UOL Notícias Internacional
 

25/06/2005

Os adolescentes e os rituais do plástico

The New York Times
Jennifer Alsever
Os adolescentes são realmente volúveis: primeiro queriam cartões de crédito próprios, agora parecem não querer.

Isso não quer dizer que evitam todo tipo de plástico. Hoje em dia, suas carteiras estão cheias de outros cartões, inclusive de débito, que sacam dinheiro das contas bancárias, e uma série de cartões pré-pagos que têm um valor fixo.

Apenas 15% dos adolescentes norte-americanos entrevistados nesta primavera disseram que tinham interesse em obter um cartão de crédito próprio. Em 2000, foram 34%, de acordo com uma pesquisa entre 2.000 adolescentes conduzida pela Teenage Research Unlimited, empresa de pesquisa de mercado em Northbrook, Illinois.

O número dos que têm cartão de crédito em seu nome também caiu de 11%, em 2000, para 9%. Jovens com menos de 18 anos não podem legalmente solicitar cartões próprios, mas os pais podem ter uma conta conjunta com eles.

A falta de entusiasmo talvez seja causada pelos novos formatos de cartão, mas também por aulas de planejamento financeiro voltadas para os jovens e pelas histórias de universitários afogados em dívidas, disse Rob Callender, diretor de tendências da Teenage Research Unlimited. Em média, os estudantes universitários norte-americanos devem US$ 2.169 (cerca de R$ 5.400) às empresas de cartões de crédito, de acordo com um relatório de 2005 de Nellie Mae, firma que empresta dinheiro aos estudantes.

"Eu não ficaria surpreso se os dados mostrarem que eles aprenderam com os erros do passado e não estão dispostos a repeti-los", disse Callender. "Este grupo de adolescentes tem uma cabeça enorme sobre os ombros. São motivados. São espertos."

Eles também são consumidores experientes, que têm influência crescente nos gastos americanos. Em 2004, os 33 milhões de adolescentes dos Estados Unidos, com idades entre 12 e 19, foram responsáveis por US$ 169 bilhões (em torno de R$ 420 bilhões) em gastos -sem incluir as compras em seu nome ou compras da família, de acordo com a Teenage Research Unlimited. Grande parte desse dinheiro foi para roupas, lanches, sapatos, CDs, games, tocadores de MP3, equipamento de computador e telefones celulares.

O consumo não passou despercebido pelas empresas de cartões e bancos. A MasterCard recentemente introduziu um cartão pré-pago chamado MyPlash, um cartão de débito recarregável. O cartão é decorado com fotografias de celebridades da música, como Clay Aiken, atraindo os jovens consumidores.

A Visa também tem cartões pré-pagos, inclusive o Hilary Duff e o Visa Buxx, feitos para pré-adolescentes. As empresas enfatizam que os cartões podem preparar melhor os jovens para o dia que tiverem seu próprio cartão de crédito.

Os cartões "requerem que os adolescentes vivam dentro de um orçamento", disse Rhonda Bentz, porta-voz da Visa USA em San Francisco. Ela disse que os pais podem limitar os gastos e facilmente monitorar aonde vai o dinheiro, enquanto garantem que os filhos têm dinheiro quando viajam ou em caso de emergência.

"Dar dinheiro vivo é mais antiquado", disse Jenifer Lippincott, de Weston, Massachusetts, que automaticamente transfere as mesadas para as contas de suas duas filhas, de 14 e 16 anos, que pagam por seu entretenimento com seus cartões de débito. Lippincott disse que o sistema obriga as filhas a manterem seus saldos em dia e deixa um rastro claro de seus gastos.

E, com o atual clima de roubo de dados de identidade, ela fica feliz por suas filhas optarem por alternativas aos cartões de crédito.

"Quando ouço falar nessas coisas, minha reação imediata é 'ufa'", disse Lippincott, que também escreveu o livro "Seven Things Your Teenager Won't Tell You (And How to Talk About Them Anyway)" (Sete coisas que seu filho adolescente não vai lhe contar -e como falar sobre elas assim mesmo), publicado pela Ballantine Books neste ano. "Com cartões de débito, você realmente tem o melhor dos dois mundos. O adolescente pode ter a experiência de ter um cartão de crédito sem correr os riscos."

Ela disse que sua filha de 16 anos, Anabel, recebeu seu primeiro cartão de débito aos 15, e sua filha mais nova, Tess, começou ainda mais moça, aos 13. Tess hoje tem 14 anos e disse que gosta do cartão porque sempre tem dinheiro para ir ao cinema ou comer fora. Além disso, disse ela: "Me faz sentir mais velha."

Nem todos acham positivo o cartão pré-pago e de débito para adolescentes.

"É a última fronteira para as empresas crédito expandirem seus mercados. Elas estão buscando clientes cada vez mais jovens porque, se conseguirem colocar aquele primeiro cartão em suas mãos, conseguem um cliente para a vida toda", disse Jim Tehan, porta-voz da Myvesta.org, uma organização de educação do consumidor sem fins lucrativos.

Uma porta-voz da MasterCard, Barbara Coleman, negou a afirmativa. "Não fazemos propaganda para os menores", disse ela, acrescentando que o MyPlash era para fãs das celebridades na frente dos cartões. Mesmo assim, disse ela, os pais podem usar os cartões para ensinar as crianças sobre administrar suas finanças.

Os críticos, entretanto, preocupam-se que os adolescentes possam desenvolver maus hábitos, especialmente o acúmulo de dívidas.

"O dinheiro fica tão abstrato", disse James A. Roberts, professor de marketing da Universidade Baylor em Waco, Texas, que passou 10 anos estudando o comportamento em relação aos cartões de crédito. As pessoas que usam cartões de crédito tendem a gastar mais, são menos sensíveis aos preços e superestimam seu patrimônio, disse ele.

Durante anos, as empresas de cartões foram criticadas por anunciar agressivamente para universitários e oferecer camisetas gratuitas e outros brindes para que abrissem contas. Algumas universidades proibiram as empresas de cartão de crédito de entrarem no campus, por temerem que os alunos acumulassem grandes dívidas.

Ben Martin viu o problema de perto, como gerente de mídia do Colégio Saint Rose em Albany, NY. Ele decidiu que em sua casa, os cartões de crédito seriam proibidos inteiramente. Suas duas filhas, hoje com 18 e 25 anos, podem ter crédito próprio, mas ainda não adquiriram cartões.

"Elas precisavam aprender que o dinheiro não é efêmero; é real", disse Marvin. "Elas precisavam sentir o dinheiro entrando e saindo de suas mãos. Com um cartão é tão fácil."

A filha mais moça de Marvin, Johanna, que estuda na Universidade Butler, em Indianapolis, disse que não se incomodou com a regra dos pais.

"Eu não era responsável suficientemente para lidar com um cartão, para saber quando usá-lo ou não, pagar as contas", disse ela. "Tento manter o dinheiro comigo. Você nunca sabe quando vai precisar."

Os cartões de crédito não desapareceram inteiramente da vida adolescente. Aos 15, Emily Merkel de Portland, Oregon, não tinha idade para dirigir, mas já podia comprar roupas, jantares e música on-line com seu próprio cartão. O luxo foi um presente de aniversário dos pais, com poucas restrições de gastos além do limite de US$ 1.000 (cerca de R$ 2.500) do cartão.

"Não há muitas regras, acho", disse Merkel, com 16. "Só não gaste dinheiro que você não tem. Pague sua conta todo mês."

Merkel algumas vezes leva na bolsa o saldo do cartão, para saber o que está gastando. A conta mensal chega endereçada a sua mãe, que a entrega a Merkel para que pague com sua mesada de uma conta no banco. Ela disse que gosta de ter sido treinada desde cedo, antes de ir para a faculdade, e que os pagamentos do cartão eram fáceis de fazer pela Internet.

"Nunca gastei mais do que eu tinha", disse Merkel. "Algumas pessoas que eu conheço abusaram do cartão. Mas eu acho que ele é muito prático. Não sou uma pessoa de carregar dinheiro. Se tiver dinheiro vivo, sou tentada a gastá-lo."

E em algumas escolas, os cartões de crédito continuam sendo símbolo de status.

"Ter um cartão de crédito no colégio era uma forma de se provar, de provar sua imagem", disse Jessie Evangelista de Cherrytown, N.Y., que obteve seu próprio cartão no primeiro ano do ensino médio, como prêmio por suas boas notas. Hoje com 19 anos, ela está na faculdade em Middlebury, Vermont.

Algumas dicas para ensinar as crianças a usarem cartões de crédito, débito ou pré-pagos com sabedoria:

- Seja um exemplo. Use os cartões da forma que você quer que seus filhos usem. Deixe as crianças verem você pagando as contas e ouvirem discussões de como você gasta seu dinheiro. Seja honesto sobre seus erros com gastos no passado.

- Ajude os menores a terem noção dos limites de seu cartão. Mostre os extratos mensais. Ensine-os sobre taxas de juros e como podem fazer aumentar a dívida.

- Se seus filhos ganham mesada, estimule-os a ter um planejamento, economizar e gastar seu dinheiro com sabedoria, mostrando como as taxas de juros, taxas anuais e bancárias funcionam. Monte metas financeiras de longo prazo. Ajude-os a identificar como estão gastando seu dinheiro e se suas compras são sábias.

- Instrua as crianças sobre o que fazer se o cartão for perdido ou roubado. Lembre-as de levar o número a ser chamado para informar da perda ou extravio do cartão. Exorte-as a decorar suas senhas e diga para que não emprestem seus cartões.

- Fique alerta para roubo de dados de identidade, como ofertas de cartão de crédito pré-aprovadas chegando em nome de seu filho. Verifique anualmente a situação de crédito de seu filho. Deborah Weinberg

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