UOL Notícias Internacional
 

23/06/2005

Empresa da China faz oferta para comprar companhia de petróleo americana

The New York Times
David Barboza em Xangai, China e
Andrew Ross Sorkin em Nova York
Uma das maiores companhias estatais de petróleo da China fez uma oferta não solicitada de US$ 18,5 bilhões pela Unocal, nesta quinta-feira (23/06), lançando a primeira grande batalha de tomada de uma corporação americana por uma empresa chinesa.

A oferta ousada, da China National Offshore Oil Corporation (Cnooc), pode ser um divisor de águas no comportamento corporativo chinês, e demonstra a crescente influência na Ásia das táticas de tomada hostil de Wall Street.

A oferta também é o mais recente símbolo do crescente poder econômico da China e da ambição crescente de seus gigantes corporativos, particularmente quando se trata dos recursos de energia que necessitam desesperadamente para continuar alimentando o imenso crescimento do país.

A oferta da Cnooc, que ocorre dois meses após a Unocal ter concordado em ser vendida para a Chevron, a corporação de energia americana, por US$ 16,8 bilhões, deve provocar uma guerra de ofertas particularmente onerosa pela empresa sediada na Califórnia, uma grande companhia independente de petróleo americana. A oferta da Cnooc representa US$ 1,5 bilhão a mais do que o acordo da Unocal com a Chevron.

Além disso, a oferta deverá provocar um feroz debate em Washington sobre as políticas comerciais do país com a China e o papel dos dois governos na crescente tendência de negócios entre empresas de ambos os países.

No início desta semana, um consórcio de investidores liderado pelo Haier Group, uma das maiores empresas da China, fez uma oferta para aquisição da Maytag Corporation, um ícone americano de eletrodomésticos, por cerca de US$ 1,3 bilhão, superando uma oferta anterior feita por um grupo de investidores americanos.

No mês passado, a Lenovo, a maior fabricante de computadores da China, completou seu acordo de US$ 1,75 bilhão para aquisição da lendária divisão de computadores pessoais da IBM, criando a terceira maior fabricante de computadores do mundo, atrás da Dell e da Hewlett-Packard.

Após anos atraindo bilhões de dólares em investimento estrangeiro, e se transformando na maior fábrica do mundo, a China parece estar nutrindo o crescimento de seus próprios gigantes corporativos, tentando criar seus próprios faróis de capitalismo.

A China quer ser um membro atuante no cenário mundial e está disposta a ter suas próprias fontes de energia, suas próprias corporações multinacionais e seus próprios ícones corporativos.

E algumas das maiores empresas da China agora estão à caça de aquisições, tentando adquirir tesouros globais.

"Se há algum ativo à venda em qualquer lugar no mundo, as pessoas ficam de olho na China, particularmente se houver um elemento de manufatura envolvido", disse Colin Banfield, que administra fusões e aquisições no Credit Suisse First Boston na Ásia.

"E se estes dois negócios saírem neste ano, ninguém duvidará da credibilidade das corporações chinesas quando se tratar de fusões e aquisições."

Os negócios e guerras de ofertas são mais notáveis porque envolvem empresas chinesas interessadas na aquisição de multinacionais americanas, em uma série de negócios que certamente serão a sorte grande para advogados e banqueiros de investimento ocidentais, muitos dos quais têm apostado nos últimos anos centenas de milhões de dólares na ascensão da China.

De fato, a Cnooc está sendo orientada em sua oferta por um exército de banqueiros da Goldman Sachs, J.P. Morgan Chase e N M Rothschild & Sons da Grã-Bretanha.

Em resposta, a Unocal disse em uma declaração que seu conselho avaliará a oferta, mas que a recomendação de seu negócio com a Chevron "continua em vigor".

A oferta da Cnooc enfrenta uma batalha colina acima, com obstáculos acima dos normais enfrentados por uma oferta de tomada hostil. Legisladores em Washington já estão questionando se o governo Bush deve intervir para bloquear a oferta pela Unocal, que foi fundada em 1890 como Union Oil Company of California.

Dois congressistas republicanos da Califórnia, Richard Pombo e Duncan Hunter, escreveram uma carta na semana passada para o presidente Bush, após surgirem especulações sobre o negócio, pedindo que a transação seja examinada minuciosamente por preocupações de segurança nacional.

Em sua carta, eles escreveram: "Enquanto muda o cenário mundial de energia, nós acreditamos que é fundamental entender as implicações para os interesses americanos e, mais especialmente, a ameaça representada pela busca pela governo da China dos recursos mundiais de energia.

Os Estados Unidos precisam ver cada vez mais o atendimento de suas necessidades de energia dentro do contexto de nossa política externa, segurança nacional e agenda de segurança econômica".

Sam Bodman, o secretário de Energia dos Estados Unidos, disse em uma reunião do Conselho Nacional do Petróleo, na noite de quarta-feira, que a análise do acordo pelo governo será "um assunto realmente complexo", segundo a agência de notícias "Reuters".

Em Pequim, Liu Jianchao, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, disse aos repórteres na terça-feira que "isto é uma questão corporativa", segundo a "Bloomberg News".

"Eu não posso comentar este caso individual, mas posso dizer que encorajamos os Estados Unidos a permitirem que as relações normais de comércio transcorram sem interferência política."

Encorajadas pelo seu governo a expandirem rapidamente e se tornarem mais competitivas, as grandes corporações chinesas daqui estão varrendo o mundo em busca de grandes negócios que possam ajudar a garantir valiosos recursos naturais ou transformar empresas em crescimento em corporações multinacionais.

No início desta semana, a China Mobile fez uma oferta malsucedida de US$ 1,4 bilhão para adquirir ativos de telecomunicações no Paquistão. Em junho passado, a Shanghai Automotive, uma das maiores fabricantes de automóveis da China, adquiriu os direitos de propriedade intelectual da MG Rover, a fabricante inglesa em dificuldades.

E a Huawei, um das empresas de equipamentos de telecomunicação que mais crescem na China, concluiu um acordo para trabalhar com a Marconi, a fabricante de equipamentos de telecomunicação sediada em Londres.

A TCL, a empresa chinesa que começou fabricando fitas cassete em 1981, é repentinamente a maior fabricante de aparelhos de televisão do mundo, após a aquisição em julho passado da divisão de televisores da Thomson SA da França, que é dona da velha marca RCA.

As empresas chinesas ainda têm um longo caminho para se tornarem gigantes corporativas globais capazes de competir em pé de igualdade com Toyota, Siemens ou General Electric. A maioria dos negócios da China é de pequeno valor, entre US$ 1 bilhão a US$ 2 bilhões, em comparação aos grandes negócios americanos ou europeus.

Ainda não se sabe se a oferta da Cnooc terá sucesso por seus próprios méritos. A Cnooc está interessada na Unocal menos por sua exploração e produção na América do Norte, mas sim por suas imensas reservas na Ásia. 27% das reservas comprovadas de petróleo da Unocal e 73% de suas reservas comprovadas de gás natural estão localizadas na Ásia, segundo a Merrill Lynch.

Para vencer a oferta, a Cnooc terá que persuadir os acionistas da Unocal a votarem contra o acordo com a Chevron antes que a empresa seja autorizada a aceitar o acordo com a Cnooc. O novo acordo então terá que ser colocado sob outra votação dos acionistas.

Apesar da oferta da Cnooc ser US$ 1,5 bilhão superior à da Chevron, alguns acionistas poderão decidir que o processo de revisão regulatório e o tempo exigido para concluir o acordo com a Cnooc poderá representar um alto risco, dado o valor da oferta.

A Chevron, que também poderá elevar sua oferta para deter a Cnooc, está correndo para concluir o negócio com a Unocal e o colocar sob votação dos acionistas já em agosto.

A oferta totalmente em dinheiro da Cnooc valoriza as ações da Unocal em US$ 67 cada. O acordo em dinheiro e ações da Chevron valoriza as ações da Unocal em US$ 61,26 cada, com base no preço de fechamento da Chevron de US$ 58,27 na quarta-feira. As ações da Unocal apresentaram alta de 2,2%, para US$ 64,85, com a previsão dos investidores da oferta mais alta da Cnooc.

Na carta da Cnooc para a Unocal expondo sua oferta, a empresa não mediu esforços para dizer que sua oferta é amistosa, apesar de não solicitada.

"Esta proposta amistosa, inteiramente em dinheiro, é uma oferta superior para os acionistas da Unocal", escreveu o presidente e executivo-chefe da Cnooc, Fu Chengyu.

Tentando aplacar as preocupações de alguns legisladores em Washington, a Cnooc prometeu manter a prática da Unocal de vender todo o petróleo e gás produzidos nos Estados Unidos para os consumidores americanos. A empresa também disse que manterá praticamente todos os funcionários da Unocal nos Estados Unidos. Lance mostra poder econômico chinês e carência de combustíveis George El Khouri Andolfato

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