UOL Notícias Internacional
 

21/06/2005

Violência contra mulheres é rotina no Paquistão

The New York Times
Nicholas D. Kristof

Em Nova York
NYT Image

Nicholas Kristof é colunista
Quando o primeiro-ministro paquistanês o visitar no mês que vem, o presidente Bush provavelmente aproveitará a ocasião para reiterar o seu apreço pelo presidente Pervez Musharraf, chamando-o de "líder audaz dedicado à proteção do seu povo". Depois eles se sentarão para discutir o plano de Bush de vender ao Paquistão caças F-16 capazes de transportar armas nucleares.

Mas aqui vai uma sugestão: e quanto à declaração da Casa Branca de que, antes da chegada do ministro, este primeiro devolva o passaporte a Mukhtaran Bibi, a vítima de estupro que virou militante dos direitos humanos, de forma que ela possa visitar os Estados Unidos?

Apesar dos elogios de Bush, Musharraf demonstra mais compromisso para com os seus amados F-16 do que para com o seu povo. E agora ele está pagando o preço. Visitando a Nova Zelândia nos últimos dias, ele foi alvo de uma avalanche de perguntas sobre o motivo de ter perseguido uma vítima de estupro, o que o obrigou a cancelar todas as entrevistas.

Os jornais paquistaneses o criticaram intensamente por ter prejudicado a imagem do Paquistão. E a blogosfera assumiu o caso Mukhtaran, havendo mais de 100 blogs pedindo aos internautas que enviem uma chuva de e-mails aos consulados paquistaneses ou que participem dos protestos planejados para quarta e quinta-feira nas representações paquistanesas em Nova York e Washington.

Mas é fundamental lembrar que Mukhtaran é apenas uma parte de um problema muito maior --a negligência do governo Musharraf em relação aos infortúnios de mulheres e garotas.

No início deste ano, por exemplo, a médica Shazia Khalid denunciou ter sido estuprada por um grupo de homens em uma usina estatal de produção de gás natural. Ao invés de submetê-la a tratamento médico, as autoridades a drogaram até deixá-la inconsciente durante três dias a fim de mantê-la calada e, a seguir, a enviaram para um hospital psiquiátrico.

Quando ela continuou tentando denunciar o estupro, foi colocada sob prisão domiciliar em Karachi. A polícia sugeriu que, como tinha dinheiro, ela deveria estar trabalhando como prostituta. O marido de Shazia a apoiou, mas o seu avô teria sugerido que ela desgraçou a família e deveria ser morta.

Em média, uma mulher é estuprada a cada duas horas no Paquistão, e duas mulheres morrem por dia devido a crimes em nome da honra. Embora Mukhtaran e Shazia tenham atraído apoio internacional, a maioria das vítimas no Paquistão está por conta própria.

No início do ano, por exemplo, a polícia anunciou que um conselho municipal puniu um homem que mantinha uma relação extraconjugal, ordenando que a sua sobrinha de dois anos fosse dada em casamento a um homem de 40 anos.

Em outro caso ocorrido neste ano, uma menina de 11 anos chamada Nazan foi resgatada da família do seu marido, que a espancou, quebrou o seu braço e a pendurou no teto porque ela não trabalhava com energia suficiente.

Além disso há as leis paquistanesas hudood, que foram utilizadas para aprisionar milhares de mulheres que denunciaram estupros. Se as vítimas de estupro não forem capazes de apresentar quatro testemunhas do sexo masculino, correm o risco de serem chicoteadas por adultério, já que elas admitem a ocorrência de sexo e não são capazes de provar que houve estupro.

Quando um grupo de mulheres paquistanesas de classe média fez uma manifestação no mês passado por direitos iguais em Lahore, a polícia as espancou com cassetetes e as arrastou até a prisão.

Eles visaram especialmente Asma Jahangir, uma enviada especial da Organização das Nações Unidas (ONU) que é também diretora da Comissão de Direitos Humanos no Paquistão.

Jahangir diz que as ordens à polícia sobre como agir com relação a ela, dada opor um oficial de inteligência ligado a Musharraf, eram: "Ensinem uma lição à (palavrão). Arranquem a sua roupa em público". De fato, a polícia arrancou a sua camisa e tentou tirar a sua calça.

Se é dessa forma que Musharraf trata uma das mais famosas advogadas do país, imaginem o que faz com uma camponesa que reclame de injustiças.

Ouvi paquistaneses que, embora horrorizados com os assassinatos em nome da honra e estupros, se sentem embaraçados com o fato de o barbarismo no Paquistão virar manchete no exterior.

Uma palavra a esses cidadãos: eu entendo a sua posição defensiva, já que nós norte-americanos sentimos o mesmo com relação à Baía de Guantánamo e à prisão Abu Ghraib. Mas erradicar a brutalidade é uma estratégia melhor do que encobri-la, e qualquer nação deveria se sentir orgulhosa de produzir alguém como Mukhtaran.

Assim, enquanto se reunir com o primeiro-ministro paquistanês, Bush poderia discutir não só os F-16, mas também o fim das leis hudood. E Bush poderia convidar também Mukhtaran para comparecer ao Salão Oval, tanto para homenagear uma genuína heroína paquistanesa, mas também para ressaltar os objetivos dos paquistaneses comuns - não aviões de caça, mas a simples justiça. Estupros são freqüentes e impunes; elas chegam a ser negociadas Danilo Fonseca

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