UOL Notícias Internacional
 

28/06/2005

Como o parente de um doente mental deve agir?

The New York Times
Claudia Dreifus

Em Nova York
Assim como muitos romancistas, a autora best-seller Bebe Moore Campbell muitas vezes começa seus livros com experiências da própria vida. Em "Singing in the Comeback Choir" [Cantando no Coro do Retorno], ela escreveu sobre as relações entre gerações de uma família negra. Em "Brothers and Sisters" [Irmãos e Irmãs], examinou as dificuldades das amizades entre negros e brancos.

Tom Herde/The Boston Globe 
Novo livro de Bebe Moore Campbell aborda a vida dos doentes mentais e suas famílias
E em seu recém-lançado "72 Hour Hold" [72 Horas em Observação], a autora nos fala de Keri, uma mulher negra determinada que às vezes se imagina como Harriet Tubman enquanto tenta salvar sua filha adolescente da doença bipolar. (O título se refere ao período que os doentes mentais podem ser hospitalizados sem seu consentimento na Califórnia.)

A família da própria Campbell experimentou um caso de doença mental, o que despertou sua paixão e sua militância. Três anos atrás, no sul da Califórnia, ela ajudou a fundar a seção de Inglewood da organização de auto-ajuda Aliança Nacional para os Doentes Mentais (Nami na sigla em inglês).

"Grupos de apoio como o Nami são uma boa maneira de enfrentar os problemas aparentemente insuperáveis que as pessoas enfrentam quando um ser querido sofre doença mental", disse Campbell, 55, em uma entrevista recente em Nova York.

Ela viajou à costa leste para receber o Prêmio Renaissance de autora do ano da Blackboard, que compila listas de best-sellers de livrarias afro-americanas.

"Conscientizar as pessoas de que existe ajuda tornou-se minha missão pessoal", ela diz.

Leia abaixo uma entrevista com a autora.

The New York Times - A senhora é conhecida como autora de ficção popular. Seus livros são divertidos. Como escreve um romance popular sobre um tema tão triste quanto a doença mental?

Bebe Moore Campbell -
Bem, eu espero que o livro seja popular. Ele pretende ser. Essa questão certamente afeta muita gente. A Aliança Nacional para os Doentes Mentais estima que uma em cada quatro famílias enfrentará em algum momento algum tipo de doença mental. Mas a doença mental é estigmatizada. O americano prefere dizer "Sou viciado em drogas" a admitir que tem um distúrbio bipolar. Isso é particularmente verdadeiro nas comunidades negras, onde a doença mental é mais estigmatizada.

Os afro-americanos, latinos, asiáticos --já somos estigmatizados pela cor de nossa pele, e isso é mais uma coisa para nos relegar a uma classificação inferior como ser humano. Então é assim: "Não vou lhe dizer que meu parente tem distúrbio bipolar. Vou lhe dizer que ele não gosta de ficar entre muitas pessoas".

NYT - Por que é errado dar uma interpretação positiva a algo tão devastador quanto a doença mental?

Campbell -
A pessoa amada provavelmente não receberá a ajuda de que precisa em termos de medicação ou psiquiatria. Há comportamentos que exigem tratamento.

E há outra questão aí. Se você é um doente mental afro-americano e não recebe tratamento, coisas realmente ruins podem lhe acontecer. O tipo de comportamento que alguns doentes mentais às vezes apresentam pode facilmente levá-los à prisão se forem negros.

NYT - Como exatamente começou essa questão para a senhora?

Campbell -
Da maneira mais difícil. Eu tenho um membro da família doente mental, e quando comecei a ver mudanças em seu comportamento me fechei.
Não conversávamos sobre isso fora da família mais imediata. Um dia, mais ou menos confessei para uma amiga íntima. Ela me pediu para ligar para sua amiga, uma mulher maravilhosa chamada Nancy Carter, que também tem um parente doente mental. "Não quero colocar meus assuntos na rua", eu disse.

Demorei um ano para ligar para Nancy. Ela chamou outras pessoas e conseguiu marcar uma reunião entre seis mulheres afro-americanas na mesma situação. Nós nos chamamos de Grupo de Apoio de Irmãs. Conversamos, rezamos e às vezes até assistimos a filmes. É a melhor coisa estar naquela sala cheia de pessoas dizendo "Alguém que eu amo tem uma doença mental e eu preciso de ajuda".

Esse grupo original evoluiu para a seção de Inglewood da Aliança Nacional para os Doentes Mentais. Em três anos crescemos para cem membros. Organizamos grupos de apoio, damos cursos, falamos em igrejas.

NYT - Quando a senhora leva a causa dos doentes mentais para igrejas, o que diz?

Campbell -
Procuramos o pastor e lhe pedimos para aceitar a idéia de que, quando se trata de doentes mentais, as orações poderiam ser atendidas através de medicação e terapia. Muitas vezes há uma reticência sobre drogas. As pessoas sentem que já fomos drogados demais.

Tivemos sucesso com alguns ministros mais jovens, que foram treinados em aconselhamento. Mas às vezes você encontra pastores que têm uma idéia definida sobre como eles percebem a intervenção de Deus. Querem curar a doença mental com orações. Eu acho que a medicação e a intervenção terapêutica são a resposta às orações. Alguns desses ministros são difíceis de convencer.

NYT - Alguns afro-americanos evitam o tratamento para a doença mental porque é caro demais?

Campbell -
É claro. Você sabe que nossa comunidade não tem tanto dinheiro, por isso nem sempre temos muito seguro-saúde. E mesmo para os segurados muitos planos não cobrem adequadamente a doença mental. Há maior probabilidade de ficarmos com nossos seres amados em casa e com um parente mais velho cuidando deles. E isso é devastador para famílias que às vezes mal sobrevivem.

Mas existem alguns recursos. Em Los Angeles, há leitos municipais. Existem instalações fechadas pagas pelo município, mas é preciso esperar na fila. Os psicólogos custam dinheiro, sim. Mas existem lugares onde as pessoas podem ir por taxas variáveis de acordo com as possibilidades. Os laboratórios farmacêuticos têm programas de medicamentos grátis, se você fizer a papelada certa.

Acho que nem sempre as pessoas sabem dessas possibilidades. Na Nami nós dizemos: "Se você 'sair do armário', lhe daremos a informação".

NYT - Em seu clássico trabalho de 1968, "Black Rage" [Fúria Negra], os psiquiatras William Grier e Price Cobbs sugerem que as situações de preconceito no dia-a-dia dos negros são suficientes para causar a doença mental. A senhora acha que isso é verdade?

Campbell -
O que eu aprendi é que há pessoas predispostas à doença mental. Está em seus genes. Por isso, se uma vendedora me segue numa loja de departamentos porque supõe que eu sou uma ladra, isso pode não precipitar uma doença mental em mim. Mas para uma pessoa com predisposição, o racismo do cotidiano pode ser um dos muitos fatores que despertam a doença mental.

NYT - Quando seu parente ficou doente, como fez essa pessoa se curar?

Campbell -
Com medicação e boa terapia. Meu ente querido teve de ir para uma instituição e ficar lá até que os medicamentos fizeram efeito.

NYT - A senhora se sentiu culpada quando seu parente foi hospitalizado?

Campbell -
Não. Porque eu sabia que estava fazendo aquilo por amor. A coisa não ia melhorar sozinha. Quer dizer, se isso é tudo o que você pode fazer, é a melhor coisa.

NYT - Tendo passado por essa tempestade com um membro da família, que mudanças a senhora gostaria de ver?

Campbell -
Em primeiro lugar, para um indivíduo que tem doença mental na família, eu diria: encontre um grupo de apoio. Eu diria às famílias para pedir a sua seguradora que cubram a doença mental como cobririam qualquer outra doença. Porque o tratamento mental é muito caro, eu começaria falando sobre o desenvolvimento de situações do tipo hospício --tratamento bom e mais barato.

No nível policial, eu gostaria que as pessoas se envolvessem na situação jurídica, para descriminalizar alguns dos crimes de doentes mentais. E não quero ser uma Poliana. Algumas pessoas precisam ficar atrás das grades, mas outras precisam de ajuda. Pelo menos o sistema precisa ter cadeias para doentes mentais, onde os prisioneiros recebam medicação.

Finalmente, eu pediria a Hollywood para parar de caçoar das pessoas "malucas". Na verdade, deveríamos parar de usar essa palavra. Para mim é um palavrão. Conclusão: mais sensibilidade, mais carinho, mais abertura. Escritora que viveu a situação lança um romance acerca do tema Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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