha para o escritório e disse para ela: 'Não tenha medo. Sua mãe e seu pai estão fazendo isto'."

Os estupros duraram até a manhã em que a filha de 14 anos de Cheng Junyin se recusou a ir à escola. A notícia começou a se espalhar pela aldeia, e outras mães começaram a ouvir as histórias horríveis.

Jiao Zhencai, 35 anos, disse que sua filha de 12 anos foi estuprada duas vezes. Mas ela disse que as meninas tinham muito medo de enfrentar o professor. Em vez disso, disse Jiao, algumas das meninas trocavam dicas sobre como escapar do escritório do professor forçando a fechadura.

Os detalhes precisos do passado de Li continuam incertos. Ele cresceu em Xinji e trabalhou pela primeira vez como professor na aldeia de Qingpu, a poucas horas de distância.

Ele depois voltou para sua cidade natal para trabalhar em uma escola primária local. Os aldeões disseram que o primo dele trabalhava como diretor de ensino, um contato que disseram ter sido essencial para que ele obtivesse o emprego.

"Qualquer um que tem contatos no governo pode se tornar um professor, independente de ter freqüentado uma faculdade ou simplesmente uma escola vocacional", disse Tian Ziming, 40 anos, um tio da pequena Shengxia, que não foi estuprada. "Não é difícil obter um diploma."

As autoridades não divulgarão informação sobre Li, mas alguns aldeões disseram que ele também está sendo investigado por possíveis estupros na escola de Qingpu. Nove outros professores foram afastados da escola daqui, incluindo o primo de Li e o diretor. Nenhuma explicação foi dada para o motivo de tantos professores terem sido afastados.

Na cultura conservadora da China rural, a vergonha do estupro pode ser devastadora para muitas famílias. Algumas pessoas se recusam a falar com os promotores ou a se envolver no caso. Outras temem que suas filhas ficarão para sempre marcadas, além de poderem ficar estigmatizadas quando atingirem a idade de casamento.

Jiao, a mãe cuja filha foi estuprada duas vezes, poderá ter muita dificuldade para esquecer o que aconteceu. Seus vizinhos são os pais de Li. Ela disse que eles foram até a casa dela após a prisão do filho e a alertaram a não falar sobre o caso.

"Os pais dele vieram aqui e me perguntaram: 'Quantas pessoas sabem disto?' Eu disse: 'Todas as crianças da escola sabem disto'."

Ela disse ter dito a eles: "Todos têm filhos. E se isto tivesse acontecido a vocês?" Censura oficial do páis impediu que o caso fosse descoberto antes George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host