UOL Notícias Internacional
 

29/06/2005

Bush declara que mortes no Iraque 'valem a pena'

The New York Times
David E. Sanger

No Forte Bragg, Carolina do Norte
O presidente Bush, enfrentando uma crescente impaciência em todo o país e em seu próprio partido pelo fluxo constante de baixas no Iraque, declarou na noite desta terça-feira (28/06) que o sacrifício diário de vidas americanas no Iraque "vale a pena, e é vital para a futura segurança de nosso país".

Doug Mills/The New York Times 
Bush discursa na emblemática base militar do Forte Bragg
Em um discurso para o país feito nesta base do Exército, diante de uma platéia de 750 membros da 82ª Divisão Aerotransportada e da unidade das Operações Especiais baseada aqui, Bush falou em tons caracteristicamente graves da necessidade da permanência no que se tornou um longo conflito no Iraque.

Ele não deu prazos para a retirada dos americanos fora garantir que "assim que os iraquianos puderem se defender, nós nos retiraremos".

Apesar de não oferecer nenhuma nova estratégia em uma guerra que já se estendeu por 25 meses, sem nenhuma diminuição dos ataques contra as forças americanas, ele explicou que não enviará mais tropas para enfrentar a insurreição no Iraque, a menos que isto seja requisitado pelos comandantes que estão lá, porque isto "minaria nossa estratégia de encorajar os iraquianos a assumirem o comando desta luta".

Mas com a lentidão dos iraquianos em assumir tal papel, a tarefa de Bush na noite de terça-feira, reconheceram seus assessores, era tentar superar a discrepância cada vez maior entre as notícias diárias de baixas americanas e iraquianas e suas declarações periódicas de que os Estados Unidos estão vencendo.

"Como a maioria dos americanos, eu vejo as imagens de violência e derramamento de sangue", disse o presidente aqui, em uma base que já perdeu 89 soldados no Iraque e no Afeganistão, e que ainda tem perto de 10 mil de seus soldados no Iraque.

"Cada foto é horrível --e o sofrimento é real. Em meio a toda esta violência, eu sei que os americanos fazem a pergunta: tal sacrifício vale a pena?"

Ele respondeu rapidamente sua própria pergunta de forma afirmativa, novamente misturando os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 com os inimigos que os americanos estão enfrentando agora no Iraque.

Ele mencionou cinco vezes os ataques de 11 de setembro e argumentou que sair do Iraque agora significaria arriscar permitir que os terroristas transformem "o Iraque no que era o Afeganistão sob o Talibã, um refúgio".

Bush evitou discutir sobre se seu argumento para entrar na guerra era falho, ou baseado em evidências falsas de que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa, e não fez referência aos memorandos do governo britânico, revelados recentemente, que mostram que seu principal aliado na guerra nutria sérias dúvidas sobre se a Casa Branca tinha cogitado os riscos do período pós-invasão.

"O passado é o passado", disse o diretor de comunicações do presidente, Dan Bartlett, em uma entrevista dada aqui antes do discurso. "O presidente está tratando da questão do que estamos fazendo agora, e nós todos podemos concordar que temos que concluir o trabalho."

De pé diante de um fundo azul adornado com as insígnias das unidades enviadas desta base, Bush argumentou que se os Estados Unidos desistirem da guerra agora, "nós entregaremos o futuro do Oriente Médio para homens como Bin Laden".

Em uma rara referência direta às mensagens periódicas ameaçadoras de Osama Bin Laden, ele citou o líder da Al Qaeda como tendo declarado que "esta Terceira Guerra Mundial" que agora está sendo travada no Iraque terminará em "vitória e glória ou miséria e humilhação".

Após alguma relutância inicial, todas as três principais redes de TV transmitiram o discurso, que a Casa Branca agendou para marcar o primeiro aniversário do fim da ocupação formal do Iraque, e a transferência oficial de autoridade para um governo iraquiano interino que tem lutado para encontrar sua voz e exercer sua autoridade.

Os diretores das redes disseram que inicialmente hesitaram em transmitir o discurso em parte pela decisão de Bush de realizá-lo aqui, diante de soldados selecionados por seus comandantes, um cenário que poderia dar ao evento a aparência de um comício.

Eles não precisavam ter se preocupado. Em vez de interromper o presidente com aplausos, os soldados permaneceram sentados em silêncio em seus uniformes verdes e boinas castanho-avermelhadas, até que Bush, em um ponto avançado de seu discurso, declarou: "Nós permaneceremos na luta até a luta ser vencida". Então eles aplaudiram, o único aplauso que ele recebeu até o final do seu discurso.

O presidente escolheu locais fora de Washington para outros importantes discursos, incluindo um na estação de trem de Cincinnati, em outubro de 2002, para expor seu argumento de que o arsenal de Saddam representava uma ameaça direta para seus vizinhos e para os Estados Unidos, e seu discurso de maio de 2003, a bordo do porta-aviões Abraham Lincoln, para declarar que o líder iraquiano tinha sido deposto e que "as operações de combate principais" terminaram.

Tal discurso, lembrado pela faixa atrás do presidente que dizia "Missão Cumprida", foi usado pelos seus críticos como evidência de que a Casa Branca entrou na guerra sem pensar suficientemente sobre o alto custo, em dinheiro e sangue, do período pós-invasão.

Naquela noite no porta-aviões, próximo da costa de San Diego, Bush estava quase exaltado, declarando: "Nós vimos a virada da maré".

Mas o discurso da noite de terça-feira, dois anos e um mês depois, foi muito diferente ­­--um pedido por estoicismo e resistência, durante o qual Bush disse, pela segunda vez na semana, que este é "um momento de teste" para a nação.

Ele o comparou aos dias de trevas durante a metade da Guerra Civil. Mas ele pareceu encerrar seu discurso de 28 minutos descrevendo como espera que sua presidência será lembrada.

"Quando a história deste período for escrita", disse ele, "a libertação do Afeganistão e a libertação do Iraque serão lembradas como grandes momentos de virada na história da liberdade".

O âmago do argumento de Bush na noite de terça-feira era o de que o esforço tortuosamente lento para treinar uma força iraquiana estava finalmente dando frutos.

"Hoje, o Iraque tem mais de 160 mil homens na força de segurança treinados e equipados para uma série de missões", disse ele, repetindo um número que muitos oficiais americanos têm usado nos últimos meses para reforçar seu argumento de que a estratégia americana está começando a exibir resultados.

Mas tal número inclui soldados apenas com treinamento mínimo. Quando lhes foi pedido para que tal número fosse decomposto durante as recentes audiências no Congresso, os oficiais americanos se recusaram a fazê-lo em sessões abertas, dizendo que os números precisavam permanecer confidenciais para que os rebeldes não saibam quais são os pontos fortes e fracos das forças que se opõem a eles.

Bush pareceu reconhecer esta vulnerabilidade quando disse: "Nós temos muito trabalho a fazer", notando que apesar de algumas forças iraquianas "serem capazes de lidar com os rebeldes e terroristas por conta própria", um grande número necessita de ajuda ou "ainda não está pronto".

Ele não deu uma estimativa sobre quanto tempo leva o treinamento. Nem discutiu o estado da insurreição, que o vice-presidente Dick Cheney disse recentemente estar "nos últimos espasmos", apenas para ser contradito por altos comandantes militares americanos.

Tais previsões têm provocado rachaduras no Partido Republicano de Bush, que parecem ser parte do motivo para as pesquisas mostrarem um declínio acentuado na confiança no presidente e em sua estratégia.

O senador Chuck Hagel, republicano do Nebraska, sugeriu recentemente que a Casa Branca abandonou a realidade com suas avaliações otimistas do Iraque, e disse abertamente que os americanos estão perdendo para os rebeldes. Isto provocou uma forte censura de Cheney.

Apesar de seu discurso no Lincoln, dois anos atrás, ter feito pouca menção à ajuda estrangeira, na noite de terça-feira Bush mencionou os membros da Otan e outros países, dizendo que tiveram papéis cruciais.

Mas se em discursos anteriores ele comparava abertamente a reconstrução do Iraque à reconstrução do Japão e da Alemanha após a Segunda Guerra Mundial, ele reconheceu na terça-feira que o Iraque é um caso diferente.

"Reconstruir um país após três décadas de tirania é difícil, e reconstruir em meio a uma guerra é ainda mais difícil", disse ele. Presidente cita Bin Laden em discurso feito para justificar a guerra George El Khouri Andolfato

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