UOL Notícias Internacional
 

26/06/2005

Oferta chinesa pela Unocal expõe rachas na política americana

The New York Times
Richard W. Stevenson

Em Washington, DC
A resposta inicial do presidente Bush à possível aquisição de uma importante companhia de petróleo americana por uma rival chinesa tem sido se esquivar. Não é difícil ver o motivo.

A oferta de US$ 18,5 bilhões da China National Offshore Oil Corporatin
(Cnooc) pela Unocal, que já estava em processo de ser adquirida por uma gigante americana do petróleo, a Chevron, está forçando o governo a confrontar seus próprios rachas internos sobre se a China deve ser vista como amiga, inimiga ou algo intermediário.

Isto está colocando em evidência uma série de questões econômicas e de política externa relacionadas - desde o programa nuclear da Coréia do Norte à crescente dependência dos Estados Unidos de capital estrangeiro e a crescente pressão sobre os preços da gasolina provocada pela sede de petróleo da China - que desafiam soluções fáceis.

Dificilmente uma semana se passa sem que Bush prometa tornar os Estados Unidos menos dependentes de fontes estrangeiras de energia, de forma que qualquer acordo que aumente tal dependência - ou mesmo apenas seja percebido como contribuindo para isto - criará um problema para ele.

E a situação deixou o governo novamente diante da possibilidade de que seus vários laços com a indústria do petróleo se tornarão uma questão política.

"É simplesmente uma dor de cabeça para eles", disse James B. Steinberg, que foi vice-conselheiro de segurança nacional do presidente Bill Clinton.

Por ora, o governo está mantendo um padrão. Sem a finalização de um acordo, o secretário do Tesouro, John W. Snow, disse ao Comitê de Finanças do Senado, na quinta-feira, que a questão permanece hipotética. A Casa Branca tem evitado comentar sobre o assunto.

Pessoas de dentro e fora do governo que estão envolvidas no assunto disseram que a Casa Branca fará o máximo para evitar tomar uma posição por ora ao submeter um acordo, caso seja concluído, a um entidade conhecida como Comitê de Investimentos Estrangeiros nos Estados Unidos, que analisa aquisições sensíveis por empresas do exterior com base na segurança nacional.

"Nós temos muita coisa na mesa com a China", disse um assessor de Bush, que falou apenas sob a condição de anonimato porque o presidente desencoraja discussões não autorizadas sobre deliberações internas. "Como cair duramente em cima deles por causa deste acordo?"

Lidar com política de energia sempre teve uma carga política para Bush, que iniciou sua carreira profissional em meados dos anos 70 como um homem independente do petróleo no Texas e que sempre foi tachado por seus oponentes de ser um instrumento da indústria do petróleo. O vice-presidente Dick Cheney é um pára-raios ainda maior deste tipo de crítica, por ter comandado a Halliburton, a gigante de prestação de serviços em campos de petróleo, antes de se juntar à chapa republicana em 2000.

A secretária de Estado, Condoleezza Rice, foi diretora da Chevron por uma década antes da eleição de Bush, e tinha até mesmo um petroleiro batizado com seu nome. (Depois disso, o petroleiro teve seu nome mudado.)

Mesmo se estiver inclinado a adotar uma posição forte sobre a aquisição, Bush ainda assim terá que lidar com as divisões entre seus conselheiros sobre como proceder.

Nos últimos meses, o Pentágono e o Departamento de Estado têm adotado uma linha dura em relação à China, refletindo a maior pressão dos conservadores dentro e fora do governo.

Em um discurso em Cingapura neste mês, o secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, criticou a China por aumentar seus gastos militares na ausência de uma ameaça óbvia, e disse que o aumento da liberdade política na China não acompanhou o crescimento econômico. Funcionários do Departamento de Estado têm sido diretos ao declarar que a China não tem feito o bastante para usar seu poder econômico para pressionar a Coréia do Norte a negociar seriamente o fim de seu programa nuclear.

Mesmo antes do caso da companhia de petróleo ganhar as manchetes, a Casa Branca estava trabalhando furiosamente para aparar as arestas de um relatório do Pentágono sobre a China, que será divulgado em breve, que descreve o país como uma ameaça militar potencial. E em apenas duas semanas, Rice deverá visitar Pequim, pressionando novamente por ajuda em relação à Coréia do Norte e argumentando que se esta se recusar a abrir mão de seu programa nuclear, o governo vai querer que a China se junte na adoção de sanções. Os chineses deixaram claro que querem evitar isto a todo custo.

Mas se os conselheiros de segurança nacional de Bush assumiram uma posição mais linha dura recentemente, sua equipe econômica tem de modo geral visto a China como um vasto mercado a ser aberto, uma fonte vital de capital para os Estados Unidos e um país cuja liberalização política pode ser encorajada pelo engajamento econômico. Adotar uma ação punitiva contra a China agora, disse Snow ao Comitê de Finanças do Senado na quinta-feira, seria contraproducente.

Ainda não se sabe como ficarão alguns participantes importantes do debate interno, especialmente Cheney, o principal arquiteto da política de energia do governo.

"Será necessária uma boa dose de liderança presidencial para tratar desta série de questões, atribuir prioridades e lidar com a política", disse Richard C. Bush, um membro sênior da Instituição Brookings que é uma autoridade em China.

As futuras conversações com a China sobre a ameaça nuclear da Coréia do Norte ocorrerão tendo como fundo um relacionamento transpacífico que se tornou mais amistoso após um começo difícil no início do governo Bush. Mas as manobras diplomáticas estão sujeitas às tensões periódicas em torno de uma série de questões, incluindo Taiwan e o apoio da China ao Irã, um grande fornecedor de petróleo para os chineses.

"Lembre-se: para os chineses tudo está ligado: economia, diplomacia, postura militar. É tudo uma coisa só", disse um alto funcionário do governo, que se manifestou apenas anonimamente devido à sensibilidade do assunto.

Os motivos da Casa Branca para ganhar tempo e evitar qualquer escalada imediata das tensões com Pequim começam com o fato de que sua prioridade diplomática mais urgente no momento -desarmar a ameaça nuclear da Coréia do Norte - depende muito da cooperação da China. Tal esforço está entrando em uma fase crucial.

Mas há outros motivos estratégicos para manter o relacionamento estável. A estabilidade financeira dos Estados Unidos, com seus déficits orçamentários crônicos e propensão para gastar bem mais do que poupa, depende cada vez mais da disposição da China de comprar títulos do governo americano. Qualquer quebra nas relações poderá levar a taxas de juros mais altas.

Ao mesmo tempo, o governo está tentando conter uma resposta protecionista direcionada não apenas à China, mas também à filosofia de livre comércio em geral de Bush. O Congresso já está impaciente com o que muitos membros de ambos os partidos consideram a não disposição da China de jogar de acordo com as regras da economia global; qualquer passo para inflamar os sentimentos anti-China poderá dar nova força aos esforços para impor tarifas ou outras sanções comerciais apesar das objeções da Casa Branca.

O negócio proposto apresenta ao próprio Bush uma troca difícil quando se trata de abertura econômica. Bush há muito tempo tem louvado os benefícios da redução das barreiras para o fluxo de bens, serviços e dinheiro, e durante grande parte de seu governo tem dado as boas vindas a investimentos da China em empresas americanas. Neste ano, o governo aprovou a venda da divisão de computadores pessoais da IBM para uma empresa chinesa, a Lenovo. Esta abertura também funciona no sentido inverso: o Bank of America disse no início deste mês que pagará US$ 2,5 bilhões por uma participação no Banco de Construção da China.

Bush tornou a "independência em energia" um de seus temas definidores. Apesar dos chineses neste caso estarem dizendo que não tirarão petróleo dos Estados Unidos, os oponentes do acordo sugerem que isto colocará um recurso vital nas mãos de uma nação que tem um apetite voraz e crescente por energia para alimentar sua forte expansão econômica.

O negócio proposto também é uma janela para um assunto ainda mais amplo e mais complexo: como os Estados Unidos devem administrar seu papel na economia global.

No governo Clinton, a globalização emoldurou grande parte do debate sobre política externa e econômica. Bush tende a não ver o mundo sob o mesmo prisma e, especialmente desde os ataques terroristas de 11 de setembro, a globalização tem estado claramente subordinada a questões de segurança na consideração política.

Mas as forças que a globalização abrange têm continuado a mudar economias nacionais e vidas individuais à medida que empregos e dinheiro migram através das fronteiras, com empresas e mercados se adaptando. E devido ao seu alto perfil, a oferta chinesa pela Unocal poderá levar Bush a enunciar mais princípios que ele acha que deverão guiar as trocas dolorosas que a globalização freqüentemente exige.

"Isto faz parte do desafio maior e mais importante diante dos americanos", disse Rahm Emanuel, que foi um alto conselheiro de Clinton antes de ser eleito para o Congresso como um democrata de Illinois, em 2002. "Como competimos em uma economia global que sabemos que é melhor para nós, mas que individualmente leva a menos segurança do que mais oportunidade? A menos que lidemos com isto como um país, nós perderemos nossa posição predominante." George El Khouri Andolfato

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