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26/06/2005

O rei menino deixou a mesa

The New York Times
Alex Williams

Em Las Vegas, Nevada
Em termos de Las Vegas, é quase um rito de primavera: um talentoso recém-chegado planta seu cotovelo no feltro verde da mesa de dinheiro alto no Mundial de Pôquer. Ele ganha uma bolada, começa a falar algumas besteiras e, inevitavelmente, começam os murmúrios. "Ele é o próximo Stuey", alguém dirá. "Ele é outro Garoto."

Mas qualquer um que já jogou de fato contra Stu Ungar discordará.

"Ele acabaria com estes caras", disse Bobby Baldwin, um campeão do final dos anos 70, se referindo à nova geração de jogadores que inchará o Mundial de Pôquer deste ano com mais de 6 mil participantes nos eventos principais, mais do que o número de jogadores do torneio do ano passado, que por sua vez atraiu cerca de três vezes mais jogadores do que o ano anterior. "Eles não teriam nenhuma chance."

Stu, ou Stuey the Kid (o Garoto), Ungar foi o enfant terrible fanfarrão do pôquer antes dele se tornar uma obsessão popular nos anos 90. Filho diminuto de um bookmaker do Lower East Side, aos 27 anos ele já tinha conquistado títulos consecutivos do Mundial de Pôquer e ganhou, e perdeu, US$ 30 milhões, segundo uma estimativa, antes de seu gosto épico por excessos tê-lo deixado morto em um motel barato de Las Vegas, em 22 de novembro de 1998, aos 45 anos de idade.

Uma lenda ainda em vida, Ungar deixou um legado que sempre pairou sobre o Mundial de Pôquer realizado anualmente em Las Vegas. Ele paira ainda mais pesadamente sobre os centenas de jogadores que perambulam pelo salão de convenções, parecido com um hangar, do Harrah's Rio All-Suite Hotel and Casino, onde o torneio está sendo realizado neste ano. (Ele teve início em 2 de junho e vai até 15 de julho.) Sua biografia, "One of a Kind: The Rise and Fall of Stuey 'the Kid' Ungar, the World's Greatest Poker Player", de Nolan Dalla e Peter Alson, chega às livrarias nesta semana.

Para seus contemporâneos, Ungar continua sendo a história de alerta definitiva para o jogador, a personificação do risco fatal. Mas para uma nova geração débil de jogadores, enfeitada com óculos de sol Oakley de snowboard e iPods, treinada em pôquer na Internet e ansiando por patrocínio corporativo, Ungar é um gênio renegado, o último e mais selvagem dos jogadores que aprenderam o jogo em clubes ilegais de carteado e que jogavam pela emoção, com um abandono ao estilo rock and roll.

"Ele era puro id", disse Adam Schoenfeld, um jovial jogador de 41 anos do Brooklyn usando tênis Puma e boné de caminhoneiro, que se considera um membro do "culto a Stuey" e que tem uma foto emoldurada do jovem Ungar pendurada em seu apartamento. "Eu posso ficar olhando para ele o dia todo", disse ele. "Ele está lá reclinado. Ele está no auge. Você pode ver no rosto dele o desprezo por tudo ao seu redor."

Como Alson, o co-autor da biografia de Ungar, disse: "Ele era o Jim Morrison do pôquer".

Com suas bochechas cavadas e beiço rude, Ungar parece no papel de um rebelde romântico. E tendo se tornado um protegido da família criminosa Genovese após aprimorar seu talento nos clubes ilegais de carteado de Nova York nos anos 60, como reconta sua biografia, ele adotou o jeito arrogante de sabe-tudo.

Em Las Vegas, para onde se mudou no final dos anos 70, ele passou a andar com um tipo diferente de fora-da-lei. Os tubarões reinantes do carteado na época eram na maioria "esbanjadores" de meia-idade do Sul rural que aperfeiçoaram seu jogo ao longo de décadas, gostavam de chapéus brancos Stetson e atendiam por nomes como Amarillo Slim Preston e Doyle Texas Dolly Brunson.

"Naquela época, eram homens do petróleo do Texas, gângsteres, traficantes de drogas", lembrou Dalla. "Era o Velho Oeste. Agora é um jogo técnico. O pessoal da matemática está tomando conta."

Os jogadores mais velhos se irritavam com o estilo arrogante e abrasivo de Ungar, mas não podiam negar seu talento.

"A mente dele funcionava 99,9999% mais rápida do que as dos outros", lembrou Mike Sexton, um jogador proeminente e que jogou com freqüência com Ungar desde o final dos anos 70.

Apesar dos principais jogadores jovens de hoje terem a tendência de exibir uma ousadia estudada, Ungar, por outro lado, era conhecido por seu destemor camicase combinado com um faro de predador por fraqueza. "Eu lembro dele me dizer: 'Eu só preciso me estimular a odiar meus oponentes'", disse Sexton, falando em meio ao barulho da movimentação de milhares de fichas. "Eu apenas quero estraçalhar suas gargantas."

Colocando a proeza de Ungar em perspectiva, Dalla, que atua como diretor de mídia do Mundial de Pôquer, apontou que Ungar venceu 10 dos 30 eventos importantes do qual participou, apesar de perder muitos dos seus melhores anos para o vício em drogas. Este é um recorde "desconcertante", ele disse. "Há pessoas que vencem mais de 10 torneios de US$ 10 mil, mas isto ao longo de mais de 20 anos, ao longo de literalmente centenas de torneios."

Mas para aqueles que jogam no rastro de Ungar, sua autodestruição continua sendo uma parte indelével do seu atrativo. "Ele é uma lenda", disse Shane Schleger, um jogador de 28 anos de Nova York, fazendo uma pausa para fumar um cigarro entre os jogos. "O tipo de personalidade que é atraída a este estilo de vida está fadada a ter muito vício em sua vida. Eu conheço bem isto."

"Vamos dizer assim", ele acrescentou, "Stuey morreu por todos os nossos pecados".

Stuart Errol Ungar nasceu em 8 de setembro de 1953 na Baixa Manhattan. Seu pai, Isidore Ungar, era dono de um bar, mas ganhava dinheiro de verdade como bookmaker de apostas em esportes.

Quando Stuey ainda estava no primário, ele foi recrutado para manter as anotações de acertos de contas. Ele aprendeu sobre cartas -principalmente o que não fazer- observando por sobre o ombro de sua mãe nos jogos de pôquer das noites de domingo, em resorts de verão nos Catskills. Quando chegou aos 10 anos, ele já dizia a ela como jogar.

O jovem Ungar revelou ter aptidão por quase todos os jogos de cartas que experimentou, e aos 15 anos ele abandonou o colegial para jogar gin rummy, freqüentemente ganhando até US$ 500 por jogo em vários clubes de carteado. Foi em um destes clubes que ele conheceu uma garçonete loira ardente chamada Madeline Wheeler. Com 1,65 metro e vestindo um poliéster vistoso de um chefão de 50 anos do Brooklyn, Ungar dificilmente seria um pretendente ideal, mas sua persistência e carisma eventualmente lhe valeram um encontro - após um ano. Eles se casaram em 1982.

"Eu sabia no que estava me metendo", lembrou Madeline Ungar, 52 anos, no início de junho durante um almoço no Caesars Palace, onde ela trabalha em uma butique de moda. "Eu sabia que o carteado sempre estaria presente."

Naquela altura da carreira de jogador de Ungar, o pôquer ainda era um interesse menor. Gin era o jogo dele e, segundo amigos, sua habilidade parecia próxima da magia. Mas ele fracassou em ganhar a vida com isso, ao humilhar um jogador atrás do outro. "Eles desmoronavam diante dos meus olhos", ele disse para Dalla. "Eles tinham aquele olhar de que sabiam que não podiam vencer. Era lindo."

Em pouco tempo ele descobriu que era impossível arrumar com quem jogar. Assim, em um dia de primavera de 1978, ele apareceu no jogo de pôquer de apostas mais altas da época em Las Vegas, o jogo sem limite do Texas no cassino Dunes, jogando um maço de notas no valor de US$ 20 mil na mesa. O dinheiro acabou em menos de 15 minutos, reconta sua biografia. Mas após 36 horas, Ungar recuperou a soma e mais US$ 27 mil.

Em 1980, quando Ungar venceu seu primeiro mundial, levando para casa US$ 365 mil, ele estava morando em Las Vegas com Madeline e Richard Wheeler, o filho dela de um breve casamento quando ela tinha 18 anos. Como marido ele tinha sérios defeitos, disse Madeline Ungar. Às vezes ele desaparecia por dias, jogando cartas e correndo atrás de mulheres.

Enquanto isso, os rituais básicos da vida diária continuavam um mistério. Ele nunca abriu um conta bancária, disse Madeline, e fazia suas compras em lojas de conveniência.

"Na época em que ele tinha dois ou três milhões de dólares no seu bolso, eles cortaram a luz porque ele não pagava as contas", disse Sexton.

Jogadores de altos valores são uma raça que tem um relacionamento curioso com dinheiro. (De que outra forma você poderia apostar US$ 20 mil em um blefe?) Mas para Ungar, disseram aqueles que o conheceram, dinheiro não significava nada, exceto ser uma forma de registrar o placar.

Mickey Appleman, outro jogador de Nova York que conheceu bem Ungar, disse que ele sempre mantinha uma curta lista mental das "pessoas de 'ação' real em Vegas". Estes eram os jogadores em busca de emoção que "não pensavam em imposto de renda ou neste tipo de baboseira nas quais outras pessoas pensam" Appleman incluiu a si mesmo na lista, mas Ungar, disse ele, "estava fora dos mapas".

Em um café Starbucks na Sahara Avenue, Stefanie, a filha de Ungar que tem 22 anos e descreve a si mesma como cristã, estava estudando para ser psicóloga. Ela lembrou recentemente que ele dava uma gorjeta de US$ 100 em uma conta de US$ 50. "Ele dava US$ 20 para o ajudante de garçom que vinha limpar seu prato", disse ela. Ele comprou e perdeu casas estilo Tudor e Jaguares.

"A jogatina estava enraizada dentro dele", disse Sexton, que disse que Ungar ganhava dezenas de milhares de dólares no pôquer, um jogo no qual ele era um campeão mundial, e então perdia tudo em corridas de cachorro, um esporte do qual não sabia nada.

"Ele era o melhor vencedor de pôquer que já vi, e era um dos piores perdedores de pôquer que já vi", disse com fala arrastada Doyle Brunson, 71 anos, uma lenda do pôquer.

Ungar já era volátil desde o início, mas seu flerte com a cocaína, que cresceu constantemente até se tornar um vício profundo ao longo dos anos 80, provou ser sua ruína, disseram amigos. Ele e Madeline se divorciaram em 1986. A vida de Ungar continuou decaindo.

Em 1990, segundo sua biografia, Billy Baxter, um amigo de Ungar e também um jogador de peso, pagou US$ 10 mil para que este pudesse participar do Mundial de Pôquer. Após as apostas passarem a US$ 70 mil, Ungar não compareceu no terceiro dia e foi encontrado inconsciente, de cueca, no chão de seu quarto. Ele não voltou mais à mesa durante o torneio, mas seu sucesso inicial lhe valeu o nono lugar e um prêmio de US$ 20.050.

À medida que a indústria do jogo se tornava cada vez mais corporativa, outros jogadores de peso encontraram formas de empregar seus talentos. Bobby Baldwin trabalhou para Steve Wynn, o operador de cassino, como alto executivo. Sexton se tornou comentarista do Circuito Mundial de Pôquer. Brunson e outros lançaram salas de pôquer online. Enquanto isso, Ungar continuava à deriva.

Então, em 1997, usando óculos de sol redondos e azulados ("para esconder o fato de que suas narinas tinham sofrido colapso devido à cocaína", explicou Alson) e parecendo um "mendigo", segundo Dalla, que estava lá, Ungar se sentou para jogar no Mundial de Pôquer e foi para casa com o primeiro prêmio, no valor de US$ 1 milhão. Dalla disse que o prêmio, que foi dividido com Baxter, que bancou Ungar, evaporou em quatro meses.

Àquela altura, a filha de Ungar, que costumava falar com ele cinco vezes por dia, contou que ela lhe disse: "Eu não vou mais atender o telefone até ver Mountain Vista (um centro de reabilitação daqui) no meu identificador de chamada".

Poucos dias depois de tal conversa, Stu Ungar foi encontrado morto devido a um ataque cardíaco, sozinho, na cama de um motel no fim da Strip. Ele tinha US$ 800 em dinheiro. E apesar de ser conhecido por ingerir quantidades imensas de drogas, o legista encontrou apenas leves vestígios em seu sistema. A faxineira o viu na cama, tremendo, no dia anterior.

A vida breve e veloz de Ungar já inspirou um filme, o pouco visto "Stuey", estrelado por Michael Imperioli, em 2003. Na semana passada, Graham King, o produtor britânico que bancou "O Aviador" e "Traffic", comprou os direitos de "One of a Kind". Se Ungar ainda estivesse vivo, disseram amigos, ele dificilmente ficaria surpreso em ver sua vida se transformar em mito de Hollywood. Na verdade, ele esperava por isso.

Ele só tinha um problema, lembrou Mike Sexton: "Stuey sempre dizia: 'Tá, mas quem é bonito o suficiente para me interpretar?'" George El Khouri Andolfato

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