UOL Notícias Internacional
 

23/06/2005

Irmão de Bush persegue marido de Terri Schiavo

The New York Times
Bob Herbert

Em Nova York
NYT Image

Bob Herbert é colunista
"Afinal, o senhor não tem nenhum senso de decência?", perguntou Joseph Welch no seu famoso confronto com o patologicamente cruel Joe McCarthy, senador que perseguia artistas e políticos de esquerda na década de 50. "Não restou no senhor nenhum senso de decência?".

Mais de meio século depois, eu faria a mesma pergunta ao governador Jeb Bush.

Em um abuso de poder que foi amplamente denunciado, e que chegou mesmo a atemorizar vários dos seus próprios apoiadores no Partido Republicano, o governador Bush tentou manter vivo o circo Terri Schiavo ao mandar promotores estaduais promoverem uma caça às bruxas contra o marido de Terri, Michael.

O procurador-geral que foi pressionado pelo governador para levar o caso adiante me disse nesta quarta-feira (22/06) que não viu nada que indicasse que um crime fora cometido. No entanto, o inquérito continua.

O governador Bush pediu a Bernie McCabe, o procurador-geral do Condado de Pinellas, que "desse uma nova olhada" nesse caso já exaustivamente investigado a fim de determinar, entre outras coisas, se Michael Schiavo teria talvez esperado demais até telefonar pedindo ajuda, após descobrir que a sua mulher havia desmaiado no início de uma manhã há 15 anos.

McCabe não pareceu estar especialmente entusiasmado quando à sua missão. "Não poderia chamar isso de uma investigação", me disse ele em uma conversa ao telefone. A palavra "investigação", segundo ele, "é um termo artístico no meu ramo".

Ele a seguir explicou: "Quando realizo uma investigação, isso significa que me baseio em um fato criminal. Em outras palavras, que há alguma indicação de que um crime ocorreu. Esse é o meu trabalho. Mas nessa circunstância, não existe tal fato. Desta forma, o que estou procurando fazer é responder ao pedido do governador conduzindo aquilo que tenho chamado de um 'inquérito" para ver se posso resolver as questões por ele levantadas".

Ele deu gargalhadas quando usou a palavra inquérito. "Isso pode ser uma distinção sem uma diferença", afirmou.

Qualquer que seja o termo usado, a perseguição contínua movida pelo governador contra Michael Schiavo na ausência de qualquer evidência de que ele tenha feito algo de errado é um exemplo claro do poder governamental sendo usado como porrete para punir alguém por motivos políticos.

O assédio sem motivos contra um cidadão comum pela figura política mais poderosa no seu Estado é uma afronta à própria idéia de liberdade que o governador Bush e o seu irmão na Casa Branca gostam tanto de pregar.

A exploração política desse caso trágico foi singularmente grotesca.

Terri Schiavo morreu em 31 de março, após o tribunal ter ordenado a remoção da sonda que a alimentava. Uma necrópsia confirmou a alegação de Michael Schiavo de que a sua mulher vivia em um estado vegetativo permanente.

Ela estava inconsciente em relação a tudo e era incapaz de se recuperar. Ao morrer, aos 41 anos, o cérebro atrofiado de Terri Schiavo tinha a metade do tamanho do cérebro normal de uma mulher da sua idade.

O governador Bush foi um dos líderes da legião de políticos que se opôs veementemente às tentativas de Michael Schiavo de conseguir que a sonda de alimentação da sua mulher fosse removida.

Muito daquilo que foi dito foi ultrajante. Onze dias antes da morte de Schiavo, Tom DeLay declarou: "Terri Schiavo não tem um quadro de morte cerebral. Ela fala e ri, e expressa felicidade e desconforto. Terri Schiavo não está vivendo graças a aparelhos".

O senador Tom Coburn, republicano de Oklahoma e médico, disse: "Tudo o que se precisa fazer é vê-la na televisão. Qualquer médico dotado de consciência pode olhar para ela e concluir que Schiavo não padece de uma doença terminal e que ela tem alguma função".

Todos concordam que agora Terri Schiavo está morta, mas o governador Bush insistir em manter a loucura em andamento. Michael Schiavo disse que no decorrer dos anos a sua mulher desmaiou entre 4h30 e 5h e que ele imediatamente ligou para o 911 (telefone de emergência nos EUA). Ele sempre enfatizou que esse era um horário estimado. A sua ligação para o 911 foi registrada às 5h40.

Tente lembrar rapidamente com certa precisão o horário exato de um incidente traumático que ocorreu com você ou um parente dez ou 15 anos atrás. Isso não só é difícil, mas o grau de precisão se deteriora à medida que o tempo passa.

A perseguição contínua movida pelo governador Bush contra Michael Schiavo não é só sem sentido, ela é cruel e injusta. Eu pressionei McCabe, o procurador-geral. Se não há evidência de que um crime foi cometido, perguntei, então qual o propósito do inquérito?

"O meu objetivo é simplesmente responder ao governador. O governador me pediu para fazer algo, e tentarei fazê-lo", afirmou.

Sejam bem-vindos à política do poder, no estilo norte-americano. Governador da Flórida usa poder para punir por motivos ideológicos Danilo Fonseca

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