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22/06/2005

Júri do Mississippi condena ex-integrante da Ku Klux Klan por assassinatos de 1964

The New York Times
Shaila Dewan*

Em Philadelphia, Mississippi
Naquele que provavelmente será o último capítulo em uma história que perturbou uma geração, um júri daqui pronunciou nesta terça-feira (21/06) Edgar Ray Killen culpado pelo homicídio de três jovens ativistas de direitos civis que desapareceram em uma noite de verão aqui, há exatamente 41 anos.

Lori Waselchuk/The New York Times 
O pastor Edgar Ray Killen, na cadeira de rodas, é levado sob custódia após ser condenado pelo assassinato de três ativistas em 1964 no conservador Estado do Mississippi
Killen, 80 anos, ficou sentado em uma cadeira de rodas, com os tubos finos e esverdeados do tanque de oxigênio sob seu nariz, com expressão impassível enquanto o veredicto era lido em voz alta. Por toda a sala do tribunal pessoas choravam.

A família Killen à direita, os parentes das vítimas à esquerda, assim como moradores da cidade ansiosos em ver o caso resolvido nos tribunais, na esperança de que o condado de Neshoba possa superar finalmente seu passado.

Roscoe Jones, um negro velho e alto com os olhos cheios de lágrimas, que trabalhou com os três homens, abriu caminho em meio à multidão para ficar ao lado de Rita Bender, uma mulher branca e de baixa estatura que era casada com um deles. "Com licença", ele disse, de forma educada mas urgente. "Com licença." Quando ele chegou até ela, eles se abraçaram.

O desaparecimento dos três homens, Andrew Goodman, 20 anos, Michael Schwerner, 24 anos, e James Earl Chaney, 21 anos, em 21 de junho de 1964, atraiu a atenção da mídia nacional e centenas de investigadores ao condado de Neshoba, enquanto as autoridades do Mississippi diziam publicamente que se tratava de uma farsa que visava atrair a atenção da mídia.

Quando os três corpos --dois brancos e um negro-- foram encontrados enterrados a mais de 4 metros de profundidade em uma fazenda próxima, o horror da nação ajudou a estimular o movimento dos direitos civis.

O caso, encenado no filme "Mississippi em Chamas", é um dos maiores entre aqueles que alguns têm chamado de "julgamentos de expiação" do Sul, que estão revendo atrocidades da época da luta pelos direitos civis.

Os jurados disseram que as evidências não eram suficientes para condenar Killen por homicídio doloso, como queriam os promotores. "Eu devo dizer que ouvi muitas declarações emocionadas de alguns jurados brancos", disse Warren Paprocki, 54 anos.

"Eles tinham lágrimas nos olhos, dizendo que se tivessem melhores evidências no caso eles o teriam condenado por homicídio doloso na hora. Nosso consenso foi de que o Estado não produziu um caso forte o bastante."

A defesa planeja apelar. "Pelo menos ele não foi considerado culpado de um ato premeditado", disse Jame McIntyre, um dos advogados de Killen. "Homicídio culposo é um ato negligente."

Apesar de o governo federal ter julgado 18 homens, incluindo Killen, sob acusação de conspiração em 1967, Killen --um pastor, operador de serraria e ex-membro da Ku Klux Klan-- foi o primeiro a ser indiciado pelo Estado.

Killen, que foi absolvido no caso de 1967 e manteve sua inocência neste julgamento, enfrentará 20 anos de prisão em cada indiciamento. Enquanto era levado para fora do tribunal, ele empurrava com as mãos as câmeras de televisão e os microfones.

Com testemunhas mortas e memórias falhando, Killen pode ser o único da turba de membros da Klan responsável pelos assassinatos a ser julgado. Os promotores disseram que um grande júri ouviu todas as evidências disponíveis contra os oito réus originais ainda vivos, mas apresentou apenas um indiciamento, contra Killen.

Apesar de alguns em Neshoba County dizerem que é tarde demais e doloroso demais revisitar o episódio, outros acham que ao fazê-lo o condado pode encontrar redenção.

"Finalmente, finalmente, finalmente", disse Jim Prince, o editor do jornal semanal local, o "Neshoba Democrat". "Isto certamente envia uma mensagem, eu acho, aos criminosos e assassinos de que a justiça reina em Neshoba County, diferente de 41 anos atrás."

Ben Chaney, o irmão mais novo de James Earl Chaney, disse que falou brevemente com sua mãe de 82 anos após o veredicto. "Ela está feliz", disse ele. "Ela finalmente acredita que a vida do filho dela tem algum valor para as pessoas desta comunidade."

Mas para alguns daqueles que esperavam ver Killen condenado por homicídio doloso, o veredicto de homicídio culposo não foi uma vitória total.

"O fato de alguns membros deste júri terem acompanhado todos os testemunhos, terem vivido aqui por todos estes anos e não reconhecerem que se trata de casos de homicídio doloso, de que foram cometidos com malícia, indica que infelizmente ainda há pessoas entre vocês que preferem olhar para outro lado, que preferem não ver a verdade", disse Bender, que foi casada com Schwerner, após o julgamento.

Para Nettie Cox, a primeira negra a concorrer à prefeitura em Philadelphia, o veredicto foi uma afronta. "Homicídio culposo", disse ela, colocando as mãos nas têmporas. "Eu não consigo engolir homicídio culposo."

Mas dois jurados entrevistados disseram que não havia evidência suficiente de que Killen, que foi acusado de orquestrar os assassinatos e recrutar a turba que executou o trabalho, tinha intenção de matar os três homens.

Tanto a defesa quanto a promotoria não conseguiram impressionar o júri de nove brancos e três negros. Os jurados disseram que nenhum lado apresentou testemunhas suficientes e que o caso dependia demais das transcrições do julgamento federal.

Na noite de segunda-feira, após mais de duas horas de deliberações, os jurados informaram ao juiz Marcus Gordon que estavam divididos e ele os dispensou para a noite. Mas após quase três horas de deliberações na manhã de terça-feira, eles chegaram a um veredicto unânime.

Muitos observadores e especialistas disseram que o homicídio culposo pode ter sido um veredicto de compromisso, uma avaliação que os jurados contestaram.

Troy Savell, um professor de história, disse que era inicialmente a favor da absolvição, mas sua opinião mudou durante as deliberações. "Eu acho que não existia a dúvida razoável de que ele não teve nada a ver com aquilo", disse Savell.

Paprocki disse que raça não teve influência nas deliberações. Um dos três negros no júri era fervorosamente a favor da condenação por homicídio doloso no início, disse Paprocki, mas ele não sabia ao certo a posição dos outros dois. O júri às vezes votava com o levantar das mãos e outras vezes por voto secreto em papel, disse ele.

Willis Lyon, o único dos três jurados negros que pôde ser contatado por telefone na terça-feira, disse: "A única coisa que direi sobre isto é que fomos os mais justos que pudemos com Killen. Eu acho que lhe demos o veredicto mais justo em seu benefício que podíamos".

Contatada por telefone, Shirley Vaughan, a primeira jurada, disse que estava emocionalmente esgotada pelo julgamento e relutante em falar. "Com a pouca evidência que tínhamos, nós fizemos o melhor que pudemos", disse ela. "Foi muito difícil. Eu me sinto realmente triste. Eu me sinto triste por todos os envolvidos."

Mark Duncan, o promotor do condado, disse que não culpa o júri por considerar Killen culpado por homicídio culposo em vez de doloso, apontando que três das quatro testemunhas-chave estão mortas.

"Eu acho que foi pedir demais ao júri condenar um homem com base no testemunho de pessoas que não podiam ver. Tudo o que tinham eram as palavras delas em papel. Então não posso criticar o júri de forma alguma."

Seu parceiro no processo, o procurador geral do Estado, Jim Hood, disse que duas testemunhas que se apresentaram desde que o caso foi reaberto em 1999 já morreram, uma por suicídio e a outra sob circunstâncias questionáveis.

Havia outros obstáculos para os promotores. Apesar de sete dos réus originais, fora Killen, ainda estarem vivos, eles se recusaram a testemunhar perante o grande júri em troca de imunidade, disse Hood. Se fossem chamados a testemunhar no julgamento, eles poderiam ter invocado o direito de não incriminarem a si mesmos, disseram os promotores.

Confissões e outras declarações sobre o crime não são admissíveis caso a testemunha não esteja disponível para interrogatório, eles disseram. Nem o fato de Killen, em um caso não relacionado, ter sido condenado por abuso por telefone, um crime, em 1975, porque ocorreu após os assassinatos.

Ao ser questionado sobre as possíveis conseqüências do julgamento, Hood disse: "Eu sou apenas um promotor, eu não finjo ser um sociólogo. Eu deixo para que os historiadores analisem o impacto que este julgamento poderá ter sobre esta comunidade, o Estado do Mississippi e sobre sua reputação em todo mundo".

Os jurados, por outro lado, disseram que estavam cientes da importância e simbolismo do julgamento. "Eu me senti deprimido na noite passada pela divisão de votos", disse Paprocki.

"Eu fiquei preocupado que no caso de não conseguirmos chegar a um veredicto, isto reforçaria os estereótipos preconceituosos que estão associados a Philadelphia e Neshoba County. Eu fiquei muito triste com o fato."

Mas na terça-feira, ele disse, "as pessoas que estavam simplesmente dizendo não, não podemos condená-lo, disseram: 'Bem, homicídio culposo'. Eu não sei o que aconteceu. Foi bem dramático. Me deixou uma forte impressão".

*Colaborou Ariel Hart com reportagem, em Atlanta. A condenação, por homicídio culposo, é considerada muito branda George El Khouri Andolfato

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