UOL Notícias Internacional
 

24/06/2005

Investigação de corrupção vai fundo no governo iraquiano

The New York Times
James Glanz

Em Bagdá, Iraque
As alegações de corrupção disseminada têm perseguido o governo iraquiano desde a invasão de 2003, quando bilhões de dólares para reconstrução e treinamento começaram a ser injetados no país. Muitos destes programas tiveram um impacto bem abaixo do esperado, mas rumores persistentes de que o dinheiro estava sendo desviado por autoridades corruptas eram praticamente impossíveis de serem comprovados.

Agora, um escritório montado originalmente pela ocupação americana para investigar a corrupção no Iraque acumulou as primeiras estimativas sólidas do problema. Os resultados provavelmente alimentarão as preocupações mais pessimistas sobre o destino do dinheiro.

Os abusos incluem favorecimento em acordos ou arrendamentos, contratos exorbitantes para coisas como coleta de lixo e pagamentos para construções que nunca foram realizadas.

Desde que começou a operar plenamente em julho passado, o escritório, agora administrado pelo governo iraquiano e chamado de Comissão para Integridade Pública, analisou mais de 814 casos de transgressões potenciais, produzindo 399 investigações que ainda estavam abertas no final de maio. Até o momento, mandados de prisão foram expedidos para 44 funcionários do governo iraquiano.

Os casos abertos incluem investigações em vários ministérios do governo do ex-primeiro-ministro, Ayad Allawi, e mandados para dois de seus ministros, disse Ali Al Shabot, porta-voz da comissão, que forneceu os dados durante entrevistas nesta semana.

Os casos envolvem não apenas o governo nacional, mas se espalha por todos os governos municipais e provinciais. Al Shabot se recusou a dar detalhes extensos sobre os casos individuais, citando processos pendentes. Mas uma conferência com algumas agências que enviaram queixas à comissão revelaram alguns negócios ilegais que não surpreenderiam as pessoas familiarizadas com a corrupção governamental no Ocidente, especialmente a corrupção da cidade grande.

Em um caso sob investigação, disse Mazin A. Makkia, chefe da câmara dos vereadores de Bagdá, o custo do trabalho de coleta de lixo quintuplicou em um ano, apesar do contrato original já ser considerado superfaturado. Em casos envolvendo dinheiro americano, disse Makkia, a câmara está investigando o que parecem ser projetos fantasmas de reconstrução -gastos que deixaram um rastro de papéis mas nenhum vestígio na paisagem da cidade.

"Está muito claro para onde foi o dinheiro", disse ele, sorrindo maliciosamente.

Mas além de sugerir que as empreiteiras e autoridades municipais enriqueceram ilicitamente, Makkia disse que não apontará dedos até que as investigações sejam concluídas.

A comissão, formada pelo ex-administrador chefe americano no Iraque, L. Paul Bremer, está legalmente autorizada a investigar a corrupção governamental desde 1968. Mas muitos dos casos mais proeminentes envolvem o governo de Allawi, levando o ex-primeiro-ministro a alegar que há motivação política por trás disto, uma acusação negada com veemência pela comissão.

"Nós não estamos visando o ex-primeiro-ministro", disse Al Shabot. "Não é verdade e é incorreto."

Outros casos relatados, especialmente em um país cujo sistema de saúde se encontra operando além de seus limites, fazem erguer as sobrancelhas até mesmo dos observadores mais cínicos do suborno oficial. Em Kut, uma cidade no sul, um funcionário é acusado de receber propina em um caso envolvendo um hospital público que foi indevidamente arrendado para uma cooperativa privada bem relacionada por 1.000 dinares iraquianos (cerca de 70 centavos de dólar) por ano, disse Abdul Jaleel Al Shemari, o vice-ministro da Saúde.

Outro envolve o possível superfaturamento e especificações técnicas incorretas em uma grande encomenda de ambulâncias do Canadá, disse Al Shemari. Os dois ex-ministros do Gabinete do governo de Allawi também são suspeitos de manipular vários tipos de contrato.

"Eles desperdiçaram dinheiro público", disse Al Shabot sobre os ministros, que ele identificou como sendo a ministra do Trabalho, Layla Abdul Lateef, e o ex-ministro dos Transportes, Louay Hatem Al Eris. "Abuso de autoridade", disse Al Shabot, listando as acusações. "Abuso do cargo para atender interesse pessoal."

Lateef, cuja casa foi invadida para uma busca policial, se recusou a comentar por intermédio de um parente. Acredita-se que Al Eris esteja viajando no exterior e não pôde ser contatado.

O ex-ministro da Habitação, Omar Al Farouk Al Damluji, disse em uma entrevista que também foi alvo de uma investigação da comissão na qual alegou inocência.

A questão da corrupção chamou a atenção do Ocidente nesta semana durante um encontro internacional em Bruxelas, Bélgica, quando Hussain Al Shahristani, o influente vice-presidente da Assembléia Nacional, disse que a corrupção atingiu "proporções desastrosas" desde 2003 e que, em conseqüência, alguns países não estão dispostos a enviar ajuda financeira. Al Shahristani fez seus comentários para a agência de notícias "Reuters".

Poucas autoridades iraquianas negam que algum grau de corrupção é um fato da vida em seu governo. Mesmo Allawi reconhece que quando esteve no governo, ele ordenou investigações de corrupção contra três de seus ministros após receber queixas.

Todos os três ministros estão entre aqueles que foram mencionados como alvos ou alvos potenciais da comissão, disse Allawi em uma entrevista. Mas ele disse que insistiu que as investigações fossem feitas em sigilo, diferente da prática da comissão, que ocasionalmente fala livremente para a imprensa árabe.

O ex-primeiro-ministro disse que durante seu mandato, ele ficou atônito ao saber que Al Damluji estava sendo investigado pela comissão por uma reportagem de rádio. Então, após sua saída, ocorreu a busca na casa de Lateef.

"Você sabe o que eles fizeram?" disse Allawi. "Eles enviaram polícias para invadirem a casa dela. Aquilo me lembrou os tempos de Saddam. E os vizinhos dela, a maioria deles ministros, vieram ajudá-la."

Allawi, um político xiita secular e membro da oposição em uma Assembléia Nacional dominada por um partido xiita com forte influência dos clérigos, insiste que há mais do que motivação política por trás do trabalho da comissão. Mas como entidade independente, a comissão não sofreu mudança de pessoal com a chegada do novo governo, possivelmente enfraquecendo tal alegação.

Al Shabot também apontou que a comissão só pode investigar as alegações e coletar evidências, eventualmente passando os casos criminais para os tribunais. Muitos casos se originam com os inspetores gerais nos ministérios e são às vezes enviados de volta às mesmas autoridades se uma punição administrativa em vez de criminal for necessária. Quase 130 casos foram lidados desta forma, disse Al Shabot.

Mas Allawi e seus simpatizantes questionam a afirmação de que não há motivação política. Apesar da composição da comissão não ter mudado, vários inspetores chegaram com o novo governo, disse Nesreen M. Siddeek Berwari, a ministra das obras públicas tanto no governo Allawi quanto no atual. Ela disse que estas autoridades exibiram inclinação política em seu trabalho. O novo inspetor do ministério dela é um xiita com laços estreitos com o novo governo, disse Berwari, uma curda que está sob suspeita de corrupção.

O novo inspetor se concentrou até o momento quase exclusivamente nos casos envolvendo árabes sunitas e curdos, disse ela, ilustrando o que ela considera como sendo o maior problema da comissão.

"Eu temo que os casos atuais sejam politicamente motivados", disse Berwari. "A nova pergunta -quão não corrupto é o escritório de integridade pública?" George El Khouri Andolfato

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